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Depois daquela canja

16 de março de 2012 0

Numa noite de nove atrás, os portugueses pensavam que estavam ricos, e também os brazucas que viajavam para para lá cumprir tarefas modestas em troca de euros. O jantar foi no restaurante do Alentejo, da Bolsa de Turismo de Lisboa, repasto esplêndido desde o primeiro prato: a canja anunciada não era uma prosaica sopa, que muito bem poderia lembrar comida de hospital. Na verdade, estávamos diante de uma canja “de pombo bravo”. Desde a primeira colherada percebi que não era afetação ou esnobismo do cardápio.

O nome sugestivo era o prenúncio de sabores e aromas selvagens. Tive que fechar os olhos para captar em toda sua dimensão as notas e sensações daquele caldo extraordinário. Toda a atenção era pouca, as papilas gustativas em alerta estremeceram diante do poderoso alarme do sabor. Era uma delícia que galinha alguma, por mais caipira que fosse, por mais bem temperada e bem cozida, jamais conseguiria igualar. O Almirante e o Monteiro, que me acompanhavam solidários, também pareciam emocionados. O Almirante teria deixado escapar uma lágrima, ou foi impressão minha? O certo é que degustamos a tal canja de pombo bravo, guarnecida por um severo tinto do Douro, comovidos e em silêncio: qualquer palavra poderia perturbar o deleite das papilas.

Depois de terminar, enquanto aguardávamos o prato principal, convidei os companheiros de emoção para um brinde ao bom gosto de Cervantes. Afinal, a dieta de Dom Quixote incluía “filhote de pombo bravo como acréscimo aos domingos”. Cheguei a imaginar como ele preparava o tal pombo bravo: no forno, crocante, com cebolas e batatas? Ou quem sabe na caçarola, perfumado por um daqueles tintos soberbos de Rioja?   Nem assado, nem na caçarola: era uma canja como aquela! – agora eu sabia. Numa espécie de delírio, tive certeza que, ali, na minha frente, fumegava o prato sugerido por Cervantes em 1604. Quatrocentos anos depois, outra vez, eu tinha que me curvar diante do maior de todos os escritores. Até como gastrônomo, Cervantes reinventava a realidade melhor do que todos os outros: não há nada que se iguale a uma canja de pombo bravo.

Quando ainda nos recuperávamos da comoção do pombo, lá vinha o prato principal,  um exuberante arroz com lebre, irretocável, que saltou muito alto em nossa avaliação, mas nada que pudesse chegar perto das alturas do pombo. E a sobremesa, então? Veio à mesa uma surpreendente "barriga de freira", da melhor tradição dos doces conventuais alentejanos. Entretanto, nada mais poderia alterar a história daquele jantar. Tudo ficou menor diante da magnitude da canja de pombo bravo. Lisboa nunca mais seria a mesma. Depois daquela canja, Cervantes, que já era imenso, ficou eterno.

foto: divulgação

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