Além de amigo inexcedível e escritor notável, Josué Guimarães era um cozinheiro de convicções. Mas acima de tudo, tinha graça. Nos anos 70, quando o Josué e a Nídia, com os filhos Rodrigo e Adriana, moraram em Portugal, fui recebido na casa deles por um longo período, doente, e tenho certeza que, além do carinho, a magnífica cozinha da casa foi decisiva na minha recuperação. O comando da cozinha era da Nídia, mas o Josué fazia seus números gastronômicos com competência e bom humor, encantando os amigos que sempre enchiam a casa nos almoços de domingo.
Gosto de recordar velhas histórias desse homem que, mesmo nos anos de chumbo, perseguido e clandestino, nunca perdeu a graça. A capacidade de encantar do Josué, com seu carinho aos amigos, era infinita. Foi talvez por isso que o Paulo Lima concordou em experimentar os rins preparados por ele. Lima sempre detestou rins. Até o dia em que chegou na casa do Josué, que, na cozinha, concluía a preparação de uns “rins fantásticos”, como anunciou com entusiasmo. “Não gosto de rins”, — desculpou-se o Lima, constrangido. “Destes aqui, tu vais gostar”, — disse o Josué, inabalável. E convenceu o Lima que “aqueles rins” que ele estava preparando eram imperdíveis. Josué explicava, com convicção, que era preciso “eliminar os vestígios da origem”. Por isso, com paciência e minúcia, fazia uma limpeza rigorosa dos rins bovinos, antes de cozinhá-los, com o cuidado suplementar de lavá-los com limão depois de limpos. De fato, os rins ficaram esplêndidos. Mas o Lima, até hoje, repete sua dúvida: terá sido a excelência do preparo ou foi cativado pela graça da argumentação do Josué?
Nesses almoços, Josué gostava de lembrar uma antiga empregada que lhe dedicava devoção reverencial. Quando chegavam visitas e ele pedia um cafezinho, a empregada trazia a bandeja com as xícaras, oferecendo em primeiro lugar para o Josué, antes dos convidados. O fato se repetia, apesar da insistência do Josué para que ela servisse em primeiro lugar as visitas, sempre. Certo dia, para que a empregada assimilasse a determinação, usou um toque de ironia: “Não esqueça: as visitas primeiro, por piores que elas sejam”. Dias depois, receberam um político ilustre. E lá veio a empregada com a bandeja, mas, dessa vez, servindo a visita em primeiro lugar. O tal político fez uma mesura e pediu que servisse o cafezinho antes ao Josué. Mas a empregada ficou firme: “Não senhor. O Seu Josué me ensinou: a gente deve servir primeiro as visitas, por piores que elas sejam.”




