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Posts do dia 27 abril 2012

Nosso brasileiríssimo feijão com arroz

27 de abril de 2012 0

Foto: Divulgação

O programa de um banquete, escreve a escritora inglesa Margaret Visser, tem um nome francês, menu, que vem do latim minor ou minutus: dá os detalhes do desempenho, como o fazem as atas de uma reunião, mas os dá profeticamente, antes que comece o ato de comer. Os menus, segundo Margaret, são “dispositivos corteses”, porque capacitam os convidados a avaliar quanto, de tudo que lhes será oferecido, eles poderão comer. Foram usados desde o início por restaurantes, como uma lista das possibilidades disponíveis e como forma de propagan­da. Embora menu seja aceito como galicismo incorporado pelo Aurélio, está consagrado o nosso brasileiríssimo cardápio, que segundo o próprio Aurélio, é uma mistura que vem do latim charta (“papel”) + dapum (que apesar de eventual sugestão de mau gosto, vem de dapes, “iguarias”). Hoje, cardápio é virtual, sinônimo de escolha de uma refeição, e ganha sentido amplo: até trailers de cachorro quente ou de xis têm cardápio ou menu.

Anonymus vasculhava esses significados tentando enfrentar, ou talvez fugir, da questão apresentada por Miss Taylor para sua tese de formatura no curso de jornalismo por correspondência: “Qual o cardápio favorito de Anonymus Gourmet?” O que será que os colegas e professores de Miss Taylor aguardavam? Camarões gratinados? Bacalhau ao forno? Alguma especialidade da cozinha japonesa? Ou, quem sabe, escargots? Quando hesitava entre essas saborosas insinceridades, Anonymus lembrou de uma frase de outra escritora também fascinada pela boa mesa, MFK Fischer: “Quase todas as pessoas têm alguma preferência inconfessável em matéria de comida.” E decidiu contar a verdade, arrostando as incompreensões: “Quando chega a hora do sacrifício”, − escreveu Anonymus a Miss Taylor, − “para decepção de muita gente, digo com orgulho que meu cardápio favorito é arroz, feijão, salada e bife…”

Como uma espécie de respaldo científico a essa prosaica escolha, diga-se que, alguns anos atrás, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabiologia lançou a campanha  “Vamos salvar o nosso brasileiríssimo arroz com feijão”, alertando que a alimentação dos brasileiros está ameaçada por uma enxurrada de alimentos e práticas alimentares estranhas, que se dividem entre as que engordam demais como os famigerados “xis” ou, no outro extremo, dietas mirabolantes para emagrecer. Os médicos garantiam: não há dieta melhor para a saúde e para o peso do que arroz, feijão, salada e bife. “Mas a escolha”, − concluiu Anonymus com honradez, − “embora reforçada por essas motivações científicas, tem mais a ver, simplesmente, com o gosto. Foi a primeira comida, depois do leite, que minha mãe me ofereceu.”