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Posts na categoria "Isnard Azevedo"

CRÍTICA - Um espetáculo onde a palavra não engole o ator, por Julianna Rosa de Souza

24 de outubro de 2014 0

Por Julianna Rosa de Souza

Faz algum tempo que tenho assistido na cena teatral a atores que são devorados pelo texto. Percebo que esse tipo de encenação, enquadrada numa concepção tradicional de teatro, acaba por fazer do ator um intérprete e reforça uma posição hegemônica do autor/dramaturgo. Como espectadora, me sinto enfadada ao ver o ator se debater contra o texto, como se cada palavra o sufocasse em uma métrica monocórdica.

Foto: Espanca! / Divulgação

Foto: Espanca! / Divulgação

Em outras palavras, um ator a serviço do texto  torna-se refém do próprio texto.

Em Líquido Tátil, os atores parecem saber deste perigo e por isso saboreiam cada palavra. Sem temer a irreverência do texto e a direção do argentino Daniel Veronese, os atores se colocam nas fronteiras do real e da ficção e compartilham com o público as inquietações de uma suposta realidade da cena.

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Os três atores (Grace Passô, Gustavo Bones e Marcelo Castro) não se escondem por trás de cortinas e tampouco se colocam numa zona intocável e protegida pela quarta parede. O grupo ESPANCA! coloca em cheque a representação teatral, e para isso utiliza  a própria representação para questionar a instável separação: palco/plateia.

Líquido Tátil não é uma comédia leve – ao contrário, é uma encenação que “morde”  o espectador (como o cão que não aparece no palco, mas que está em cena a todo o tempo) e por isso foge da tradicional necessidade de celebração do herói/protagonista.

Sem dúvida, Líquido Tátil marcou a programação do Festival Isnard Azevedo, trouxe para Floripa o brilhantismo de Daniel Veronese e a sintonia/ritmo dos atores do grupo ESPANCA!

Enfim, um espetáculo que não se deixa engolir pelo texto.

 

Por Julianna Rosa de Souza, atriz e mestre em Teatro pela Udesc.

Rodada de Negócios para o Teatro de SC

23 de outubro de 2014 0

Por Jefferson Bittencourt

Na quarta-feira, 22 de outubro, foi realizado em Florianópolis, dentro da programação do Floripa Teatro, um evento de extrema importância para os grupos de teatro da cidade (e também de Santa Catarina): a Feira de Negócios Teatrais.

Foto: Dieve Oehme / Divulgação Integrantes do grupo Teatro Sim... Por Que Não?!!!

Foto: Dieve Oehme / Divulgação
Integrantes do grupo Teatro Sim… Por Que Não?!!!

Foram convidados curadores de Festivais de destaque no cenário teatral brasileiro, para formar uma banca, onde cada grupo da cidade poderia “defender’ seu trabalho, apresentando vídeos, fotos, material teórico etc. Uma oportunidade única para os grupos de mostrar suas novas criações (ou mesmo repertório) para pessoas importantes, que determinam, muitas vezes, o percurso de uma obra teatral e também o que o público brasileiro terá a oportunidade de ver.

Criado e executado pela própria organização do Festival (que leva, desde já meus cumprimentos e todos os méritos pela investida) este evento, por mais simples que possa parecer a quem não é do meio teatral, é de extrema importância para impulsionar o teatro feito em Florianópolis para outros centros.

Muitos grupos não conseguem chegar até esses curadores pois, como acontece na maioria das vezes, ou somente o material gráfico e vídeo enviado num processo de inscrição não mostra  toda a potência do trabalho (algo que uma simples conversa como essa já resolve de maneira muito prática), ou a imensa carga de trabalhos recebidos durante esses processos de inscrição, faz com que a análise fique prejudicada.

Assim, de maneira mais clara e objetiva, os curadores dos Festivais de Londrina (FILO), Porto Alegre em Cena e FITBH (Belo Horizonte) puderam analisar a consistente produção teatral feita por estas bandas, com cada grupo ‘vendendo seu peixe’, buscando levar a arte que se faz por aqui para públicos de outros Estados e regiões do país.

Este evento mostra a maturidade da organização do Festival que, além de toda a programação de apresentações para a cidade , se preocupou também com as perspectivas do teatro feito em Santa Catarina. E também mostra que, cada vez mais, os Festivais de Teatro no Brasil estão interligados, possibilitando aos grupos uma facilidade maior de circulação neste país de extensão continental.

Jefferson Bittencourt, diretor teatral

CRÍTICA - Os Gigantes da Montanha, do Grupo Galpão. Por Gláucia Grigolo

22 de outubro de 2014 2

Por Gláucia Grigolo

Novamente Gabriel Villela une-se ao Grupo Galpão para mais um projeto ousado e encantador. A parceria teve início nos anos 1990, com a montagem de Romeu e Julieta (1992), que se tornou um marco no teatro brasileiro. Depois veio A Rua da Amargura (1994). Os Gigantes da Montanha,que estreou no ano passado, é o mais recente trabalho do grupo mineiro, que pelas mãos do diretor (também mineiro) traz à cena o texto do italiano Luigi Pirandello.

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

A presença do grupo na programação do Festival Isnard Azevedo não é novidade. O público de Florianópolis já teve oportunidade de ver outros espetáculos em edições anteriores. Desta vez, os Gigantes estavam no palco do Teatro Ademir Rosa diante de uma plateia lotada e curiosa.

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Fala-se de teatro fazendo teatro. Uma companhia teatral decadente chega a uma vila cheia de fantasmas e pessoas estranhas que vivem no mundo da utopia. É através da linguagem metateatral que o grupo conta a Fábula do Filho Trocado e outras histórias, embaladas por canções italianas muito bem executadas pelos próprios atores. Aliás, o rigoroso trabalho musical do grupo sempre é encantador, uma característica marcante na trajetória do Galpão.

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

A Condessa Ilse, personagem principal, tem o desejo de que a Fábula seja encenada para o grande público. Como não há muita gente na Vila, o governador/mago Cotrone sugere que a peça seja feita para os gigantes da montanha. Mas alerta que o povo vizinho não é muito apreciador de arte. Sendo assim, a peça torna-se também metafórica e crítica: quem são os gigantes senão nós, o público que assiste a uma peça dentro da peça? Qual é o lugar do teatro no mundo e o que ele tem a dizer?

Pirandello deixou a obra inacabada, não escreveu o último ato. Em cena, os atores representam o final da peça apropriando-se de um gramelot (língua inventada), fazendo alusão ao que Pirandello teria contado ao filho Stefano sobre o final. E chamam a atenção sobre a importância que a arte e a poesia tem na vida das pessoas: precisamos dos poetas para dar coerência aos sonhos… O ser humano inventa verdades, mas não há sonho mais absurdo do que essa nossa realidade.

Em tempos de dura realidade na cena política e cultural brasileira, quem vai dar coerência aos nossos sonhos?

Ilha de Santa Catarina, 22 de outubro de 2014.

Gláucia Grigolo é atriz e produtora cultural (glaucia.grigolo@gmail.com)

Explosão de cores, texturas e expressões

O repórter fotográfico do Diário Catarinense Marco Favero registrou em fotos a apresentação dos Gigantes da Montanha no Teatro Ademir Rosa. Confira:

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Discriminação e anti-humor - Elenira Vilela escreve sobre "A história do comunismo contada aos doentes mentais"

21 de outubro de 2014 3

Por Elenira Oliveira Vilela

No último domingo, dia 20 de Outubro, fui assistir à peça A história do comunismo contada aos doentes mentais, encenada pelo Companhia Anjos Pornográficos, de São Paulo, no Teatro Ademir Rosa, que compõe a Programação do Festival de Teatro Isnard Azevedo, indevidamente rebatizado como Floripa Teatro, mas isso é outra questão.

A-História-do-Comunismo-Contada-aos-Doentes-Mentais-divulgacao-1024x683

Eu costumo frequentar esse Festival desde a sua criação e me acostumei a ir às peças sem procurar muita informação sobre os espetáculos. Até ontem, nunca havia me arrependido dessa decisão. Vi peças que gostei mais ou menos, que concordei mais ou menos, que tinha mais ou menos críticas, mas nunca antes tinha tido vontade de me levantar durante um espetáculo, um espetáculo de horrores, aliás.

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História do Comunismo Contada aos Doentes Mentais, por Antônio Cunha

Um esclarecimento anterior se faz necessário, eu sou comunista, anti-stalinista, feminista, anti-homofóbica. Sou professora de matemática e estudo há quase 20 anos a obra do psicólogo russo Lev Semenovich Vygotskii, que foi perseguido por Stálin. Ele foi materialista histórico e dialético e fez, juntamente com seus companheiros e seguidores, um trabalho impressionante na pesquisa objetiva sobre a Psicologia, desenvolvendo trabalhos atualmente reconhecidos em todo o mundo sobre o desenvolvimento humano, os fundamentos da plasticidade do cérebro, a relação da arte com a construção da psique humana, o desenvolvimento de pessoas com deficiências e o próprio desenvolvimento do método científico em psicologia.

Também como professora, tive a oportunidade de trabalhar com pessoas com diferentes tipos de deficiências intelectuais e emocionais, como autismo, uma adolescente que sofria de perda de memória recente, crianças e adolescentes com problemas de desenvolvimento cognitivo, entre vários outros. Convivi por pouco tempo com esquizofrênicos, pessoas com transtornos compulsivos e depressão. Também atuei com estudantes que tinham deficiência auditiva, visual e dificuldades de aprendizagem variadas, como déficit de atenção, dislexia e discalculia.

Então, não faço essa crítica de uma posição neutra, simplesmente olhando a peça do ponto de vista estético ou em seu valor artístico, primeiro porque não tenho competência para tanto. E, segundo, porque não acredito que nenhuma obra de arte tenha um valor artístico neutro, independente dos valores que dissemina, das questões que suscita e da “moral da sua história”. Tampouco considero que o valor estético seja pouco importante ou que ele próprio não seja fundante do que é ser humano.

Confesso: o título da peça me deixou apreensiva, mas resolvi ir aberta e investir a minha confiança na avaliação do festival, que, como já afirmei, não me havia desapontado antes. Resisti bravamente à vontade de sair antes do fim. Não podia sair dali sem expressar minha indignação diretamente aos Diretores e atores/atrizes. Foi o que fiz, ao final, em alto e bom som.

Depois da peça resolvi buscar referências do autor do texto, ainda não tenho nenhuma capacidade de avaliar se a montagem é ou não fiel ao texto e ao espírito do autor. Mas o fato é que o que vi foi um trabalho cheio de preconceitos, de um humor baixo e rasteiro, a la humor estadunidense, pastelão, disseminador de preconceitos. Anti-humor que sequer era engraçado ao (à) brasileiro (a), mais refinado (a) e inteligente do que o pastelão estadunidense.

Sei que o autor é romeno e sofreu com as pressões do regime nada comunista que se instalou em sua terra natal, por óbvio, é fácil entender o ressentimento. Li também que seu maior inspirador é um monarquista muito conservador, fato facilmente identificável na peça. Soube que se inspirou em artistas surreais e do absurdo como Kafka e Salvador Dali, cujas obras eu conheço um pouco. Não reconheço de nenhuma maneira referência a obra destes artistas na peça que vi ontem, eles não usaram sua arte para tripudiar e ironizar com os já tão oprimidos pela sociedade.

Durante toda a peça me lembrei de uma fala de Gregório Duvivier, humorista do grupo Porta dos Fundos, que destacou que “Tem graça rir do opressor e não do oprimido” e essa peça fez exatamente o contrário. Vários dos grupos sociais já fortemente oprimidos pela sociedade e cuja opressão é fartamente reproduzida pelo “humor supostamente neutro, que só quer ser engraçado” são achincalhados e ridicularizados também nesta peça: pessoas com deficiência ou doenças (você conhece uma piada do louquinho, do esquizofrênico, do bêbado, do ceguinho, do menino burrinho…), das pessoas LGBT’s (piada da bichinha, do sapatão), das mulheres (a piada da burra, da puta).

Acrescenta-se aí mais um o preconceito fartamente disseminado e reproduzido da maneira mais abjeta e pobre, particularmente pelos Estados Unidos durante o período da guerra fria e que a mídia brasileira segue repetindo com um outro alvo que fica nos mares do Caribe.

Em todo aquele período, nos EUA e em outros do mundo subsidiariamente, as piadas com o povo russo foram frequentes, preconceituosas, injustas e mentirosas sobre eles. O povo russo conseguiu, por forças próprias, sair de uma situação feudal, ainda existente no início do século 20, para se tornar a segunda maior potência do mundo em vários setores, iniciando a corrida espacial e desenvolvendo tecnologias de ponta, desenvolvendo um vasto parque industrial e uma agricultura de grande produtividade. A educação e a saúde públicas foram universalizadas e a formação era completa e tinha qualidade. Durante a segunda grande guerra, esse povo se sacrificou fortemente pela paz, chorando, ao final, 10 milhões de mortos (sim, mais do que os judeus) e foi fundamental para assegurar que esse conflito terminaria, evitando ainda mais mortes e massacres.

 

Tratar este como um povo que adorava cegamente, de maneira fanática e sem nenhum motivo objetivo o Stálin não é uma crítica ao Stálin, mas uma ridicularização do próprio povo. Hoje a grande mídia brasileira faz esse tipo de ridicularização dos cubanos, tratando-os como idiotas que seguem a Fidel como fanáticos religiosos, que não conseguem alcançar o “nível de consciência” de gente pusilânime como Yoani Sanchez, cubana que se dispõe, em troca de muita grana, a desfazer daquela experiência de maneira a não permitir que ela se torne exemplo de como a vida pode mudar quando povos organizados tomam a decisão de não aceitar a exploração como algo natural.

Visniec (este não sei em que medida, pois não sei o quanto a montagem é fiel a sua obra), Abujamra, Hernandez e a Companhia Anjos Pornográficos decidem reproduzir todo esse preconceito, como por exemplo, ao se utilizar de uma estética grotesca para demonstrar essa idolatria ao poderoso dirigente, através de uma mulher que tem desejos e prazer sexual a cada vez que o nome de Stálin é citado. É ridículo e risível uma mulher ter desejos sexuais? Por um ídolo que seja? Se não fosse o Stálin, mas fosse o Reynaldo Gianechini, o Brad Pit ou o Edir Macedo, seria diferente?

No centro, os “doentes mentais”. É ridículo e risível ver uma pessoa em sofrimento por viver em uma condição cognitiva de dificuldade? Você riria de uma criança autista que não consegue interagir com outras crianças?

E não fica nisso, um desses “doentes mentais”, em certo momento, passa batom e calça sapatos altos ridicularizando a homossexualidade. Isso é engraçado? Por quê? O cartunista Laerte é engraçado pelo mesmo motivo? Qual a graça?

E qual a graça do escritor fazer um trabalho que envolva a arte no tratamento desses “doentes mentais”? A arte deve ser negada a quem já tem tanto sofrimento?

Sim, é verdade, o Stálin usou de práticas absurdas e inaceitáveis, inclusive tratando como doentes mentais pessoas simplesmente por não aceitarem a todos os mandos e desmandos do regime que conduzia.

Mas, há duas questões importantes a se considerar a respeito disso. A primeira é a oposição orquestrada mundialmente contra qualquer governo em países que não se alinhem aos ditames do grande capital internacional, que não tenham no capitalismo a única possibilidade de existência da humanidade. Diante dos ataques, estes países, tais como China, Laos, Vietnam, Cuba, simplesmente são impedidos de se abrirem ao mundo, precisam se defender dos ataques sofridos e potenciais. Basta verificar as centenas de tentativas da CIA em assassinar Fiel Castro, ou o tratamento recentemente dispensado a pessoas como Snowden, ou o Assange, ou a manutenção de diversos níveis de bloqueio econômico, medidas restritivas, perseguições, financiamento de oposições, mercenários e golpes, como o em andamento na Ucrânia, para forçar a sua entrada na União Europeia. Nem tudo que acontece é exatamente uma escolha desses governantes e ninguém apura a responsabilidade do ocidente no que aconteceu e acontece nesses países e com essas populações em relação a isso.

Segundo e mais importante ao analisar este espetáculo: o que foi feito de inaceitável por STÁLIN NÃO É DENUNCIADO, em NENHUM MOMENTO nessa peça. A adoração a ele é ridicularizada, mas não se sabe como ele está ligado a ela (não pelo que é apresentado).  Sugiro a leitura de O zero e o infinito, de Alexander Soljenítsin, esta sim uma obra com crítica consistente ao Stalinismo e que mostra como esse personagem deturpou parte fundamental do ideário que motivou a criação da União Soviética. Existem muitas outras obras que fazem isso sem cair em clichês e mentiras simplistas.

Me impressionei quando descobri que este é um texto recente (publicado no Brasil em 2012, seu autor tem apenas 58 anos). Como já afirmei, a peça somente fomenta o preconceito contra povos e segmentos humanos já fartamente oprimidos e violentados e estes são ridicularizados para fortalecer o ódio e para fazer a alegria dos exploradores e opressores.

Não admitirei nenhum preconceito sem protestar, sem alertar e denunciar! Isso não é arte, é ódio… Não é crítica, é fascismo! Não se combate a opressão com mais opressão!!

Florianópolis, madrugada de 21 de outubro de 2014. Primavera.

Elenira Oliveira Vilela – eleniramtm@hotmail.com

CRÍTICA - "Nina, o monstro e o coração perdido" tem delicadeza e densidade poética

20 de outubro de 2014 0

Por Marisa Naspolini

O que fazer com as emoções quando elas parecem nos invadir de tal forma que nos paralisam? Para onde essa pergunta pode levar se feita por uma criança? A angústia vivida por Nina, uma menina como tantas outras, que quer se livrar de suas alternâncias de humor e altos e baixos emocionais, gera uma jornada em busca de seu próprio coração, que passa a bater fora do peito.

Foto: Luciane Pires / Divulgação

Foto: Luciane Pires / Divulgação

Em Nina, o monstro e o coração perdido, espetáculo infantil com texto de Martina Schreiner e direção de Lúcia Bendati, do grupo Clareira de Teatro (Porto Alegre), apresentado domingo no Teatro Pedro Ivo dentro da programação do Festival Isnard Azevedo, os atores se desdobram em narradores e diversos personagens, num jogo constante e divertido que se alterna entre narrar e agir, com delicadeza e densidade poética, sem abrir mão do dinamismo, reforçado pelo intenso movimento do cenário e dos objetos de cena, que vão se reposicionando e se transformando no decorrer da história. O uso das diversas escadas para criar os mais variados ambientes e o efeito provocado pelos pinheiros no fundo da cena são alguns exemplos bem sucedidos de respeito à capacidade imaginativa no universo do teatro infantil.

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A História do Comunismo Contada aos Doentes Mentais, por Antonio Cunha
Subo para não esquecer o que de baixo já não consigo ver, por Lau Santos

O monstro, amigo de Nina, se desdobra para recuperar a capacidade da menina de viver suas próprias emoções, tentando salvá-la de uma vida tediosa e entediante. Na verdade, busca trazê-la de volta à própria vida visto que, com o coração fora do peito, seus dias estão contados. Nesta jornada heroica quase épica, o monstro atrapalhado se depara com suas incertezas, medos e descobertas. Há alguns momentos durante a viagem que se estendem em demasia e arriscam perder a atenção do público infantil, particularmente dos menores, mas o jogo se restabelece com a entrada em cena do menino, que dá novo gás rumo ao final do espetáculo.

As atuações, pautadas em jogos corporais e na relação com a plateia, merecem atenção constante para que não caiam no exagero nem em uma interpretação infantilizada, risco que existe – e em alguns momentos é mais evidente, particularmente na figura do monstro – mas é minimizado pelo conjunto da encenação.

O elenco, aliás, formado por Alex Limberger, Gustavo Dienstmann e Valquiria Cardoso, se desdobra com competência em outras funções, assinando a coautoria do figurino (Martina Schreiner, Gustavo Dienstmann e Valquiria Cardoso) e do cenário (Martina Schreiner e Alex Limberger).

Também cabe chamar a atenção para a iluminação cuidadosa, que valoriza ambientes e atmosferas criados pela bela trilha sonora. O espetáculo encanta e suscita reflexões nos pequenos espectadores, e também nos grandes. Como acontece com Nina, provoca emoções desencontradas em seu público. A ideia de desejar dar uma pausa ao coração se assemelha a pedir um pouco de silêncio ao mundo. Coisa de que andamos todos muito necessitados.

Marisa Naspolini é jornalista, atriz, pesquisadora e produtora cultural. marisanaspolini@gmail.com

Agende-se

O quê: Nina, o monstro e o coração perdido, do grupo Clariera de Teatro – Festival Isnard Azevedo
Quando: quarta e quinta, às 9h30 e às 14h30
Onde: Teatro Dionísio (Servidão Safira, 148, Ingleses, Florianópolis)
Quanto: gratuito

CRÍTICA - A História do Comunismo Contada aos Doentes Mentais é um gol de placa do Floripa Teatro

20 de outubro de 2014 7

Por Antônio Cunha

Sobre um texto corrosivo, de uma ironia implacável do romeno Matéi Visniec, que viveu sob a ditadura de Ceausescu, a Companhia Anjos Pornográficos, de São Paulo, trouxe ao 21º Floripa Teatro – Festival Isnard Azevedo a poderosa montagem da peça A História do Comunismo Contada aos Doentes Mentais. A direção de Miguel Hernandez e do irreverente André Abujamra (digno da linhagem) prima pelo sarcasmo, pela movimentação precisa e pelas interpretações impecáveis e equilibradíssimas do elenco.

A história do comunismo, Cia Anjos Pornográficos - anexo em cartaz

O ambiente é o Hospital Geral de Moscou. O momento, as vésperas da morte do líder soviético Josef Stalin. O tema é a “utopia” e todas as consequências que possam advir de sua crença nela, inclusive o personalismo e o autoritarismo.

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Nina, o monstro e o coração perdido, por Marisa Naspolini
Subo para não esquecer o que de baixo já não consigo ver, por Lau Santos

Convidado pela direção do hospital, um escritor tem a missão de escrever e explicar aos pacientes o que vem a ser “utopia”, definida irretocavelmente e com avassaladora simplicidade como sendo aquela situação em que “alguém está na merda e quer sair dela”. Aparentemente banal, a definição acaba por provocar uma grande excitação nos pacientes e funcionários, estes, caricaturas impagáveis do establishment, e, com certeza, muita coceira (da boa) na plateia e muita vontade de ver de novo.

Um gol de placa da organização do Floripa Teatro. Bravos!!!

(A peça A História do Comunismo Contada aos Doentes Mentais foi apresentada nos dias 18 e 19 de outubro)

 Antônio Cunha é ator, diretor e dramaturgo

Assista a um teaser do espetáculo:

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A Historia do Comunismo Contada aos Doentes Mentais (Preview) from Victor Iemini on Vimeo.

CRÍTICA: "Subo para não esquecer o que de baixo já não consigo ver" abriu o Festival de Teatro Isnard Azevedo

19 de outubro de 2014 0

Por Lau Santos

 Embalado para ver um espetáculo na abertura do Festival Floripa Teatro me desloquei para o centro da cidade na noite de sexta-feira. Na programação a performance urbana do grupo mineiro Carabina Cultural de titulo, Subo para não esquecer o que de baixo já não consigo ver.  A ideia de um espetáculo, interativo e ritualístico o que é inerente à concepção de uma performance, me deixou bem animado.

Foto: Charles Guerra / Agência RBS

Concebida como um cortejo que utiliza a rua como espaço cênico, a performance do grupo mineiro faz uma “viagem” narrativa sobre a dinâmica do processo civilizatório. O cortejo usa um carro de som como guia e base cenográfica. Durante o trajeto do largo da Alfândega até o Largo da Catedral os performers “puxaram” o carro de som e utilizaram técnicas circenses como base para suas composições corporais. Durante a caminhada imagens são projetadas em suportes/telas manipulados pelo performers.

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Festival Isnard Azevedo segue até o dia 25 de outubro

Durante apresentação do grupo Carabina Cultural, o elemento humano foi engolido pelas  imagens projetadas, o espetáculo perdeu  potência e acabou se desviando das intenções iniciais de uma performance, que é a interatividade.  Não existia um diálogo entre a presença dos performers , as imagens projetadas e os espectadores. Para os espectadores as telas se tornaram mais importantes que a atuação daqueles performers que balbuciavam algumas quase-palavras buscando a interagir com as pessoas que acompanhavam o cortejo.

Foto: Charles Guerra / Agência RBS

A utilização de dispositivos audiovisuais em espetáculos ou performances  tem sido algo frequente nos últimos anos , no entanto ,  seria importante que os grupos ou diretores  que usem estas ferramentas busquem potencializar a relação entre os performers, as máquinas tecnológicas e os espectadores.

Como espectador o mais interessante em poder ver um espetáculo como o do grupo mineiro Carabina Cultural na programação do Festival Floripa Teatro foi perceber que outras formas espetaculares, além das habituais com suas narrativas lineares, começam a ocupar espaços  nos festivais brasileiros. Evoé!

Lau Santos é diretor, ator, mestre em teatro e autor do livro Tela e presença: o ator e a imagem projetada.

Foto: Charles Guerra / Agência RBS