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Posts na categoria "Colunas e dicas"

Um bar sem bandeira - J. A. Pinheiro Machado

24 de maio de 2013 0

Ainda o Casablanca. No filme, as noites são bem mais movimentadas no Rick’s Café Americain, no Marrocos, do que no bar Belle Aurore, de Paris, onde Richard Blaine (Humphrey Bogart) e Ilsa Lunt (Ingrid Bergman) viveram seu romance nos dias que antecederam a ocupação alemã. O Belle Aurore está sempre vazio. Da janela, observando a entrada da Gestapo em Paris, sob os estrondos da artilharia, Ilsa diz a frase comovedora que, em outro lugar, soaria insuportável: “Serão canhões ou é o meu coração que dispara?”

O Rick’s Café Americain foi mais bem sucedido do que o Belle Aurore, porque, no Marrocos, Richard Blaine não tinha namorada e podia cuidar melhor do empreendimento. O amor, geralmente, dá prejuízo. No Belle Aurore, durante o idílio parisiense, Richard ficava todo o tempo bebendo champagne e namorando Ilsa, ao som do piano de Sam. Não tinha tempo para os negócios e para os fregueses. O celibato forçado na cidade de Casablanca obrigou Richard a mergulhar no trabalho, fazendo do Rick’s Café Americain uma casa próspera. Os problemas começaram quando Ilse reapareceu, com Laszlo: “Entre todos os buracos do mundo, ela foi escolher logo o meu bar para entrar!” - explode Rick na madrugada, durante um dos porres mais célebres da história do cinema. Desde então, o dono passou a ser “o melhor freguês” da casa.

Mas, o drama pessoal reforçou o encanto do lugar. Todos iam ao Rick’s, por causa da ótima administração de Richard Blaine, que deu vida a um local atraente. Tinha astral, boas instalações, a música do Sam e da pequena orquestra, e é claro, o próprio charme pessoal de proprietário: um americano (naquela época dava prestígio ser norte-americano) com obscura e sedutora aura de aventureiro e militante antifascista em outras guerras. Era afável com os empregados e correto com os fregueses − desde que não fossem nazistas: um banqueiro alemão é arbitrariamente impedido de entrar na sala de jogo logo no início do filme, enquanto Rick estuda um tabuleiro de xadrez. Rick ia fazendo justiça à sua maneira, enfrentando os nazistas possíveis, contemporizando com o chefe de polícia, que o considerava um sentimental, e discretamente tentando ajudar os refugiados. Mas o empresário Richard Blaine procurava manter as aparências de um bar sem bandeira.

“Qual é a sua nacionalidade?” - pergunta o Major Strasse, desconfiado, averiguando suas preferências políticas.

“Sou um bêbado.” - responde Rick.


Foto: Luciano Closs - Creative Commons


Um drinque fortalece o caráter - J. A. Pinheiro Machado

17 de maio de 2013 0

A ameaça de uma refilmagem de Casablanca paira sobre o mundo do cinema. Em todos os quesitos o original é inexcedível. A começar pela infra-estrutura gastronômica do Rick’s Café Americain. A adega do bar, por exemplo, era extraordinariamente bem fornida, pelas indicações do filme. Há uma cena em que o Capitão Renault recomenda ao Major Strasse um champagne Veuve Clicquot safra 1926. A história presumivelmente se passa em 1941 - era o apogeu daquela safra. O Major Strasse pede “champagne and a tin of caviar”. Anonymus Gourmet escreveu em seu diário, depois de assistir Casablanca pela 200.a vez, que se tornaria vegetariano por seis meses, como uma espécie de contrição, se pudesse furtar uma colherada desse caviar na passagem do garçom.
Nas temperaturas elevadas do deserto, os pedidos de tintos encorpados de Bordeaux e grandes bourgognes por certo eram raros, mas seria indispensável ter alguma coisa consistente estocada: duas ou três caixas de Château Pichon Lalande e alguma reserva de Château Lafite Rothschild, além de uma pequena lista de borgonhas mais jovens, para dar respeitabilidade à casa. Com o calor e a baixa umidade, Rick com certeza tinha graves problemas de armazenamento. Não deve ser fácil manter uma adega no deserto. Esse problema do clima é sublinhado no diálogo em que o Capitão Renault pergunta por que Rick veio para Casablanca.
“Por motivos de saúde. Vim por causa das águas.” - responde Rick.
“Águas? Que águas? Nós estamos no deserto!” - reage Renault.
“Acho que fui mal informado.” - sorri Rick com seu esplêndido cinismo.
Destilados são mais fáceis de conservar no deserto, bastando cuidar para que fiquem em local arejado, sem sol direto. Carl serve ao casal de refugiados alemães um conhaque extraordinário que diz ser “o dos empregados”. Rick foi movido por nobres ideais quando estragou o “pequeno romance” do Capitão Renault com a jovem esposa búlgara disposta a uma pequena infidelidade em troca de dois vistos de saída. Naquela cena em que Rick decide ajudar o jovem búlgaro, o marido prestes a ser traído, facilitando seus ganhos na roleta, bebia talvez um dos extraordinários conhaques de Delamain & Co., quem sabe um Gr. Champagne 1935 - que, por baixo, naquela época, com o câmbio negro pressionando os preços, devia chegar ao Marrocos por mais de 700 dólares a garrafa. Duas ou três doses de Delamain podem ter aguçado a generosidade de Rick, quando fez o sinal ao crupier e sugeriu àquele desesperado refugiado que jogasse tudo, duas vezes, no 22, ganhando a bolada que tornou desnecessário emprestar a esposa ao Capitão Renault em troca do visto. Um drinque de primeira classe fortalece a grandeza de caráter.


Foto: Anders Adermark / Creative Commons


O chá com biscoitos dos poetas

10 de maio de 2013 0

Numa tarde ensolarada dos anos 1970 percebi, nas proximidades da majestosa escadaria da Piazza di Spagna, em Roma, uma placa de mármore. Estava na parede de uma pequena casa antiga e dava notícia que ali morou e morreu John Keats. E com ele, durante certo tempo – fiquei sabendo depois - moraram Lord Byron e Shelley. Três poetas magníficos nascidos no final do século 18. Por uma escada estreita, com corrimão de ferro pintado de verde e os degraus gastos pelo uso, mas muito brancos e muito lavados, não resisti à curiosidade e cheguei ao terceiro andar.
A casa, preservada por uma instituição cultural inglesa, estava como Keats a deixou. A não ser pelas módicas 500 liras na entrada, para ajudar na conservação, tudo se passou como uma visita à casa de velhos amigos. Um homem uniformizado, de modos educados, recebia os poucos visitantes e mostrava com orgulhosa devoção o quarto em que Keats morreu, a mesa onde Shelley escrevia, os livros de Byron cobertos de anotações espirituosas à margem.
A pequena cozinha reforçava a sensação de que os três andavam por perto. Um bule antigo parecia aguardar o momento do chá com biscoitos dos poetas.
Em sua curta vida, Keats foi desprezado pelos contemporâneos, que consideraram de segunda classe seus poemas sensuais de apelo popular. Não viveu o suficiente para conhecer a glória, mas os séculos seguintes se encarregaram de fazer justiça. Meu primeiro encontro com John Keats, escreveu Jorge Luis Borges, foi a experiência literária mais importante de toda a minha vida. Dois séculos depois de sua morte, não falta quem o considere o mais amado dos poetas ingleses.
Percy Bysshe Shelley fez mais sucesso em vida, com versos clássicos que o tempo fez envelhecer, mas sua mulher Mary Shelley, também escritora, salvou a honra da família, criando um personagem eterno: Frankestein. Lord Byron escreveu muito, namorou, bebeu bastante, viajou demais e deixou a dúvida: sua vida não terá sido mais emocionante que sua obra? Vidas e obras tão diversas, os três morreram jovens. Keats morreu tuberculoso. Shelley afogou-se num naufrágio em alto mar. Lord Byron morreu heroicamente em combate pela liberdade da Grécia. Três destinos trágicos, mas impecáveis, do ponto de vista literário, para os três maiores poetas românticos da Inglaterra.



Casa dos poetas John Keats, Lord Byron e Shelley - Foto: Carmen Alonso Suarez/Creative Commons



Harmonização entre queijos e vinhos

05 de maio de 2013 2

Para quem gostou das dicas de harmonização no post anterior, separamos mais alguns macetes pra você.




Foto: Rodrigo Denúbila - Creative Commons




Essa publicação é dedicada aos telespectadores do Anonymus Gourmet que gostam de vinhos. Afinal, a bebida dá um charme todo especial, principalmente em estações como o inverno.

Mas, faz toda a diferença ter um bom acompanhamento para degustação. Nessas circunstâncias, o queijo é novamente um perfeito aliado, que vai agregar mais sabor aos bons momentos de descontração e relaxamento.




Foto: AirDiogo - Creative Commons




Então veja como combinar esses dois componentes:

- O queijo tipo parmesão é um aperitivo perfeito para ser servido com vinho;

- É importante cuidar o tipo de concentração. Se você comprou um queijo menos maduro, escolha um vinho tinto encorpado. Exemplos: Cabernet Sauvignon e Merlot;

- Quando o queijo concentra mais sal, opte por espumantes do tipo seco ou demi-sec. Assim, a efervecência da bebida vai limpando a boca, já que os vinhos mais encorpados tendem a secar;

- Queijo seco não tem afinidade com vinho seco. É preciso contrapor;

- Gosta de queiijo mais úmido? Então, parta para um vinho tinto;

- As frutas secas também combinam perfeitamente com vinhos e com queijos, especialmente os ralados. Em países, como Itália e França, o queijo é utilizado como sobremesa. Por isso, adicionar à ele maçã, pêra e pêssego, isto é, aquelas que são mais pastosas. No entanto, não se deve misturar frutas cítricas.




Foto: Igor Giamoniano - Creative Commons




Agora que você já tem algumas orientações, pode preparar uns petiscos acompanhado da sua bebida favorita. Assim, lhe desejamos um otimo fim de semana!

Harmonização entre queijos e cervejas

04 de maio de 2013 0



Foto: Patrick Silva - Creative Commons



Quem não gosta de cerveja? Degustar a bebida fica ainda melhor se esta vier acompanhada de petiscos, como queijos picadinhos. Esses dois componentes combinam, e muito, especialmente em dias quentes. Para você apreciar perfeitamente, separamos algumas dicas de harmonização.



Foto: Raphael Martins - Creative Commons



- Cerveja forte tem como par ideal queijo forte. Mas, recomenda-se começar a saborear opções mais leves de ambos para depois, então, partir para os mais consistentes;

- Os queijos suaves pedem cervejas claras, que geralmente possuem menor teor alcoólico;

- Nas noites frescas opte por cervejas claras ou avermelhadas. Para acompanhar, boas opções são os queijos Gouda (aquele amarelo holandês) e Fontina (que derrete facilmente em contato com coisas quentes, semelhante ao Mozzarella);

- Os resquícios de açucar da cerveja combinam com o gosto adocicado de algumas variedades de queijo;

- É importante escolher a cerveja analisando o tempo de maturação de cada queijo. Se gosta de meia-cura, peça pelas de corpo médio. Escolhendo mais maturados, cervejas encorpadas;

- Água e pão podem acompanhar a degustação constantemente. Eles são neutros e ajudam a diminuir os efeitos da bebida;

- Retire o queijo da geladeira cerca de 1 hora antes do seu consumo, isso vai garantir o sabor.



Foto: Ludmila Tavares - Creative Commons



Alguns tipos de queijo com a combinação ideal de cerveja:

- Queijo Minas: cervejas de trigo leves, estilo Kölsch, German Pilsen e Helles;

- Queijo provolone defumado: Rauchbier e Doppelweizen;

- Queijo tipo Caccio Cavallo: Witbier, Hefe-weizen e Lager artesanal;

- Ricota fresca: leves como Witbier, Weizen e Pilsens;


A excelência se espalha

03 de maio de 2013 0

“Em cidades estranhas, dar um jeito de ir várias vezes ao mesmo restaurante, de preferência um lugar barato, vazio, mediano e próximo ao hotel.” O conselho do escritor Michel Laub é um dos itens do admirável programa de vida que ele publicou em sua coluna na Folha de S. Paulo, às vésperas de completar 40 anos. Entre as pérolas da longa lista: “Aceitar que entre os defeitos dos amigos podem estar a burrice e a falta de caráter.” E a última decisão brota por certo da origem meridional do autor: “Seguir comendo carne vermelha.”

Ainda não tinha lido a coluna de Laub, semanas atrás, em Veneza, quando entrei no simpático Piccolo Martini, perto da Piazza San Marco. O lugar, confortável e acolhedor, desperta, pela localização, desconfiança imediata: humm... será uma arapuca para turistas de passagem? Talvez sob medida para aqueles que chegam de manhã na cidade e partem no fim da tarde com a certeza: “Conheci Veneza!” Lembrei que muitos anos atrás, nossa equipe da TV ancorou ali, depois de uma jornada estafante, num fim de noite. Cautelosamente, pedimos pizzas e cerveja, e fomos dormir cedo, sem maiores considerações – mas nenhuma queixa do serviço, da pizza crocante e farta, ou do preço.

Essa segunda chance, muitos anos depois, na semana passada, foi na primeira noite veneziana, pela cômoda proximidade do hotel e pelo cansaço da viagem. Cheguei ali cheio de preconceitos e desconfianças com os garçons chineses, indianos e coreanos que se desdobravam em gentilezas... Pedi um básico para voltar logo ao hotel: spaghetti com molho de tomate e o sórdido acompanhamento de um refrigerante. Enquanto esperava, observei as paredes revestidas de boa madeira, as mesas com toalhas impecáveis, e o prato servido nem tão rápido que parecesse requentado, e nem tão devagar que sugerisse desprezo ao cliente.

A vasta opção de pratos belíssimos deixa qualquer um com as papilas gustativas prontas para o sacrifício.

A seguir, a degustação de um spaghetti impecável, a massa de primeira classe, servida no ponto exato de cocção, com molho de tomate delicado, e por cima um parmigiano ralado que perfumou o prato e o meu apetite. Como se não bastasse, uma pequena carta de vinhos – pequena apenas na extensão, porque não faltava qualidade e originalidade: vinho em cálice, não apenas o vinho simples, mas também um respeitável valpolicella e um rosso de montalcino que me fez desistir do refri.

No dia seguinte, e no outro também, me incluí entre os fregueses da casa e percorri o cardápio e a carta de vinhos prazerosamente durante uma semana. Como imaginou o Laub, “um lugar barato, mediano e próximo ao hotel”. Mas não era “vazio”, como ele sugeriu, porque a excelência, lamentavelmente, se espalha.

Para fingir grandes jantares

26 de abril de 2013 0

Kurt Vonnegut, o grande escritor norte-americano, dizia que “somos o que fingimos ser”, mas fazia a advertência: “Por isso, temos que ter muito cuidado com o que fingimos ser.”  Esse sarcasmo amável só tem  concorrente sério na hipocrisia realista do filme “O homem que matou o facínora”: “Quando a lenda é melhor que a realidade, publique-se a lenda!”.

O carpaccio, segundo a lenda, surgiu às margens do Grand Canale, no Harry’s Bar de Veneza, no final dos anos 1930. Uma condessa pediu ao maître um prato de carne que não fosse cozida. O maître requisitou ao chef de cozinha fatias de carne crua finamente cortadas, como fiambre, arranjadas num prato. Por cima, o próprio maître espalhou algumas alcaparras, mostarda, pimenta do reino, sal e azeite de oliva. E serviu. Na primeira garfada, a condessa sorriu deliciada: “Que maravilha! Como é o nome deste prato?” O maître olhou pela janela e havia um cartaz anunciando a exposição do mais famoso pintor veneziano: Carpaccio. Fez uma mesura e informou: “O nome do prato, Sra. Condessa, é carpaccio.” E apressou-se a inclui-lo no cardápio.

Talvez não tenha sido bem assim, mas a versão, ou a lenda, merece ser publicada. Assim como a invenção dos saborosos Tournedos à Rossini, atribuída exatamente a Rossini (1792-1868), o célebre músico e compositor italiano, que fingia ser cozinheiro e que viveu grande parte do tempo em Paris, onde era amigo dos grandes chefs de cozinha da época. Adorava criar novos pratos, assistido por seu cozinheiro particular.

Certa vez decidiu inventar um filé servido sobre uma fatia de pão frito, coberto por fígados refogados. Queria surpreender seu cozinheiro e pediu “Et allors, tournez le dos.” (E agora, vire de costas). Assim nasceu o nome do prato: Tournedos Rossini.


"Tournedos à Rossini", delícia que, aqueles que experimentaram, não esquecem.


O Frango a Marengo teve origem mais heroica. Foi logo depois da batalha de Marengo, no norte da Itália, em 14 de junho de 1800: Napoleão Bonaparte, com 28 mil soldados, conseguiu derrotar 40 mil austríacos melhor armados. À noite, pediu ao seu cozinheiro, o chef Dunand, um grande jantar para comemorar a vitória. O chef Dunand ponderou que não tinha, tecnicamente, o necessário: final da campanha, despensa desfalcada. “Use o que tiver.” — ordenou Bonaparte, irredutível. Que fazer? Dunand começou fritando os pedaços de um frango com bacon numa caçarola muito quente.

Quando ficou dourado, juntou alho e tomates picados. Foi acrescentando conhaque (do cantil do general) aos poucos e, deixou cozinhar por uma meia hora até reduzir o molho. Pouco antes de ficar pronto, agregou cogumelos frescos. A decoração da travessa era insólita: ovos fritos e camarões gigantes. Mas o resultado foi um sucesso. Napoleão gostou tanto da receita que a transformou numa espécie de talismã em outras campanhas, chamando de “Prato de Batalha”. E o Frango a Marengo tornou-se uma lenda e um alento para quem gosta de fingir grandes jantares: a despensa mais desfalcada sempre esconde possibilidades insuspeitadas.

Porto Alegre-Veneza

19 de abril de 2013 0

Entre outras vantagens, o voo direto Porto Alegre-Lisboa trouxe mais esta gentileza aos gaúchos: permite conexão a Veneza sem barulho, nem Guarulhos. Também é possível um amável interlúdio lisboeta, de uma noite por conta da Tap, antes de desembarcar na cidade encantada.

Chegar a Veneza de trem ou de automóvel é como entrar num palácio pela escada de serviço, escreveu Thomas Mann com toda a razão. Numa espécie de contradição poética, a única forma de entrar na cidade como nos velhos tempos, sem ser “pela escada de serviço” dessa vívida imagem de Mann, é chegando de avião. Isso porque, a partir do aeroporto de Mestre, há ligação regular de vaporetti e motoscafos, que funcionam como ônibus e táxis por mar, permitindo aos visitantes recuperar as emoções de Byron, Proust, Hemingway, do próprio Mann, de Casanova, Maquiavel e tantos outros que se comoveram na chegada, com a imagem da cidade se materializando aos poucos, em meio à bruma, como se estivesse emergindo das águas...

A cidade dos caminhantes, explore Veneza da melhor maneira: a pé. Foto: creative commons / Rui Ornelas

Não havia outra forma de desembarcar na cidade, até 1846, quando foi construída a ponte ferroviária sobre a laguna. Essa ligação seria duplicada com o viaduto rodoviário que permitiu aos automóveis chegarem perto. Entretanto, como nas casas orientais em que os visitantes tiram os sapatos na porta, na chegada por terra a Veneza, antes de entrar, os motoristas tem que deixar seus carros do lado de fora, em imensos e caríssimos estacionamentos de Piazzale Roma. Nas estreitas ruas da cidade – às vezes estreitíssimas, não permitindo duas pessoas lado a lado – todos sabem que é inevitável andar a pé.

Nada mau para quem vai se atirar de cabeça na extraordinária gastronomia local à base de peixes e frutos do mar fresquíssimos, exibidos como verdadeiros troféus no mercado do Rialto: por certo fatalmente cruzará aquela linha amarela da gula. Mas a Serenissima, ao mesmo tempo que impõe quilos a mais, em dezenas de restaurantes de primeira ordem e de preços variados, oferece as caminhadas infinitas e emagrecedoras.

Além dos comilões muitas outras tribos vão se regalar. Os consumistas não encontrarão em nenhum outro lugar do mundo um comércio tão eclético e variado, com ofertas e preços tão diversificados. Quem gosta de arte vai precisar de tempo para ver as igrejas, palácios, exposições e galerias. Em geral, a melhor dica é a flanerie: gostar de andar a pé, flanar. Veneza foi fundada, segundo os arquivos históricos, exatamente ao meio dia de 25 de março do ano de 421 – lá se vão 1592 anos. Desde então, como se sabe, não mudou muito.

E nesses quase 16 séculos, cultiva a mesma vocação: é a cidade dos caminhantes.

Homens da cozinha

12 de abril de 2013 0

Sempre que me perguntam quem cozinha melhor – homens ou mulheres – respondo que, sinceramente, não sei. O que tenho absoluta certeza é que os homens, em geral, lavam a louça melhor do que as mulheres. Quando faço essa brincadeira, as mulheres em volta, é claro, saltam indignadas. Mas eu explico. Não se trata de uma vã glória, mas, ao contrário, de uma capitulação.

Com a falta de prática, enquanto as mulheres lavam, secam e arrumam a louça de um jantar em minutos, velozmente, os homens em geral lavam cada copo como se fosse o único, cada garfo como se fosse o único. Não por esmero, mas sim por falta de prática derivada da supremacia machista que fez com que, por séculos, as mulheres esquentassem a barriga no fogão e esfriassem no tanque de lavar roupas.

Para quebrar esse estigma, em Caxias do Sul, um grupo de caxienses, inspirados pelo empresário Nelson Lisot, promoveram em 2002 um jantar simpático em homenagem às suas esposas e namoradas com o título de Homens na Cozinha, que teve a renda destinada a entidades assistenciais. O sucesso foi tão extraordinário que a festa passou a se repetir todos os anos e, na semana passada, ocorreu a 11ª edição: ninguém discute que se trata do mais importante evento beneficente da Serra Gaúcha. O projeto já beneficiou 89 entidades assistenciais e repassou mais de R$ 900 mil.

Na semana passada, a festa mobilizou 160 cozinheiros em 40 cozinhas, com mais de 400 trabalhadores de apoio, preparando o jantar para um público de 1600 pessoas. Dirigentes da Marcopolo, Colombo, Randon, entre outras grandes empresas estavam lá preparando carnes, frutos do mar, massas, molhos, refogados inspirados na alta cozinha. O difícil era escolher o roteiro gastronômico entre tantas opções tentadoras.

Entre todas as cozinhas, permitam fazer a injustiça de escolher uma: brilhou a cozinha comandada por Paulo Bellini, Valter Gomes Pinto, Biasio e os valorosos alunos do Curso de Gastronomia de Flores da Cunha, com um pernil de porco que em suas diversas etapas demorou quase três dias para ser feito. Mas brilharam todos as outras 39 cozinhas,  também.

Anonymus Gourmet lamentou profundamente uma deficiência pessoal: tem apenas um estômago. Naquela noite inesquecível, para a festa ser completa, seria indispensável ter 40 estômagos.

Para uma noite como esta, é uma pena ter somente um estômago.

O bacalhau do Ferreira e o uísque japonês

05 de abril de 2013 0

Graças à mediação do António Monteiro, da Tap, sentei à mesa do Poleiro com o jornalista Ferreira Fernandes, que teve a sabedoria de escolher bacalhau à Braz. Sobre o bacalhau e outras excelências do Poleiro já me demorei aqui. Sobre o Ferreira Fernandes: redator chefe e principal colunista do ‘Diário de Notícias’ de Lisboa, escreve 30 linhas que diariamente abalam e/ou encantam Portugal. Influenciado pelo Almirante, é minha leitura matinal imperdível na internet, em Portugal e no Brasil.

Descendente de colonos brancos radicados em Luanda, tem um sonho: a unidade política da língua portuguesa, com a aliança da pujança brasileira e da liderança africana da sua Angola, influindo na União Europeia através de Portugal. Escreveu ‘Os primos da América’, resultado saboroso de uma viagem pelos Estados Unidos, em busca dos portugueses extraviados. Nossas três horas de conversa foram animadas pelo casamento perfeito de um Douro impecável com o bacalhau. Na saída, Ferreira Fernandes me levou a uma loja elegante, especializada em uísque, e pediu à gerente que me oferecesse algo diferente, entre centenas talvez milhares de garrafas que forravam as prateleiras. Com qual das inexcedíveis marcas escocesas eu seria brindado? – era a dúvida agradável. Foi quando a gentil senhora fez o meu mundo cair: “Minha sugestão é este uísque japonês.”

E exibiu a garrafa de Taketsuru puro malte, envelhecido 17 anos. Fiz o possível para disfarçar a perplexidade. Ferreira, com o gesto de cavalheiro florentino, ofereceu-me o estranho presente na despedida. Quando cheguei ao hotel, a estranheza acabou no primeiro gole. Uma delícia insuspeitada que me fez pensar: te cuida Escócia! Como previne o texto da bela embalagem, o uísque Taketsuru começa a impressionar pela cor: ouro velho com um toque de cobre. Definir o paladar é como definir a felicidade: rico e generoso - vá lá que seja. O aroma é marcante e a sensação final é, talvez, de plenitude.

Servi a segunda dose e fui ao Google: em 2007, uma garrafa de Taketsuru idêntica àquela que ali estava me espreitando e me deliciando, fora considerada o melhor blended malt do planeta, pela revista escocesa Whisky Magazine, que é a bíblia do setor. E fiquei sabendo com orgulho que, em 2010, o “meu” Taketsuru, conquistou outra vez o título mundial de melhor blended malt. Só então, com a revelação da internet chancelando o meu paladar arrebatado, aceitei a boa surpresa: os japoneses produzem uísques esplêndidos, capazes de empatar e até vencer os legítimos scotchs. E quem reconhece isso são os maiores especialistas do mundo: os degustadores escoceses.