O frio terrível da semana passada lembrou a Anonymus Gourmet um inverno rigoroso de anos atrás. Naquele sábado remoto, quando o frio começou para valer em Lisboa, Anonymus combinou com o Almirante Vasco Marques e com a fiel Rosarinho um jantar de despedida em grande estilo. O local não poderia ser outro a não ser o Manoel Caçador, sob o olhar protetor da bela Dores, que lá ainda trabalhava. O cardápio foi escolhido nas páginas das obras completas de Eça de Queiroz que, no século 19, já escrevia nossa língua de forma moderna, direta e elegante. Além disso, em suas páginas brilha a boa gastronomia... Valeu a pena montar um cardápio inspirado na prosa perfumada e saborosa de três de seus livros:
Entrada (Ovos com chouriço):“Felizmente estavam chegando à Porcalhota. Decidiu-se, depois de pensar muito, por uma bela pratada de ovos com chouriço. Era uma coisa que não provava havia anos, e que lhe daria a sensação de estar na aldeia... Quando o patrão, com um ar importante e como fazendo um favor, pousou sobre a mesa sem toalha a enorme travessa com o petisco, Cruges esfregou as mãos, achando aquilo deliciosamente campestre. ‘A gente em Lisboa estraga a saúde!’ — disse ele, puxando para o prato uma montanha de ovos e chouriço.” (Os Maias)
Prato principal (Bacalhau aos alhos): “ ‘Que tens tu para jantar? Manda-me assar um bocadinho de bacalhau! Meu marido detesta bacalhau! Aquele animal! Mas é a minha paixão. Com azeite e alho!’ E como Juliana entrava com o bacalhau assado, fez-lhe uma ovação: ‘Bravo! Está soberbo!’ Tocou-lhe com a ponta do dedo, gulosa; vinha louro, um pouco tostado, abrindo em lascas. Teve então um movimento decidido de bravura, e disse: ‘Traga-me um alho, Senhora Juliana! Traga-me um bom alho! Eu vou ter logo com o Fernando, mas não me importa!... Ah! Obrigada, Senhora Juliana! Não há nada como o alho!...’ Esborrachou-o em roda do prato, regou as lascas do bacalhau de um fio mole de azeite, com gravidade.” (Primo Basílio)
Sobremesa (Arroz doce): “Excelente lembrança! Há tempos não como arroz-doce! Desde a morte da avó... Mas quando o arroz-doce apareceu triunfalmente, que vexame! O arroz, maciço, moldado, em forma de pirâmide do Egito, emergia de uma calda de cereja e desaparecia sob os frutos secos que o revestiam até ao cimo, onde se equilibrava uma coroa de conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! Repelimos, num mudo horror, o prato acanalhado.” (A cidade e as serras) [N.R.: Atenta a essa “tão bem escrita receita de como não fazer”, Dores serviu um arroz doce, segundo o Almirante, “capaz de recuperar a confiança de Eça e de seu decepcionado personagem Jacinto de Tormes”].



