Um pastel de primeira classe, segundo Anonymus Gourmet, é aquele pastel capaz de encantar o estômago, a alma e a memória. Esses três requisitos, aparentemente subjetivos, são itens de absoluta objetividade. Agradar ao estômago tem a ver com a boa digestão. A digestão de certos pastéis sem biografia provoca na vítima o pesadelo de estar pilotando um transatlântico em plena tempestade de alto mar: entre raios e trovões, o estômago se transforma num convés de mesas reviradas, copos quebrados, gritos de socorro.
Um bom pastel lembra sol sem nuvens, “o céu de um azul do azul lavado pela chuva”: a cada mordida, a cada mastigada, a impressão de plenitude, de ter sido escolhido. Isto é, não foi você que escolheu o pastel, foi o Cavalo Celeste que escolheu você para o momento único de deglutir aquela obra de arte. Então, encantado o estômago, a alma fica em festa e a memória não sossega com a lembrança inesquecível: “Preciso voltar lá, preciso me comover outra vez.” Anonymus garante que esse pastel encantado existe. E tem o primeiro requisito dos grandes pastéis: é um pastel de beira de estrada. Fica no Rio Grande do Sul, em Tabaí, exatamente no quilômetro 386 da BR 386. Trata-se da Casa do Mel, uma casa que brilha pela qualidade excepcional do que ali se faz e se vende. Mas, sobretudo, brilha pela gentileza. Esse brilho todo é capitaneado pela Rojane, que oferece aos seus afortunados fregueses o mesmo carinho e a mesma devoção que dedica ao trabalho de caridade em favor de menores e idosos abandonados. Uma palavra sobre o time de colaboradores da Rojane: se entrasse em campo, por certo se classificaria para a Libertadores.
A massa do pastel é crocante, firme e muito seca, sem vestígio de gordura. O recheio — ah, o recheio! — não foi refogado, foi abençoado. Nada de carne moída: carne de primeira, cortada a faca, cozida sem pressa num molho consistente, temperado com delicadeza. Além do pastel, a mesa é invadida por pães de todos os tipos, recém saídos do forno, salames de sabor suave, cuca com lingüiça frita na hora, geléias, nata fresca, mel de tipos variados… Como se não bastasse, queijos de safras escolhidas, entre os quais cintilava um certo parmesão, espiando por trás do bule de café. Depois de prová-lo, Anonymus teve o ímpeto de se ajoelhar, como devem fazer os fiéis para expressar gratidão diante de uma graça alcançada. Seria um gesto de arrependimento por tantos anos perdidos antes daquela mesa magnífica. Uma pequena lesão no joelho impediu-o dessa contrição. Felizmente, a pequena lesão não afetou o bom senso: Anonymus resistiu à tentação pedir a Rojane a receita — do pastel, da exuberância daquela mesa, do atendimento, da arte de escolher fornecedores… Seria o mesmo que perguntar a um mágico sobre seus truques e segredos.



