Quando viajamos, sempre há uma dica de algum amigo piedoso sobre um ótimo restaurante a não perder. Anos atrás, Anonymus Gourmet decidiu escrever sobre um restaurante a frequentar com cautela: o Grand Cafe de Bordeaux, onde há vinhos soberbos, mas o principal prato de carne – a cote de boeuf a la mode du chef – provavelmente é servida, em verdade, à moda japonesa, pois lembra um sashimi: a carne parece crua, de tão mal passada.

foto: divulgação
Só que os restaurantes japoneses são em geral servidos por atendentes cordiais, bem diferentes do maître e do garçom bordaleses, mal humorados e com pressa, que, contrariados, informaram que “aquilo” era mal passado – “e pronto!” Anonymus Gourmet invocou silenciosamente o Cavalo Celeste para sublimar o desaforo e evitou revelar que o convidado que o acompanhava naquela jornada que se revelava áspera era ninguém menos que o Dr. José Abu-Jamra, que, além de estrela eventual de nosso show culinário, é considerado por Tom Hanks (em Saint Barth) e Ed Motta (em Atlântida, RS) um dos maiores assadores da América Latina.
Anonymus procurou advogar a causa com frieza e sangue frio, ponderando com a polidez possível que talvez, quem sabe, por gentileza, se não fosse incômodo, pudesse o cozinheiro conceder para aquela peça de carne quase crua uns minutos a mais na grelha? Assim como faltava cordialidade japonesa ao garçom e ao maître, também faltou grandeza ao cozinheiro: rancoroso, ele devolveu a mesa uma peça cozida em excesso que mais parecia egressa das velhas sopas do Exército da Salvação, as quais, entretanto, faça-se justiça: eram quentes e, ali, o cozinheiro, claramente querendo se vingar, seguiu a rigor o preceito de que a vingança é um prato que deve ser servido frio.
De qualquer forma, a situação de Anonymus e Abu era semelhante à encruzilhada de Robert Redford, que, ao fundo, numa imensa tela de plasma, tentava ganhar tempo para salvar Brad Pitt, no filme Jogo de Espiões. E, exatamente como aconteceu com Redford no filme, a solução mágica haveria de surgir inesperadamente na mesa. No filme, as coisas se resolveram num arriscado desembarque de helicópteros. Naquela mesa de Bordeaux, em que tudo parecia perdido, a luz brotaria de uma magnífica garrafa de Chateau Beausejour Becot, 2001, que merecia muito além do que 89/100 atribuido por Robert Parker. Daquele pantanoso restaurante brotara uma garrafa deslumbrante. Além do prazer intenso do vinho, a perplexidade inevitável: por que a cozinha não tinha o padrão da adega? Quais seriam os critérios ou os princípios da casa? Foi inevitável lembrar Grouxo Marx: “Senhora, aqui tem meus princípios. Se não lhe agradam, tenho outros.”