Frio de zero grau, céu cinzento, as ruas do sábado ocupadas por manifestantes contra o governo que paralisaram parcialmente os transportes. Ao mesmo tempo, filas imensas aguardavam, em frente ao Grand Palais, o momento de se deslumbrar com a maior exposição já realizada das obras do ícone impressionista Claude Monet.
Enquanto isso, perto do aeroporto, num centro de convenções que mais parece uma cidade, os nervosos preparativos para a SIAL, a maior feira de alimentação do mundo. Ça c’est Paris! – refletiu Anonymus Gourmet, enquanto se deliciava diante de um saboroso entrecot com aspargos gratinados, guarnecido por uma honrada garrafa de Châteauneuf du Pape “Vieilles Vignes”, no Le Grand Colbert, perto da mesa favorita de Jack Nicholson e também de José Abu-Jamra.
O Grand Colbert, até virar cenário do encontro inesquecível de Jack Nicholson e Diane Keaton, no filme Alguém tem que ceder, era apenas mais um dos extraordinários restaurantes que fizeram a fama de Paris. Depois, é claro, virou atração turística. Mas quando um dos velhos garçons pressente – pelo corte do sobretudo, ou pela gravata impecável – um dos antigos clientes, é como se um farol se acendesse, e brilha o velho charme do lugar. Dois expressos sem açúcar foram necessários para encorajar Anonymus Gourmet a deixar o Grand Colbert.

Diane Keaton, Keanu Reeves e Jack Nicholson contracenam com maestria e muito humor em "Alguém tem que ceder"
Esgueirando-se entre os manifestantes do Boulevard Beaumarchais, Anonymus, bem alimentado, tomou o rumo da maior feira de alimentação do mundo, instalada, por cinco dias, nas proximidades do aeroporto Charles De Gaulle. Depois do almoço, os comilões são virtuosos, pensou Anonymus, ao ingressar no imenso espaço, em que não faltavam tentações saborosas: no fantástico centro de imprensa, equipado com computadores Mac de última geração, um grande balcão oferecia uma espécie de enciclopédia viva de canapés, acepipes, sanduíches e empadas de todos os tipos e recheios, devidamente acompanhados por uma mostra sintética, mas expressiva, de champagnes, vinhos, conhaques e licores de diversas procedências francesas, de prontidão para enfrentar a sede e a fome de mais de mil jornalistas credenciados.
Pelos quilômetros e quilômetros da gigantesca feira, encontrava-se de quase tudo: frango, suínos, vinho e outros importantes produtos brasileiros lado a lado com linguiças suecas, molhos italianos, patos franceses, carnes australianas, arroz vietnamita, bacalhau norueguês, azeites portugueses... Olhando a paisagem, com o estômago e a alma ocupados pelo entrecot do Grand Colbert, Anonymus pediu ao discreto garçom queniano da sala de imprensa um chá de verbena que, além do mítico poder de reacender velhas paixões, tem importantes qualidades digestivas.





