O caráter e também a dieta de Dom Quixote foram submetidos a rigoroso inquérito sob a liderança da Doutora Helena Ibañez, coordenadora do Núcleo de Direito e Literatura da Ordem dos Advogados. Helena é uma força da natureza que enfrenta a radioterapia com bravura, e reserva aos colegas e convidados doses generosas de doçura e fidalguia. Com a força de um dínamo, semanas atrás, conseguiu lotar o auditório da OAB para uma palestra sobre Dom Quixote. Tantos eram os presentes ilustres, que o Presidente Lamacchia, habilmente, concentrou suas homenagens no convidado de honra, Carlos Nejar, entre outros títulos membro da Academia Brasileira de Letras, na Doutora Helena é claro, e no melhor de todos nós, o Dr. Paulo Brossard.

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Além da palestra inexcedível de Nejar, e dos comentários brilhantes do médico Julio Campos e de um arguto leitor do Quixote, João Ibañez, pedi licença a Anonymus Gourmet e atendi o convite para breves considerações sobre o caráter e a dieta de Dom Quixote. Comecei lembrando que, no primeiro parágrafo do Livro, Cervantes descrevia a dieta de Dom Quixote, que incluía “filhote de pombo bravo como acréscimo aos domingos”. Certa vez, anos atrás, num jantar remoto em Lisboa, em que foi servida uma magnífica canja de pombo bravo, tentei imaginar como o Quixote preparava o tal filhote de pombo bravo: no forno, crocante, com cebolas e batatas? Ou quem sabe na caçarola, perfumado por um daqueles tintos soberbos de Rioja? Nem assado, nem na caçarola: era uma canja como aquela! – sem dúvida. Naquele jantar de anos atrás, numa espécie de delírio, tive certeza que, ali, na minha frente, fumegava o prato sugerido por Cervantes em 1604.
Quatrocentos anos depois, outra vez, eu tinha que me curvar diante do maior de todos os escritores. Até como gastrônomo, Cervantes reinventava a realidade melhor do que todos os outros: não há nada que se iguale a uma canja de pombo bravo. Relembrei esse momento gastronômico quixotesco com a advertência de Maria Fernanda de Abreu: embora Quixote seja a figura mais popular da literatura, muitos de nós já fomos chamados de quixotes, e as nossas ações, imaginações ou sonhos foram qualificadas de quixotescas, no melhor dos casos com uma irônica ternura compassiva. E tive que denunciar a presença, ali naquela sala de dois quixotes disfarçados: a Dra. Helena Ibañez que, desafiando os astros e a lei das probabilidades, tinha conseguido lotar um auditório para conversar sobre um livro escrito há tantos séculos atrás; e o Dr. Paulo Brossard que, no longínquo ano de 1974, candidatou-se a senador, enfrentou os moinhos de vento do regime militar e, como Dom Quixote, tomou o céu - e também os nossos corações - de assalto.