Ainda o Casablanca. No filme, as noites são bem mais movimentadas no Rick’s Café Americain, no Marrocos, do que no bar Belle Aurore, de Paris, onde Richard Blaine (Humphrey Bogart) e Ilsa Lunt (Ingrid Bergman) viveram seu romance nos dias que antecederam a ocupação alemã. O Belle Aurore está sempre vazio. Da janela, observando a entrada da Gestapo em Paris, sob os estrondos da artilharia, Ilsa diz a frase comovedora que, em outro lugar, soaria insuportável: “Serão canhões ou é o meu coração que dispara?”
O Rick’s Café Americain foi mais bem sucedido do que o Belle Aurore, porque, no Marrocos, Richard Blaine não tinha namorada e podia cuidar melhor do empreendimento. O amor, geralmente, dá prejuízo. No Belle Aurore, durante o idílio parisiense, Richard ficava todo o tempo bebendo champagne e namorando Ilsa, ao som do piano de Sam. Não tinha tempo para os negócios e para os fregueses. O celibato forçado na cidade de Casablanca obrigou Richard a mergulhar no trabalho, fazendo do Rick’s Café Americain uma casa próspera. Os problemas começaram quando Ilse reapareceu, com Laszlo: “Entre todos os buracos do mundo, ela foi escolher logo o meu bar para entrar!” - explode Rick na madrugada, durante um dos porres mais célebres da história do cinema. Desde então, o dono passou a ser “o melhor freguês” da casa.
Mas, o drama pessoal reforçou o encanto do lugar. Todos iam ao Rick’s, por causa da ótima administração de Richard Blaine, que deu vida a um local atraente. Tinha astral, boas instalações, a música do Sam e da pequena orquestra, e é claro, o próprio charme pessoal de proprietário: um americano (naquela época dava prestígio ser norte-americano) com obscura e sedutora aura de aventureiro e militante antifascista em outras guerras. Era afável com os empregados e correto com os fregueses − desde que não fossem nazistas: um banqueiro alemão é arbitrariamente impedido de entrar na sala de jogo logo no início do filme, enquanto Rick estuda um tabuleiro de xadrez. Rick ia fazendo justiça à sua maneira, enfrentando os nazistas possíveis, contemporizando com o chefe de polícia, que o considerava um sentimental, e discretamente tentando ajudar os refugiados. Mas o empresário Richard Blaine procurava manter as aparências de um bar sem bandeira.
“Qual é a sua nacionalidade?” - pergunta o Major Strasse, desconfiado, averiguando suas preferências políticas.
“Sou um bêbado.” - responde Rick.

















