A revista de bordo da Air France, distribuída nos voos AF 1126 e AF 2227 que percorrem a rota dos sonhos Paris-Veneza-Paris, faz esta semana o elenco de “10 razões para visitar Veneza”. As fotos são melhores do que as razões invocadas – refletiu Anonymus, a bordo, fugindo da garoa parisiense para o sol da Piazza San Marco.
Por certo que os vidros deslumbrantes criados em Murano, a Fundação Guggenheim e, acima de tudo, o Harry’s Bar justificam uma ida à Veneza. Mas o Harry’s Bar, infelizmente, está ocupado por brigadas de chineses enriquecidos que, aproveitando-se da Europa quebrada, transformam a lenda num frango a xadrez mal temperado... Que saudades do velho Harry’s! – exclamou Anonymus Gourmet, que desfrutou pessoalmente do Bellini, um coquetel de frutas e “doses exatas de um álcool de classe”, preparado pelo velho Arrigo, que virou Harry depois que enriqueceu atrás do balcão.
O Barão de Rothschild disse certa vez para a revista Harper’s Bazaar que não sabia qual era o melhor restaurante do mundo, pois ainda não tivera tempo de visitar todos. Mas, pensando melhor, ao olhar para o fundo dos olhos verdes da linda repórter que o entrevistava, confessou que, a propósito, tinha algo a declarar: “Existe um único restaurante no mundo em que me sinto em casa: o Harry’s Bar, em Veneza”.
Além do Barão, também Humphey Bogart & Laureen Bacall, Hemingway, Douglas Fairbanks Jr., Toscanini, Orson Welles, Cole Porter, o Duque de Windsor, Ava Gardner e tantos outros homens e mulheres que tiveram talento e fundos para viver com estilo, sentiram-se em casa por mais de cinco décadas no belo bar e restaurante das proximidades da Piazza San Marco, fundado por Giuseppe Cipriani, que teve no filho Arrigo um sucessor que soube conservar a tradição do lugar.
O Fegato alla veneziana, que tanto comovia Ava Gardner, continuou por muito tempo a arrancar exclamações. E um clássico da simplicidade aparente, o Spaghetti con salsa di pomodori freschi al basilico foi um best seller que cruzou as décadas com aprovação. O carpaccio, segundo a lenda, surgiu às margens do Grand Canale, no Harry’s Bar, no final dos anos 1930.
Uma condessa pediu ao maître um prato de carne que não fosse cozida. O maître requisitou ao chef de cozinha fatias de carne crua cortadas como fiambre, arranjadas num prato. Por cima, o próprio maître espalhou algumas alcaparras, mostarda, pimenta do reino, sal e azeite de oliva. E serviu.Na primeira garfada, a condessa rendeu-se: “Que maravilha! Como é o nome deste prato?” O maître olhou pela janela e havia um cartaz anunciando a exposição do mais famoso pintor veneziano: Carpaccio. Fez uma mesura e informou: “O nome do prato, Sra. Condessa, é carpaccio.” E, antevendo um novo best seller, Harry apressou-se a incluí-lo no cardápio.




