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O cozinheiro deveria ser ministro

25 de maio de 2012 0

Poderiam estar na Ilha da Madeira as tais “ilhas verdejantes da imaginação” do verso de Lord Byron que mais encanta Anonymus Gourmet. No original, essas ilhas eram em Veneza, a saudade permanente de quem morreu longe demais. E cedo demais, como morriam os poetas antigos: tinha só 36 anos, quando tombou em combate na Grécia, heroicamente, como sempre sonharam tombar os personagens épicos. As ilhas verdejantes talvez mudassem se Byron tivesse sobrevivido para percorrer esta pequena Madeira luxuriante, que consegue o prodígio de preservar uma floresta de Laurissilva da era Terciária, considerada uma relíquia natural pela Unesco. O segundo prodígio é que, hoje, a floresta convive em harmonia com auto-estradas extraordinárias que furam rochedos, levando a hotéis de luxo, lojas de sonho e pequenos restaurantes inesquecíveis.

“Virgem, selvagem e disponível ao mundo”, - é uma definição adequada para esta ilha portuguesa da África do Norte, embora originalmente Giacomo Casanova tivesse usado a frase, numa idealização da meia idade, a propósito de uma vizinha adolescente de olhos verdes.

De qualquer forma, 24 horas depois de chegar a Funchal, a capital exuberante, parece que você passou ali a vida inteira a olhar o mar. O forasteiro tem essa amável sensação de residente por causa da hospitalidade calorosa, que é um traço tocante dos ilhéus. Uma senhora a quem pedi uma informação na rua, deixou o que fazia, para me acompanhar meia quadra até o lugar que eu procurava: “Fiquei com medo que o senhor se perdesse”, explicou com simplicidade e alívio essa fidalga das ruas. Encontrei fidalgos assim nos ônibus, nos bares e restaurantes, pelas esquinas, - gente da nobreza das relações humanas, da realeza do convívio, disfarçada em trabalhadores de rua, lavadeiras, garis, motoristas, guardas de trânsito, camareiras. O que eles oferecem a quem atravessa o mar para visitá-los, não tem nada a ver com a cortesia bilíngüe da hotelaria internacional.

A exuberante Funchal, cidade portuguesa belíssima e aconchegante

Diante daquele mar, verde como os olhos da vizinha, entendi a verdade da síntese ambígua de Casanova (que, aliás, foi melhor poeta do que vizinho), e também entendi ainda melhor as tais “ilhas verdejantes da imaginação” de Lord Byron. Como diz um verso de Florbela Espanca, transformado em fado na voz da encantadora Mariza, sucesso permanente na ilha:“Só quem embala no peito / Dores amargas e secretas / É que em noites de luar / Pode entender os poetas...”

E nem falei das iguarias! Ah, o peixe espada grelhado com bananas... E a espetada, variante do churrasco em espetos de madeira!? E a lembrança antiga do restaurante do Jango... Nada a ver com o nosso grande ex-presidente, mas o cozinheiro deveria, por justiça, ser um ministro da boa mesa... A Madeira é uma mesa saborosa e perfumada no meio do mar. Voltaremos!

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