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Banquetes de bochecha de boi

13 de janeiro de 2012 0

Anonymus Gourmet lembrou aqui na semana passada os encantos do churrasco do Abu, e foi inevitável a assombração do outro extremo, o banquete dos tempos de crise, descoberta de viagem muito própria para enfrentar as incertezas do euro: bochecha de boi. Exatamente: bochecha de boi!... Receita portuguesa. Uma delícia tradicional, feita de um ingrediente baratíssimo. Luiz Mór, vice-presidente da Tap, numa mensagem postada tempos atrás no Blog do Anonymus, garantia que, além de tudo, bochecha de porco é saborosa. Exemplo de um traço cultural de portugueses e de europeus em geral, traço que se aguça em tempos de incertezas: não desperdiçar nada, aproveitar tudo. Até as bochechas − do boi, do porco, do que estiver por perto.

A era da escassez e o fim do desperdício mal começam. Os nossos tormentos pareciam suficientes: devastação ambiental, aquecimento terrestre, o preço do petróleo, a violência, a corrupção, a dengue, a fragilidade e as incertezas das moedas fortes... Há algum tempo brilha no horizonte uma nova estrela: surfando na crise do primeiro mundo, a escassez dos alimentos, mais uma bomba relógio que aguarda pacientemente o momento de ocupar as manchetes.

É inevitável lembrar nessas horas John Gray, pensador britânico que estuda nossas catástrofes, advertindo que, em 1600, a população humana era de cerca de meio bilhão. Só na década de 1990, ela cresceu... meio bilhão! Nos últimos 50 anos a população humana do mundo dobrou. Gray acredita que uma população humana aproximando-se dos oito bilhões só pode ser mantida devastando a Terra. Ele imagina um cenário de habitats selvagens usados para cultivo humano e habitação, florestas tropicais transformadas em desertos ver­des, a engenharia genética possibilitando colheitas cada vez mais abundantes em solos cada vez mais debi­litados... Pouco restaria sobre a Terra além dos seres humanos “e do ambiente protético que os mantém vivos.”

O Brasil tem um rebanho que se aproxima das 200 milhões de cabeças de gado, em grande parte pastando em campos que já foram florestas na Amazônia. O dilema é desenvolver uma pecuária sustentada sem destruir o meio ambiente. Como harmonizar a convivência das florestas e do equilíbrio ecológico, com as pastagens e culturas indispensáveis? Será que o bife nosso de cada dia (ou mesmo a salada nossa) precisa destruir a Amazônia?

“Nunca pensei que o meu bife com salada fosse uma ameaça ao futuro humano”, diz Anonymus Gourmet, perplexo e sem apetite, talvez assustado diante da perspectiva de banquetes de bochecha de boi.

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