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Posts na categoria "Festival Isnard Azevedo"

CRÍTICA - Um espetáculo onde a palavra não engole o ator, por Julianna Rosa de Souza

24 de outubro de 2014 0

Por Julianna Rosa de Souza

Faz algum tempo que tenho assistido na cena teatral a atores que são devorados pelo texto. Percebo que esse tipo de encenação, enquadrada numa concepção tradicional de teatro, acaba por fazer do ator um intérprete e reforça uma posição hegemônica do autor/dramaturgo. Como espectadora, me sinto enfadada ao ver o ator se debater contra o texto, como se cada palavra o sufocasse em uma métrica monocórdica.

Foto: Espanca! / Divulgação

Foto: Espanca! / Divulgação

Em outras palavras, um ator a serviço do texto  torna-se refém do próprio texto.

Em Líquido Tátil, os atores parecem saber deste perigo e por isso saboreiam cada palavra. Sem temer a irreverência do texto e a direção do argentino Daniel Veronese, os atores se colocam nas fronteiras do real e da ficção e compartilham com o público as inquietações de uma suposta realidade da cena.

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Os três atores (Grace Passô, Gustavo Bones e Marcelo Castro) não se escondem por trás de cortinas e tampouco se colocam numa zona intocável e protegida pela quarta parede. O grupo ESPANCA! coloca em cheque a representação teatral, e para isso utiliza  a própria representação para questionar a instável separação: palco/plateia.

Líquido Tátil não é uma comédia leve – ao contrário, é uma encenação que “morde”  o espectador (como o cão que não aparece no palco, mas que está em cena a todo o tempo) e por isso foge da tradicional necessidade de celebração do herói/protagonista.

Sem dúvida, Líquido Tátil marcou a programação do Festival Isnard Azevedo, trouxe para Floripa o brilhantismo de Daniel Veronese e a sintonia/ritmo dos atores do grupo ESPANCA!

Enfim, um espetáculo que não se deixa engolir pelo texto.

 

Por Julianna Rosa de Souza, atriz e mestre em Teatro pela Udesc.

$em Vintén$ é produção local de alta qualidade dentro da programação do Isnard Azevedo

23 de outubro de 2014 0

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Fotos Festival Isnard Azevedo/ Divulgação

Uma das boas novas do Festival de Teatro Isnard Azevedo é a mostra paralela Circuito Universitário, que conta com 11 companhias da Udesc e três da UFSC. O ampliado espaço que a produção universitária tem no evento mostra a força da produção local e da pesquisa em teatro catarinense


Confira a programação completa do Festival


Pois na noite de quarta-feira vimos um Teatro Ademir Rosa lotado. A atração era convidada, mas não vinha de outro estado brasileiro (com todo o respeito as boas produções que tem passado pelo Festival). O CIC lotou para ver $em Vintén$, espetáculo do núcleo de teatro da Udesc (CEART/UDESC).

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A comédia musical é inspirada na Ópera dos Três Vinténs (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. O espetáculo é daqueles que não perdem a atualidade. O capitalismo, a corrupção e as relações de poder dão o tom da história, com prioridade para a corrupção - perceptível em gestos simples das relações humanas.

A adaptação de Diego di Medeiros é sagaz. Preserva a verve original, com breves e perspicazes sacadas atuais. Destaque para os cartazes que entram discretamente em cena e trazem mensagens como: “Cadê o RU?”, “Me Chama de Copa e Investe em Mim” e também sobre a graduação em dança da Udesc, o que arrancou risadas do público.
A trama se desenrola em torno do  bandido Macheath,  conhecido como Mac Navalha. Ele se casa escondido com Polly, filha de Peachum, um empresário local. Inconformado com o casamento da filha, Peachum planeja a prisão do genro e quer que ele seja condenado à forca. Subornado por Mac, o chefe de polícia Tiger Brown não pretende prender o bandido.

O figurino e maquiagem são impecáveis, assim como a banda ao vivo, que emociona em vários momentos. 

 

 

 

Rodada de Negócios para o Teatro de SC

23 de outubro de 2014 0

Por Jefferson Bittencourt

Na quarta-feira, 22 de outubro, foi realizado em Florianópolis, dentro da programação do Floripa Teatro, um evento de extrema importância para os grupos de teatro da cidade (e também de Santa Catarina): a Feira de Negócios Teatrais.

Foto: Dieve Oehme / Divulgação Integrantes do grupo Teatro Sim... Por Que Não?!!!

Foto: Dieve Oehme / Divulgação
Integrantes do grupo Teatro Sim… Por Que Não?!!!

Foram convidados curadores de Festivais de destaque no cenário teatral brasileiro, para formar uma banca, onde cada grupo da cidade poderia “defender’ seu trabalho, apresentando vídeos, fotos, material teórico etc. Uma oportunidade única para os grupos de mostrar suas novas criações (ou mesmo repertório) para pessoas importantes, que determinam, muitas vezes, o percurso de uma obra teatral e também o que o público brasileiro terá a oportunidade de ver.

Criado e executado pela própria organização do Festival (que leva, desde já meus cumprimentos e todos os méritos pela investida) este evento, por mais simples que possa parecer a quem não é do meio teatral, é de extrema importância para impulsionar o teatro feito em Florianópolis para outros centros.

Muitos grupos não conseguem chegar até esses curadores pois, como acontece na maioria das vezes, ou somente o material gráfico e vídeo enviado num processo de inscrição não mostra  toda a potência do trabalho (algo que uma simples conversa como essa já resolve de maneira muito prática), ou a imensa carga de trabalhos recebidos durante esses processos de inscrição, faz com que a análise fique prejudicada.

Assim, de maneira mais clara e objetiva, os curadores dos Festivais de Londrina (FILO), Porto Alegre em Cena e FITBH (Belo Horizonte) puderam analisar a consistente produção teatral feita por estas bandas, com cada grupo ‘vendendo seu peixe’, buscando levar a arte que se faz por aqui para públicos de outros Estados e regiões do país.

Este evento mostra a maturidade da organização do Festival que, além de toda a programação de apresentações para a cidade , se preocupou também com as perspectivas do teatro feito em Santa Catarina. E também mostra que, cada vez mais, os Festivais de Teatro no Brasil estão interligados, possibilitando aos grupos uma facilidade maior de circulação neste país de extensão continental.

Jefferson Bittencourt, diretor teatral

CRÍTICA - Os Gigantes da Montanha, do Grupo Galpão. Por Gláucia Grigolo

22 de outubro de 2014 2

Por Gláucia Grigolo

Novamente Gabriel Villela une-se ao Grupo Galpão para mais um projeto ousado e encantador. A parceria teve início nos anos 1990, com a montagem de Romeu e Julieta (1992), que se tornou um marco no teatro brasileiro. Depois veio A Rua da Amargura (1994). Os Gigantes da Montanha,que estreou no ano passado, é o mais recente trabalho do grupo mineiro, que pelas mãos do diretor (também mineiro) traz à cena o texto do italiano Luigi Pirandello.

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

A presença do grupo na programação do Festival Isnard Azevedo não é novidade. O público de Florianópolis já teve oportunidade de ver outros espetáculos em edições anteriores. Desta vez, os Gigantes estavam no palco do Teatro Ademir Rosa diante de uma plateia lotada e curiosa.

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Fala-se de teatro fazendo teatro. Uma companhia teatral decadente chega a uma vila cheia de fantasmas e pessoas estranhas que vivem no mundo da utopia. É através da linguagem metateatral que o grupo conta a Fábula do Filho Trocado e outras histórias, embaladas por canções italianas muito bem executadas pelos próprios atores. Aliás, o rigoroso trabalho musical do grupo sempre é encantador, uma característica marcante na trajetória do Galpão.

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

A Condessa Ilse, personagem principal, tem o desejo de que a Fábula seja encenada para o grande público. Como não há muita gente na Vila, o governador/mago Cotrone sugere que a peça seja feita para os gigantes da montanha. Mas alerta que o povo vizinho não é muito apreciador de arte. Sendo assim, a peça torna-se também metafórica e crítica: quem são os gigantes senão nós, o público que assiste a uma peça dentro da peça? Qual é o lugar do teatro no mundo e o que ele tem a dizer?

Pirandello deixou a obra inacabada, não escreveu o último ato. Em cena, os atores representam o final da peça apropriando-se de um gramelot (língua inventada), fazendo alusão ao que Pirandello teria contado ao filho Stefano sobre o final. E chamam a atenção sobre a importância que a arte e a poesia tem na vida das pessoas: precisamos dos poetas para dar coerência aos sonhos… O ser humano inventa verdades, mas não há sonho mais absurdo do que essa nossa realidade.

Em tempos de dura realidade na cena política e cultural brasileira, quem vai dar coerência aos nossos sonhos?

Ilha de Santa Catarina, 22 de outubro de 2014.

Gláucia Grigolo é atriz e produtora cultural (glaucia.grigolo@gmail.com)

Explosão de cores, texturas e expressões

O repórter fotográfico do Diário Catarinense Marco Favero registrou em fotos a apresentação dos Gigantes da Montanha no Teatro Ademir Rosa. Confira:

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Discriminação e anti-humor - Elenira Vilela escreve sobre "A história do comunismo contada aos doentes mentais"

21 de outubro de 2014 3

Por Elenira Oliveira Vilela

No último domingo, dia 20 de Outubro, fui assistir à peça A história do comunismo contada aos doentes mentais, encenada pelo Companhia Anjos Pornográficos, de São Paulo, no Teatro Ademir Rosa, que compõe a Programação do Festival de Teatro Isnard Azevedo, indevidamente rebatizado como Floripa Teatro, mas isso é outra questão.

A-História-do-Comunismo-Contada-aos-Doentes-Mentais-divulgacao-1024x683

Eu costumo frequentar esse Festival desde a sua criação e me acostumei a ir às peças sem procurar muita informação sobre os espetáculos. Até ontem, nunca havia me arrependido dessa decisão. Vi peças que gostei mais ou menos, que concordei mais ou menos, que tinha mais ou menos críticas, mas nunca antes tinha tido vontade de me levantar durante um espetáculo, um espetáculo de horrores, aliás.

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História do Comunismo Contada aos Doentes Mentais, por Antônio Cunha

Um esclarecimento anterior se faz necessário, eu sou comunista, anti-stalinista, feminista, anti-homofóbica. Sou professora de matemática e estudo há quase 20 anos a obra do psicólogo russo Lev Semenovich Vygotskii, que foi perseguido por Stálin. Ele foi materialista histórico e dialético e fez, juntamente com seus companheiros e seguidores, um trabalho impressionante na pesquisa objetiva sobre a Psicologia, desenvolvendo trabalhos atualmente reconhecidos em todo o mundo sobre o desenvolvimento humano, os fundamentos da plasticidade do cérebro, a relação da arte com a construção da psique humana, o desenvolvimento de pessoas com deficiências e o próprio desenvolvimento do método científico em psicologia.

Também como professora, tive a oportunidade de trabalhar com pessoas com diferentes tipos de deficiências intelectuais e emocionais, como autismo, uma adolescente que sofria de perda de memória recente, crianças e adolescentes com problemas de desenvolvimento cognitivo, entre vários outros. Convivi por pouco tempo com esquizofrênicos, pessoas com transtornos compulsivos e depressão. Também atuei com estudantes que tinham deficiência auditiva, visual e dificuldades de aprendizagem variadas, como déficit de atenção, dislexia e discalculia.

Então, não faço essa crítica de uma posição neutra, simplesmente olhando a peça do ponto de vista estético ou em seu valor artístico, primeiro porque não tenho competência para tanto. E, segundo, porque não acredito que nenhuma obra de arte tenha um valor artístico neutro, independente dos valores que dissemina, das questões que suscita e da “moral da sua história”. Tampouco considero que o valor estético seja pouco importante ou que ele próprio não seja fundante do que é ser humano.

Confesso: o título da peça me deixou apreensiva, mas resolvi ir aberta e investir a minha confiança na avaliação do festival, que, como já afirmei, não me havia desapontado antes. Resisti bravamente à vontade de sair antes do fim. Não podia sair dali sem expressar minha indignação diretamente aos Diretores e atores/atrizes. Foi o que fiz, ao final, em alto e bom som.

Depois da peça resolvi buscar referências do autor do texto, ainda não tenho nenhuma capacidade de avaliar se a montagem é ou não fiel ao texto e ao espírito do autor. Mas o fato é que o que vi foi um trabalho cheio de preconceitos, de um humor baixo e rasteiro, a la humor estadunidense, pastelão, disseminador de preconceitos. Anti-humor que sequer era engraçado ao (à) brasileiro (a), mais refinado (a) e inteligente do que o pastelão estadunidense.

Sei que o autor é romeno e sofreu com as pressões do regime nada comunista que se instalou em sua terra natal, por óbvio, é fácil entender o ressentimento. Li também que seu maior inspirador é um monarquista muito conservador, fato facilmente identificável na peça. Soube que se inspirou em artistas surreais e do absurdo como Kafka e Salvador Dali, cujas obras eu conheço um pouco. Não reconheço de nenhuma maneira referência a obra destes artistas na peça que vi ontem, eles não usaram sua arte para tripudiar e ironizar com os já tão oprimidos pela sociedade.

Durante toda a peça me lembrei de uma fala de Gregório Duvivier, humorista do grupo Porta dos Fundos, que destacou que “Tem graça rir do opressor e não do oprimido” e essa peça fez exatamente o contrário. Vários dos grupos sociais já fortemente oprimidos pela sociedade e cuja opressão é fartamente reproduzida pelo “humor supostamente neutro, que só quer ser engraçado” são achincalhados e ridicularizados também nesta peça: pessoas com deficiência ou doenças (você conhece uma piada do louquinho, do esquizofrênico, do bêbado, do ceguinho, do menino burrinho…), das pessoas LGBT’s (piada da bichinha, do sapatão), das mulheres (a piada da burra, da puta).

Acrescenta-se aí mais um o preconceito fartamente disseminado e reproduzido da maneira mais abjeta e pobre, particularmente pelos Estados Unidos durante o período da guerra fria e que a mídia brasileira segue repetindo com um outro alvo que fica nos mares do Caribe.

Em todo aquele período, nos EUA e em outros do mundo subsidiariamente, as piadas com o povo russo foram frequentes, preconceituosas, injustas e mentirosas sobre eles. O povo russo conseguiu, por forças próprias, sair de uma situação feudal, ainda existente no início do século 20, para se tornar a segunda maior potência do mundo em vários setores, iniciando a corrida espacial e desenvolvendo tecnologias de ponta, desenvolvendo um vasto parque industrial e uma agricultura de grande produtividade. A educação e a saúde públicas foram universalizadas e a formação era completa e tinha qualidade. Durante a segunda grande guerra, esse povo se sacrificou fortemente pela paz, chorando, ao final, 10 milhões de mortos (sim, mais do que os judeus) e foi fundamental para assegurar que esse conflito terminaria, evitando ainda mais mortes e massacres.

 

Tratar este como um povo que adorava cegamente, de maneira fanática e sem nenhum motivo objetivo o Stálin não é uma crítica ao Stálin, mas uma ridicularização do próprio povo. Hoje a grande mídia brasileira faz esse tipo de ridicularização dos cubanos, tratando-os como idiotas que seguem a Fidel como fanáticos religiosos, que não conseguem alcançar o “nível de consciência” de gente pusilânime como Yoani Sanchez, cubana que se dispõe, em troca de muita grana, a desfazer daquela experiência de maneira a não permitir que ela se torne exemplo de como a vida pode mudar quando povos organizados tomam a decisão de não aceitar a exploração como algo natural.

Visniec (este não sei em que medida, pois não sei o quanto a montagem é fiel a sua obra), Abujamra, Hernandez e a Companhia Anjos Pornográficos decidem reproduzir todo esse preconceito, como por exemplo, ao se utilizar de uma estética grotesca para demonstrar essa idolatria ao poderoso dirigente, através de uma mulher que tem desejos e prazer sexual a cada vez que o nome de Stálin é citado. É ridículo e risível uma mulher ter desejos sexuais? Por um ídolo que seja? Se não fosse o Stálin, mas fosse o Reynaldo Gianechini, o Brad Pit ou o Edir Macedo, seria diferente?

No centro, os “doentes mentais”. É ridículo e risível ver uma pessoa em sofrimento por viver em uma condição cognitiva de dificuldade? Você riria de uma criança autista que não consegue interagir com outras crianças?

E não fica nisso, um desses “doentes mentais”, em certo momento, passa batom e calça sapatos altos ridicularizando a homossexualidade. Isso é engraçado? Por quê? O cartunista Laerte é engraçado pelo mesmo motivo? Qual a graça?

E qual a graça do escritor fazer um trabalho que envolva a arte no tratamento desses “doentes mentais”? A arte deve ser negada a quem já tem tanto sofrimento?

Sim, é verdade, o Stálin usou de práticas absurdas e inaceitáveis, inclusive tratando como doentes mentais pessoas simplesmente por não aceitarem a todos os mandos e desmandos do regime que conduzia.

Mas, há duas questões importantes a se considerar a respeito disso. A primeira é a oposição orquestrada mundialmente contra qualquer governo em países que não se alinhem aos ditames do grande capital internacional, que não tenham no capitalismo a única possibilidade de existência da humanidade. Diante dos ataques, estes países, tais como China, Laos, Vietnam, Cuba, simplesmente são impedidos de se abrirem ao mundo, precisam se defender dos ataques sofridos e potenciais. Basta verificar as centenas de tentativas da CIA em assassinar Fiel Castro, ou o tratamento recentemente dispensado a pessoas como Snowden, ou o Assange, ou a manutenção de diversos níveis de bloqueio econômico, medidas restritivas, perseguições, financiamento de oposições, mercenários e golpes, como o em andamento na Ucrânia, para forçar a sua entrada na União Europeia. Nem tudo que acontece é exatamente uma escolha desses governantes e ninguém apura a responsabilidade do ocidente no que aconteceu e acontece nesses países e com essas populações em relação a isso.

Segundo e mais importante ao analisar este espetáculo: o que foi feito de inaceitável por STÁLIN NÃO É DENUNCIADO, em NENHUM MOMENTO nessa peça. A adoração a ele é ridicularizada, mas não se sabe como ele está ligado a ela (não pelo que é apresentado).  Sugiro a leitura de O zero e o infinito, de Alexander Soljenítsin, esta sim uma obra com crítica consistente ao Stalinismo e que mostra como esse personagem deturpou parte fundamental do ideário que motivou a criação da União Soviética. Existem muitas outras obras que fazem isso sem cair em clichês e mentiras simplistas.

Me impressionei quando descobri que este é um texto recente (publicado no Brasil em 2012, seu autor tem apenas 58 anos). Como já afirmei, a peça somente fomenta o preconceito contra povos e segmentos humanos já fartamente oprimidos e violentados e estes são ridicularizados para fortalecer o ódio e para fazer a alegria dos exploradores e opressores.

Não admitirei nenhum preconceito sem protestar, sem alertar e denunciar! Isso não é arte, é ódio… Não é crítica, é fascismo! Não se combate a opressão com mais opressão!!

Florianópolis, madrugada de 21 de outubro de 2014. Primavera.

Elenira Oliveira Vilela – eleniramtm@hotmail.com

CRÍTICA - "Nina, o monstro e o coração perdido" tem delicadeza e densidade poética

20 de outubro de 2014 0

Por Marisa Naspolini

O que fazer com as emoções quando elas parecem nos invadir de tal forma que nos paralisam? Para onde essa pergunta pode levar se feita por uma criança? A angústia vivida por Nina, uma menina como tantas outras, que quer se livrar de suas alternâncias de humor e altos e baixos emocionais, gera uma jornada em busca de seu próprio coração, que passa a bater fora do peito.

Foto: Luciane Pires / Divulgação

Foto: Luciane Pires / Divulgação

Em Nina, o monstro e o coração perdido, espetáculo infantil com texto de Martina Schreiner e direção de Lúcia Bendati, do grupo Clareira de Teatro (Porto Alegre), apresentado domingo no Teatro Pedro Ivo dentro da programação do Festival Isnard Azevedo, os atores se desdobram em narradores e diversos personagens, num jogo constante e divertido que se alterna entre narrar e agir, com delicadeza e densidade poética, sem abrir mão do dinamismo, reforçado pelo intenso movimento do cenário e dos objetos de cena, que vão se reposicionando e se transformando no decorrer da história. O uso das diversas escadas para criar os mais variados ambientes e o efeito provocado pelos pinheiros no fundo da cena são alguns exemplos bem sucedidos de respeito à capacidade imaginativa no universo do teatro infantil.

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A História do Comunismo Contada aos Doentes Mentais, por Antonio Cunha
Subo para não esquecer o que de baixo já não consigo ver, por Lau Santos

O monstro, amigo de Nina, se desdobra para recuperar a capacidade da menina de viver suas próprias emoções, tentando salvá-la de uma vida tediosa e entediante. Na verdade, busca trazê-la de volta à própria vida visto que, com o coração fora do peito, seus dias estão contados. Nesta jornada heroica quase épica, o monstro atrapalhado se depara com suas incertezas, medos e descobertas. Há alguns momentos durante a viagem que se estendem em demasia e arriscam perder a atenção do público infantil, particularmente dos menores, mas o jogo se restabelece com a entrada em cena do menino, que dá novo gás rumo ao final do espetáculo.

As atuações, pautadas em jogos corporais e na relação com a plateia, merecem atenção constante para que não caiam no exagero nem em uma interpretação infantilizada, risco que existe – e em alguns momentos é mais evidente, particularmente na figura do monstro – mas é minimizado pelo conjunto da encenação.

O elenco, aliás, formado por Alex Limberger, Gustavo Dienstmann e Valquiria Cardoso, se desdobra com competência em outras funções, assinando a coautoria do figurino (Martina Schreiner, Gustavo Dienstmann e Valquiria Cardoso) e do cenário (Martina Schreiner e Alex Limberger).

Também cabe chamar a atenção para a iluminação cuidadosa, que valoriza ambientes e atmosferas criados pela bela trilha sonora. O espetáculo encanta e suscita reflexões nos pequenos espectadores, e também nos grandes. Como acontece com Nina, provoca emoções desencontradas em seu público. A ideia de desejar dar uma pausa ao coração se assemelha a pedir um pouco de silêncio ao mundo. Coisa de que andamos todos muito necessitados.

Marisa Naspolini é jornalista, atriz, pesquisadora e produtora cultural. marisanaspolini@gmail.com

Agende-se

O quê: Nina, o monstro e o coração perdido, do grupo Clariera de Teatro – Festival Isnard Azevedo
Quando: quarta e quinta, às 9h30 e às 14h30
Onde: Teatro Dionísio (Servidão Safira, 148, Ingleses, Florianópolis)
Quanto: gratuito

CRÍTICA - A História do Comunismo Contada aos Doentes Mentais é um gol de placa do Floripa Teatro

20 de outubro de 2014 7

Por Antônio Cunha

Sobre um texto corrosivo, de uma ironia implacável do romeno Matéi Visniec, que viveu sob a ditadura de Ceausescu, a Companhia Anjos Pornográficos, de São Paulo, trouxe ao 21º Floripa Teatro – Festival Isnard Azevedo a poderosa montagem da peça A História do Comunismo Contada aos Doentes Mentais. A direção de Miguel Hernandez e do irreverente André Abujamra (digno da linhagem) prima pelo sarcasmo, pela movimentação precisa e pelas interpretações impecáveis e equilibradíssimas do elenco.

A história do comunismo, Cia Anjos Pornográficos - anexo em cartaz

O ambiente é o Hospital Geral de Moscou. O momento, as vésperas da morte do líder soviético Josef Stalin. O tema é a “utopia” e todas as consequências que possam advir de sua crença nela, inclusive o personalismo e o autoritarismo.

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Nina, o monstro e o coração perdido, por Marisa Naspolini
Subo para não esquecer o que de baixo já não consigo ver, por Lau Santos

Convidado pela direção do hospital, um escritor tem a missão de escrever e explicar aos pacientes o que vem a ser “utopia”, definida irretocavelmente e com avassaladora simplicidade como sendo aquela situação em que “alguém está na merda e quer sair dela”. Aparentemente banal, a definição acaba por provocar uma grande excitação nos pacientes e funcionários, estes, caricaturas impagáveis do establishment, e, com certeza, muita coceira (da boa) na plateia e muita vontade de ver de novo.

Um gol de placa da organização do Floripa Teatro. Bravos!!!

(A peça A História do Comunismo Contada aos Doentes Mentais foi apresentada nos dias 18 e 19 de outubro)

 Antônio Cunha é ator, diretor e dramaturgo

Assista a um teaser do espetáculo:

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A Historia do Comunismo Contada aos Doentes Mentais (Preview) from Victor Iemini on Vimeo.

Festival Isnard Azevedo toma conta do Centro de Florianópolis e tem ótimos destaques na programação do final de semana

18 de outubro de 2014 0

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Fotos Charles Guerra (Agência RBS)

Texto Fifo Lima

Mesmo com a perspectiva de chuva, o público ficou concentrado na noite de ontem no Largo da Alfândega para acompanhar o cortejo teatral Subo para Esquecer o que de Baixo já não Consigo Ver, do grupo mineiro Carabina Cultural, que abriu o Floripa Teatro – 21º Festival Isnard Azevedo.  Os atores percorreram a Praça XV até o Largo da Catedral, acompanhados por espectadores que estavam nas ruas e nos prédios do centro da cidade.

Leia mais sobre o Isnard Azevedo

Com pouco mais de uma hora de duração, o espetáculo é envolvente e o público não fica alheio à caravana. Na peça, o grupo Carabina trabalha com o tradicional cortejo teatral, aliando elementos circenses a aparatos inovadores, unindo tecnologia, música e audiovisual, que incluiu projeções por todo o itinerário sobre pequenas telas sustentada pelos atores ou nas paredes dos prédios históricos do Centro.

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A direção é do dramaturgo e diretor teatral Carlos Canela, que é também diretor de cinema e tem pelo menos três curtas-metragens que se destacam por temas fantásticos ou de ficção científica. O espetáculo aborda de forma crítica alguns aspectos da histórica da humanidade, da barbárie à civilização, das guerras pela sobrevivência ao conflitos políticos e surgimento das religiões como ferramenta para harmonizar as relações humanas.

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DESTAQUES DO FIM DE SEMANA

No sábado e domingo, às 21 horas, a Cia dos Anjos Pornográficos, de São Paulo, apresenta a tragicomédia A História do Comunismo no Teatro Ademir Rosa no CIC.  Nos anos 1950, pouco antes da morte de Joseph Stálin, o diretor de um manicômio em Moscou convida um autor para escrever aos pacientes a história do comunismo e da revolução de 1917.

Às 19h30 de domingo, no Teatro Álvaro de Carvalho, o grupo N.A.F.T, de Florianópolis, encena Insólito. A peça narra a vida comum de um casal, tratando de forma cômica a existência humana como um absurdo e o distanciamento e a frieza na comunicação entre as pessoas.

A agenda do final de semana está repleta de peças teatrais para adultos e crianças e há espetáculos Teatro Pedro Ivo, Teatro Sesc Prainha, Casa das Máquinas na Lagoa da Conceição, Teatro da UFSC e nos parques municipais do Morro da Cruz e da Lagoa do Peri. Confira a programação completa em www.floripateatro.com.br.

Confira a programação completa do Festival

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