“O gourmet é um comilão erudito”, dizia Millôr Fernandes, que apreciava a boa mesa e um cálice de vinho de boa data, talvez em consequência de sua origem italiana incontornável, chancelada pelo sobrenome materno: Viola. “Gastronomia é comer olhando prô céu” dizia o seu apetite italiano. Apetite que se revelava na preferência por um restaurante com fortes sabores e sotaques peninsulares, o Arlecchino, que lhe inspirou um poema amargo na antevisão da morte: “Quando eu morrer/Tenho certeza,/ Meus amigos vão sentir/ Muito por mim,/ E, jantando no Arlechino,/Vão dizer que eu fui assim,/ Assim, assim & assim./ Mas não suspenderão/ Nem uma só/ Garfada de talharim.”

foto: divulgação
Esse ceticismo ilumina seu trabalho. Millôr, embora fosse um pioneiro em matéria de computador, não aceitava muito bem o livro para ser lido no computador, ou em outras “plataformas” virtuais. Millôr era do time de Guillermo Arriaga, diretor de cinema (“Burning Plain”) e roteirista (“21 Gramas”, “Babel”, “Amores Brutos”) que sempre afirmou que o livro de papel é imbatível, e não vai morrer, por um motivo singelo: é mais prático.
“Existe algo mais perfeito que isso?” − pergunta Arriaga, sacudindo um livro com a mão. − “Posso abri-lo, fechá-lo, amassar suas páginas, dobrar, segurar debaixo do braço, virar, largar, pegar... Não vejo problema nos livros eletrônicos, mas não se pode manipulá-los, o que é grande parte da diversão. O livro de papel é perfeito, − e o livro eletrônico morre assim que acaba a bateria”.
Umberto Eco entusiasma-se dizendo que as variações não alteraram o “objeto livro” em mais de 500 anos:
“O livro venceu seus desafios e não vemos como, para o mesmo uso, poderíamos fazer algo melhor que o próprio livro. – diz o diz O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não podem ser aprimorados. Você não pode fazer uma colher melhor do que uma colher.”
E se alguém sugere que o iPad tem toda a praticidade de um livro, − a começar pela forma semelhante, podendo ser utilizado comodamente para leitura numa poltrona, ou deitado na cama, − Eco permanecerá irredutível: por certo vai considerar um pouco arriscado ler um iPad na banheira.
Muitos anos antes, Millôr Fernandes, o gênio premonitório, antecipou-se ao debate com ironia soberba:
“Anuncia-se um revolucionário conceito de tecnologia de informação, chamado de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas - L.I.V.R.O. Não tem fios, circuitos elétricos, pilhas. Não necessita ser conectado a nada, nem ligado. É tão fácil de usar que até uma criança pode operá-lo. Basta abri-lo!”