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Sabores e licores, sonhos e pesadelos

20 de janeiro de 2012 0

Listas são essenciais, para as questões da vida prática e para as urgências da alma. Lista do supermercado, lista dos compromissos do dia, lista de dívidas a pagar... Mas também é possível açucarar as responsabilidades inadiáveis com os sonhos sempre adiados – inventariados em listas amáveis.

Madame Queiroz (que ocupa a pole position na “lista dos enigmas” de Anonymus Gourmet) adora listas porque, diz ela, “organizam o passado e o futuro”. Além de organizar as aflições da hora, as listas também eternizam lembranças: o relatório das exaltações, desesperos, fantasmas, sabores e licores, sonhos e pesadelos, que nos fizeram viver muito ou morrer um pouco.

No ano passado, por sugestão da Claudia Laitano, escrevi uma dessas listas: os 10 melhores lugares do mundo, em todos os tempos, no coração do Anonymus Gourmet. É arbitrária e discutível, com esquecimentos imperdoáveis, mas carregada de lembranças adoráveis e, por isso, ganhou espaço no livro Memórias do Anonymus Gourmet.

Vale recordar alguns itens, começando pelo Relais Saint Germain (Paris) que,  como quase tudo que é bom, acabou. A excelência começava nos pãezinhos do couvert, passando pelo canard, pelos peixes do mediterrâneo, pela salada de chevre chaud,  os guardanapos imensos e engomados, talheres pesados, vinhos de boa data, velhos garçons acostumados às tempestades e sempre cordiais.

No Restaurante Poleiro (Lisboa),  afrontamos camarões médios delicadamente refogados em azeite extra-virgem e alho, bolinhos de vitela e presunto, pastéis de bacalhau e peixinhos da horta. Tivemos que recusar o borrego, apesar da insistência do Sr. Manoel. Tem também velha taberna no porto de Brindisi (Itália), um lugar de despojamento severo: mesas de grossa madeira maciça, cadeiras toscas mas firmes, o chão de cimento, as paredes pintadas com cal, sem um quadro sequer. O pai escolheu uma garoupa soberba, que o taberneiro, de óculos tartaruga, limpou com minúcia, e depois preparou com maestria num braseiro ao fundo. Não foi um almoço, foi um sonho.

No Restaurante Sinal Verde (Lisboa), o peixe era perfeito. Mas, quando chegou a picanha, Anonymus lamentou estar desarmado: não carregava sua fiel Leica compacta e não pôde documentar a cena. Queria fotografar e mandar a imagem para o Nico Fagundes. No Churrasco do Zé Abu-Jamra,  como escolher um destaque, se tudo é sempre perfeito? Das linguicinhas finas da abertura, ao costelão soberbo do encerramento. Por falar em Zé Abu, o Gran Colbert (Paris), até virar cenário do encontro inesquecível de Jack Nicholson e Diane Keaton, no filme "Alguém tem que ceder", era apenas mais um dos extraordinários restaurantes que fizeram a fama da França. A lista continua na próxima semana.

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