Rudimar Florêncio manteve dois hábitos, depois que se aposentou na polícia: o revolver Smith Wesson na cintura, discretamente protegido e disfarçado sob o paletó, e uma feijoada completa, às terças feiras no bar do Seu Pituca. Abancava-se ali, faminto e com sede, lembrando que a vida é justa, ajeitava o guardanapo de pano no colarinho, preparando-se para repetir aquele prazer indizível que se repetia pontualmente todas as semanas, há décadas.
Na feijoada, é claro que não faltava, “junto com os entretantos”, uma boa cachaça, a purinha de Santo Antônio da Patrulha. E para “acompanhar os finalmentes” uma jarra de um bordô da Serra, que deixava o Rudimar ligeiramente alegre e com os lábios tingidos de roxo, mas sobretudo com a alma lavada. Na sobremesa, em vez dos ovos moles de sempre, excepcionalmente, naquele dia aceitou um doce de abóbora, sugestão de Tania Margarete, a opulenta loira oxigenada que atendia no Seu Pituca, e o chamava por “Rudi”.
Depois do almoço capitoso, a cabeça levemente girando sob o amável casamento da branquinha e com o bordô, caminhando pela calçada ensolarada do início da tarde, Rudi pensava na justiça da vida. Também refletia que, ao contrário de outros colegas da polícia, ele não se aposentara da vida. Continuava a manter suas rotinas e, apertando levemente, sob o paletó, no coldre, o Smith Wesson carregado, pensou que, mesmo aposentado, ainda se sentia um policial, pronto a entrar em ação.
Foi quando aconteceu a cena. Na sua frente, um homem alto, muito forte, encapuzado, avançou em direção a uma jovem belíssima que distraidamente lia uma revista recostada ao muro de uma casa. Rudimar parou e, instintivamente, por cima do paletó, passou a mão pelo Smith Wesson, de prontidão. O homem apontou um revólver para a moça e gritou: “Você vai morrer!” A moça gritava desesperada, mas o bandido, sem piedade, engatilhou a arma e rugiu: “Vou acabar contigo agora!” Antes que o elemento pudesse atirar, Rudimar com maestria, sacou o Smith Wesson, e deu vários disparos, acertando a cabeça do bandido. Para sua surpresa, a moça ficou perplexa e revoltada, chorando muito, e se atirou contra Rudimar, dando socos, aos berros: “Você enlouqueceu?! Isto aqui é apenas uma filmagem!” Em seguida, surgiram os câmeras, iluminadores, figurantes, correndo e gritando apavorados.
Sobressaltado, Rudimar Florêncio acordou da sesta. E logo encontrou os motivos do pesadelo: “Doce de abóbora de sobremesa é um perigo. Na semana que vem, volto para os ovos moles”.




