No período eleitoral que se aproxima, uma vez mais Anonymus Gourmet recorda Maquiavel – Niccolò di Bernardo dei Machiavelli, historiador, diplomata, filósofo, escritor memorável que, se vivo fosse, completaria 543 anos no último dia 3 de maio (nasceu em 1469). Entretanto, morreu de desgosto em 21 de junho de 1527. No poder, adorava uma mesa farta, com toalhas de linho egípcio, talheres pesados, porcelanas assinadas, vinhos de boa data servidos em cristais coruscantes. Demitido, cultivou em textos soberbos uma ironia discreta em relação ao seu tempo.
Essa ironia carregada de desalento resignado em face da realidade, é confundida com cinismo: "Grande é a diferença entre a maneira em que se vive e aquela em que se deveria viver" − constatou com simplicidade e realismo no "Príncipe", advertindo a seguir: "Quem deixar de fazer o que é de costume, para fazer o que 'deveria' ser feito, encaminha-se mais para a ruína do que para sua salvação". A obstinação de Maquiavel não eram as mulheres, como Casanova, nem a boa mesa como Brillat Savarin, mas a política, onde as ferramentas não deixam de ser semelhantes: também aí é indispensável o uso competente das armas da sedução e da conquista, além da capacidade de conciliar − ainda que seja o sabor dos vinhos com o aroma dos pratos.
Maquiavel sempre quis ser apenas um político e, de fato, teve intensa atividade no governo florentino, dos 29 aos 43 anos de idade. A literatura foi uma fatalidade. Derrubado pelas fofocas, construiu sua glória nos 15 anos de exílio do poder: com o ócio forçado pelas circunstâncias, teve os vagares necessários à sua obra. Escreveu para não enlouquecer, até morrer aos 58 anos. Graças às perseguições dos Médicis, temos hoje "O Príncipe", seu texto mais famoso, embora "Discorsi sopra la prima Deca di Tito Livi” seja a obra-prima. Maquiavel, na verdade, não tinha nada de amoral ou "maquiavélico", no sentido perverso que o termo ganhou. Os huguenotes franceses, os puritanos ingleses e os jesuítas, que tinham reduzido a atividade política a intrigas palacianas sustentadas pela força das armas, foram apanhados de surpresa pela força renovadora do pensamento de Maquiavel.
A admiração (temperada com inveja) que sua inteligência fulgurante despertou naquele tempo deriva da coragem que teve ao escrever certas verdades: "É muito mais seguro sermos temidos do que amados. Os homens têm menos escrúpulo de ofender quem se faz amar do que quem se faz temer. Pois o amor depende de uma vinculação moral que os homens, sendo malvados, rompem. Mas o temor é mantido por um medo de castigo que não nos abandona nunca".




