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Vem aí um manjar raro para quem aprecia a degustação de uma obra prima: a L&PM vai lançar, pela primeira vez em língua portuguesa, O idiota da família, de Jean Paul Sartre.
Houve um momento, no final dos anos 1960, em que a maioria dos críticos considerou a carreira literária de Jean Paul Sartre esgotada e encerrada. Foi quando o grande filósofo e escritor surpreendeu o mundo com as quase 3000 páginas - impecavelmente escritas - dos três volumes d’O Idiota da Família, um estudo sem precedentes da vida e da obra de Gustave Flaubert, que na infância chegou a ser considerado quase um débil mental e, na idade madura, com devoção de sacerdote e o trabalho obstinado de operário, construiu o monumento Madame Bovary.
“A estupidez não está de um lado e o espírito do outro. É como o vício e a virtude; sagaz é quem os distingue” – escreveu Flaubert. Sartre teve a sagacidade de dintinguir, ao estudar a família de Flaubert, que aquele que os parentes consideravam “idiota”, na verdade era um espírito superior. Suas limitações pessoais, suas neuroses e dificuldades de relacionamento foram a rica matéria utilizada por Flaubert para escrever não só Bovary, como também Educação Sentimental, Três Contos, Salambô, A Tentação de Santo Antônio, entre outros textos esplêndidos.
A diferença entre Flaubert e a maioria dos grandes que vieram antes e de muitos que vieram depois foi o seu extremo cuidado formal, isto é, a melhor expressão possível do conteúdo. Cada frase era tratada como se fosse a última, o texto era burilado e refeito várias vezes até que a encontrasse o tom e a palavra exatos: “O autor na sua obra, deve ser como Deus no universo, presente em toda a parte, mas não visível em nenhuma.”
Apesar dessa grandeza enfática, nas quatro mil páginas de sua correspondência, constata-se a incerteza do autor: “Salvo se formos cretinos, morremos sempre na incerteza do nosso próprio valor e do da nossa obra.” confessou certa vez. Mas, combatia essa insegurança com uma espécie de desafio a si mesmo: “Para se ter talento é necessário estarmos convencidos de que o temos.” No final da vida, entretanto, Flaubert teve certeza sobre a excelência de Madame Bovary: “Morro como um cão… E essa prostituta da província será eterna!”
Para escrever O idiota da família Sartre percorreu as páginas do grande romance de Flaubert com um olhar inteiramente novo, descobrindo as delicadas linhas que ligaram a vida pessoal do escritor e a sua extraordinária ficção. O idiota da infância, percebeu Sartre, transformou-se num gênio capaz de sublimar sua própria fragilidade. A leitura dessa obra colossal deixa uma suspeita inevitável: talvez Flaubert tenha sido para Sartre a redenção que Madame Bovary foi para Flaubert.