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A Manchester Catarinense venceu a Cidade da Dança

04 de março de 2015 0

por Cláudia Morriesen

A bailarina, com os olhos semicerrados, encara seu parceiro de dança: um carro branco que, passando pela avenida Beira-rio, no Centro de Joinville, não percebeu a intervenção da Muovere Cia. de Dança Contemporânea. Dentro dele, a motorista que quase parou em cima da faixa de pedestres, percebe a invasão. Ela dá a ré — e seus movimentos são acompanhados pela dançarina da Muovere, Maria Annita Brusque, como se dividissem a mesma canção.

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A ação que parou o trânsito em Joinville na manhã de terça-feira — eram cerca de 11h10 quando os quatro bailarinos da companhia gaúcha deram início à apresentação — faz parte do Projeto Desvio. A intervenção que inclui os improvisos nas faixas de pedestres de ruas movimentadas no centro das cidades foi batizada de Desvio Sinal. Atendendo a comandos, os dançarinos criavam passos baseados nos transeuntes das grandes cidades, fruto de uma pesquisa realizada desde 2011.

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A plateia nas calçadas era pequena — alguns interessados em artes, a equipe de limpeza do Centreventos Cau Hansen e alguns alunos da Escola Bolshoi —, mas este não era o foco da companhia. Neste caso, o público-alvo eram exatamente aqueles que não queriam saber de dança. Talvez não naquele horário, talvez não naquele local, talvez nunca na vida. Os motoristas tornavam-se espectadores sem livre-arbítrio: eles precisavam da pista para continuarem seus caminhos, e esta estava ocupada com a arte.

— As pessoas estão sempre preocupadas, correndo, e deixam de perceber quando as coisas boas passam na frente. Não só uma apresentação de dança, mas com as oportunidades da vida é a mesma coisa: “eu estou muito ocupado seguindo meus compromissos para enxergar além da rotina” — filosofou a bailarina Joana Amaral.

Segundo a companhia, é comum que em qualquer lugar que Desvio Sinal seja apresentado, ocorra a raiva passageira de quem está atrás do volante. Em Joinville, quem passou pela frente do Centreventos Cau Hansen durante os 20 minutos que a Muovere usou a faixa de pedestres como palco, a reação foi de buzinaço e de palmas irônicas. Um aluno do Bolshoi Brasil chegou a arriscar que Joinville deveria estar acostumada com este tipo de ação, já que é considerada a Cidade da Dança, mas que aqueles motoristas pareciam estar muito focados em chegar ao seu destino e não gostaram da “provocação”.

Se estivéssemos em julho, provavelmente alguém dentro do carro diria “Ah, deve ser aquele negócio de Festival de Dança”. Como é apenas início de março, poucos espectadores se permitiram relaxar por alguns minutos e aproveitar o show inédito. Mais importante do que isso era tentar um desvio, uma forma de seguir caminho sem olhar para os lados e enxergar além.

Crítica: todas as danças e linguagens do espetáculo "Verbi, o Idioma do Caos"

13 de outubro de 2014 0

Por Juca Rodrigues *

Existe alguma dimensão da experiência humana que não possa se traduzir em palavras? VERBI, espetáculo da Cia Teatro Alkmico com Luiz Canoa e direção de Marisa Naspolini, se depara com este desafio, embora sob outra perspectiva: a da criação de paisagens poéticas onde todas as línguas, todas as danças, todas as linguagens nos são apresentadas como o enigma de um sonho que só permanece como imagem justamente porque não se deixa decifrar.

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Fotos: Yéssica Saavedra Seguel / Divulgação

Na busca desta síntese poética de uma experiência humana intraduzível em palavras, o espetáculo opera nas fronteiras entre o teatro, a música e a dança, mas também na fronteira entre o reconhecível e o não reconhecível. A composição da cena parece-me muito feliz neste sentido, pois todos os elementos colaboram na afirmação desta instabilidade. A trilha, quase onipresente, tem papel fundamental no desenho destas fronteiras.

Primeiro ao tomar como material referências musicais fronteiriças: entre oriente e ocidente, o popular e o erudito, o moderno e o ancestral, o urbano e o bucólico. Segundo pois é ela, e também a luz quem organiza os quadros poéticos pontuando seus começos e fins, e também determinando a atmosfera geral de cada quadro. Talvez, entretanto, poderia deixar mais espaços abertos, mais respiros onde o enigma possa se apresentar sem esta sugestão afetiva.

O trabalho das máscaras de Ramon Noro, assim como os figurinos e a maquiagem de Emmanuel Bohrer Jr, colaboram nesta construção de uma figura que, na primeira parte do espetáculo, nunca se mostra inteiramente humana. Sempre ocorre algum elipse, alguma deformação, que não anula sua humanidade, mas não a afirma tão pouco. O corpo está lá, é verdade, mas ora encoberto ou deformado por tecidos, ora tem justamente seu rosto como que borrado ou anulado, e ora é transfigurado por uma máscara de duas faces opostas.

Como no universo onírico, a ideia de uma travessia está lá. Insinua-se uma certa experiência de travessia de vida, principalmente na cena inicial onde vemos o nascimento ou o despertar de uma criatura. Entretanto esta travessia existencial é regida por outra lógica, que não a lógica temporal e causal, a lógica onírica, e o curso desta travessia não nos leva, assim, à sua previsível morte. As imagens se sucedem como quadros poéticos autônomos e justapostos. Os seres que habitam este universo surgem e desaparecem sem motivo aparente e tem como único traço em comum o corpo do ator/dançarino/músico que lhes dá suporte. Cada quadro configura-se ao espectador como um enigma a interpelá-lo, como se disse.

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Como proposição poética, penso que é um trabalho feliz, mas há uma questão a ser levantada: como esta proposição se articula na sua relação com o espectador? Se o enigma da esfinge se apresenta como uma questão de vida ou morte para Édipo: decifra-me ou devoro-te, em VERBI, há que descobrir como transformar este enigma, se não em uma questão de vida ou morte, ao menos em uma carga de tensão e comprometimento. Sem esta carga, a questão se formula de maneira especulativa e confortável, tal como um analista em busca de leituras possíveis do sonho de seu paciente: decifra-me doutor, ou devoro-me.

Penso que o espetáculo tem muito a ganhar se conseguir transformar a proposição destas charadas poéticas em um problema urgente também para o espectador, sem permitir a postura meramente contemplativa do trabalho. Decifra-me ou…

 

* Jucca Rodrigues é dramaturgo e diretor. Email: juccarodrigues@gmail.com

Agende-se para as próximas apresentações: 8 e 9 de novembro, às 20h, na Casa das Máquinas, na Lagoa da Conceição, e dias 19 e 20 de novembro, 20h, no espaço Baobah, em Florianópolis. As apresentações são gratuitas.

Noite de Gala, do Prêmio Desterro, diverte mas não surpreende

21 de agosto de 2014 0

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Não lotou, mas um bom público - em sua maioria gente ligada ao universo da dança - esteve no teatro do CIC na noite de quarta-feira para a noite de gala do Prêmio Desterro, o festival de dança de Florianópolis que este ano sobe de patamar com uma mostra competitiva com mil bailarinos.

Eu não sou uma especialista em dança e escrevo aqui a partir do olhar de espectadora comum – que acompanha espetáculos de dança contemporânea com certa frequência por paixão pelo gênero. 3 Pontos, da Focus Cia. de Dança do Rio de Janeiro, é o nome do espetáculo, que reúne três peças: Um a Um, Pathways e Strong Strings, do coreógrafo e diretor Alex Neoral .

No total 57 minutos de dança contemporânea genuína, aquela que a gente espera mesmo ver, com um figurino básico (que poderia ser usado para ir ao supermercado, à academia ou a casa do vizinho), corpos atirados ao chão, movimentos que mostram que a dança é do cotidiano, faz parte do nosso dia a dia. Confesso que o início podia ter sido mais vibrante. A dança sem som deu uma certa preguiça e vi ao redor o público começar a se afundar nas poltronas.

Um a Um traz em sua essência a pesquisa de dois corpos que juntos geram novas possibilidades de movimento, dançado ao som de Sebastian Bach.

O melhor mesmo veio ao final com Strong Strings. A trilha é deliciosa: nova versão para clássicos do Nirvana. A coreografia é belíssima e divertida, quando os corpos sacolejam-se diante do rock contagiante da lendária banda americana. Aqui os oito bailarinos estão em boa parte do tempo no palco. Nas peças anteriores, os duos eram mais predominantes.

Por ser uma Noite de Gala, esperava mais da abertura do Desterro. Belo, mas não surpreendente. Agora que venha a mostra competitiva com grupos de Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Tocantins e Chile até o dia 24 de agosto.

Confira aqui a programação completa.

As modalidades passeiam pelo ballet clássico, de repertório, danças contemporâneas, danças de salão contemporâneas, danças de salão tradicionais, danças populares, danças urbanas, jazzes e sapateados.