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Posts na categoria "Colunas e dicas"

O legado do cozinheiro escritor

09 de maio de 2014 0

Vargas Llosa lamenta que seus antigos compatriotas, os incas, não tenham deixado história: quando morria o imperador, morriam com ele não só suas mulheres e concubinas, mas também seus intelectuais – os “amautas” ou homens sábios, aqueles que registravam as histórias e feitos do soberano. O novo inca assumia o poder “com uma corte reluzente de novos sábios”, encarregados de recontar a história oficial, como se tudo de bom fosse obra do novo soberano: os antecessores e a memória deles seriam tragados pelo esquecimento.

Penso nessa trágica lembrança que deixou os incas sem história, ao lembrar alguém que fez justamente o contrário: Antonin Carême. Já falei aqui do confeiteiro e cozinheiro francês que inventou o suflê, o merengue, o molho branco, a massa folhada e dezenas de outros milagres de forno e fogão. Carême foi o chef de cozinha favorito de Napoleão Bonaparte, do czar Alexandre da Rússia, dos reis ingleses, da família Rothschild e de toda elite europeia. Não por acaso ficou conhecido como o cozinheiro dos reis e o Rei dos cozinheiros: inventou até mesmo o chapéu de chef de cozinha, que usava como coroa legítima de rei.

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Carême foi o chef de cozinha favorito de Napoleão Bonaparte, do czar Alexandre da Rússia e dos reis ingleses.

Mas, na verdade, ele foi mais do que tudo isso, porque deixou um legado escrito. O maior mérito de Carême não foi o privilégio daqueles momentos fugidios de glórias e gloriolas diante dos figurões deslumbrados, enfastiados e extasiados com seus quitutes. Ao contrário dos incas, ele teve o talento e o empenho de escrever, contando com vivacidade e graça a História e as histórias: das receitas, dos comilões e dos incansáveis trabalhadores que davam vida, e muitas vezes a própria vida, aos fornos e fogões. Registrou em cadernos bem organizados não só o passo a passo de suas criações culinárias, mas também observações e curiosidades sobre os salões e as cozinhas do seu tempo. Com isso, tornou-se um escritor notável de suas receitas, e também de crônicas e registros tão valiosos quanto as delícias que levava às mesas mais importantes do início do século XIX.

O inglês Ian Kelly, autor da magnífica biografia de Carême (“Cozinheiro dos Reis”,  Zahar, 2005) mostra que ele relatou não só os lances diplomáticos que se desenrolavam nos salões, mas também os problemas e infortúnios que afligiam os criados, numa crítica às péssimas condições de trabalho: o próprio Carême acabou sendo envenenado pela fumaça do carvão com que trabalhava em seus fogões. Dos salões, entre os registros notáveis que deixou Carême, estão as conversas com Talleyrand, o mais poderoso político francês de todos os tempos. Quando perguntaram a Talleyrand, no Congresso de Viena, em 1814, o que seria necessário para assegurar os direitos dos franceses, Carême anotou a resposta do grande líder: “Mais panelas!”

O jantar de Dom Quixote

02 de maio de 2014 0

Nossos apetites continuam os mesmos. Mas os tempos mudam.

Nove anos atrás, Portugal e Brasil tinham em comum sonharem acordados que estavam no primeiro mundo. Cá tínhamos esquecido inflação, corrupção, estagnação e outros ãos; lá, os portugueses pensavam que estavam ricos, e também os brazucas que viajavam para lá para cumprir tarefas modestas em troca de euros. Recordar é viver. O jantar foi naqueles tempos delirantes, repasto esplêndido desde o primeiro prato: a canja anunciada não era uma prosaica sopa. Era uma canja “de pombo bravo”.

Logo percebi que não era esnobismo do cardápio: era o prenúncio de sabores e aromas selvagens. Fechei os olhos para captar toda a dimensão das notas e sensações do caldo extraordinário. As papilas gustativas em alerta estremeceram com o poderoso alarme do sabor. Era uma delícia que galinha alguma, por mais caipira que fosse, por mais bem temperada e bem cozida, jamais conseguiria igualar.

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O Almirante e o Monteiro, que me acompanhavam solidários, também pareciam emocionados. O Almirante teria deixado escapar uma lágrima? O certo é que degustamos a tal canja de pombo bravo, guarnecida por um severo tinto do Douro, comovidos e em silêncio: qualquer palavra poderia perturbar o deleite. Enquanto aguardávamos a próxima atração, convidei os companheiros de emoção para um brinde ao bom gosto de Cervantes. Afinal, a dieta de Dom Quixote incluía “filhote de pombo bravo como acréscimo aos domingos”. Cheguei a especular como ele preparava o tal pombo bravo: no forno, crocante, com cebolas e batatas? Ou quem sabe na caçarola, perfumado por um daqueles tintos soberbos de Rioja?

Concluí que só poderia ser uma canja como aquela! Agora eu sabia. Numa espécie de delírio, tive certeza que, ali, na minha frente, fumegava o prato sugerido por Cervantes em 1604. Quatro séculos depois, outra vez, eu tinha que me curvar diante do maior de todos os escritores. Até como gastrônomo, Cervantes reinventava a realidade melhor do que os outros: nada se iguala a uma canja de pombo bravo.  Ainda nos recuperávamos da comoção do pombo, e lá vinha o prato principal,  um exuberante arroz com lebre, irretocável por certo. A lebre saltou no nosso conceito, mas não voou nas alturas do pombo. A sobremesa esteve à altura. Veio à mesa uma surpreendente “barriga de freira”, da melhor tradição dos doces conventuais portugueses. Entretanto, nada mais poderia alterar a história daquele jantar. Tudo ficou menor diante da magnitude da canja de pombo bravo. Lisboa nunca mais seria a mesma. Depois daquela canja, Cervantes, que já era imenso, ficou eterno.

A graça de Gabriel García Márquez

25 de abril de 2014 0

A morte recente de Gabriel García Márquez faz lembrar que, além do brilho da escrita, uma das maiores qualidades do grande escritor era a modéstia e a graça com que contava suas histórias pessoais.

Numa saborosa crônica publicada no diário cubano Gramna, García Márquez contou que não passava de um autor desconhecido naquele dia chuvoso da primavera de 1957, em Paris, quando descia o Boulevard Saint Michel, e viu, do outro lado da rua entre os transeuntes, a figura célebre de uma de suas devoções, o Prêmio Nobel da Literatura de 1954, Ernest Hemingway, imenso e inconfundível, com seus quase dois metros de altura, caminhando em meio à multidão, despreocupadamente. García Márquez escreveu que naquele momento, emocionado pela visão inesperada, teve o ímpeto de atravessar correndo até a calçada oposta para confraternizar com seu ídolo. Prudentemente, no entanto, se conteve: “Eu não tinha muita confiança no espanhol dele. Nem no meu inglês.” Limitou-se a gritar: “Maestro!”. E recebeu em troca, da outra calçada, o aceno amistoso de um sorridente Hemingway: “Ele compreendeu que não poderia haver outro maestro (“professor” em espanhol) na multidão de estudantes do Boulevard Saint Michel”. Hemingway fez mais, além de acenar ao jovem desconhecido: no castelhano possível, berrou “Adiós amigo!”. Nunca mais os dois voltariam a se cruzar.

Gabo

García Márquez contava que seu avô (que o criou como pai) matou um homem. E que, embora em legítima defesa, essa morte lhe pesava.

A modéstia elegante do grande escritor, outra vez, levou-o a divulgar a resposta do prefeito de Bogotá à sua reclamação sobre o racionamento de luz, que atrasava a finalização de um romance: “Balzac, que escrevia melhor do que o senhor, trabalhava à luz de velas.”

García Márquez contava que seu avô (que o criou como pai) matou um homem. E que, embora em legítima defesa, essa morte lhe pesava. O avô lhe dizia: “Gabriel você não imagina como pesa um morto!” Anos depois, o avô morto há anos, Gabriel já adulto, no interior profundo da Colômbia, tomava uma cerveja num bar, quando entrou um tipo mal encarado com dois revólveres na cintura e uma espingarda na mão. O sujeito apontou o dedo e perguntou: “Você é o Gabriel, neto do velho Márquez?” O grande escritor, um pouco hesitante, fez que sim com a cabeça. E o forasteiro, ameaçador: “O seu avô matou o meu avô!” García Márquez pensou: “Pronto. Chegou a minha hora.” Mas o estranho, para surpresa e alívio do grande escritor, lhe estendeu a mão e disse: “De certa forma somos parentes!…”

Delícias quase pecaminosas

18 de abril de 2014 0

Lisboa – O restaurante Gattopardo, do hotel Dom Pedro, consegue vencer o mais rigoroso de todos os testes: o tempo. Cinco anos depois de uma visita anterior, foi muito agradável reencontrar a excelência que me animou ao retorno. O cardápio, de sotaque italiano, desafiava as sólidas tradições portuguesas da simpática região das Amoreiras. Mas Lisboa, há muito, deixou de ser somente o reduto inexpugnável das fartas bacalhoadas, dos cozidos caudalosos e de outros clássicos de mil anos. Continua a reverenciar os ícones, mas se abriu à diversidade de boas cozinhas forasteiras.

A inspiração do Gattopardo lisboeta, é claro, se liga ao romance cada vez mais inesquecível de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Mais de uma vez, nas páginas de Il Gattopardo, soam as sinetas chamando para o jantar, e o livro genial nos sugere mesas postas com esmero, magníficas travessas fumegantes carregadas por empregados uniformizados, gelatinas em forma de torre, garrafas honoráveis  comensais discretos disfarçando sua gula voraz com expressões inapetentes, respeitosamente esperando em pé, atrás das cadeiras, pelo Príncipe. O restaurante português que reverencia esse clássico da literatura, eternizado no cinema por Lucchino Visconti, recebeu uma escrupulosa modernização, e a cozinha preservou a excelência de muitos anos. Visconti não se envergonharia de fazer reviver ali o jogo sutil de cativante sedução de Angélica (Claudia Cardinalle, no esplendor dos 25 anos) com Tancredi (Alain Delon, também aos 25) e com o Príncipe di Salina (um inexcedível Burt Lancaster na maturidade).

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Situado no terceiro piso do Hotel Dom Pedro Palace, “Il Gattopardo” é um restaurante italiano de referência em Lisboa. A cozinha é da autoria do Chef siciliano Michele Bono e a carta de vinhos contempla referências italianas e portuguesas. Foto: divulgação/Il Gattopardo

Os salões elegantes e confortáveis do Gattopardo português lembram essa magia. As emanações do sortilégio são acolhidas no terraço amplo, cenário irresistível na noite estrelada que escolhi para a visita. Naquele jantar, para amenizar o suculento exagero do meu almoço (leitão da Bairrada) o chef propôs uma entrada ligeira de tomatinhos e verdes ricamente temperados.

A seguir, embora a gênese do lugar sugira a raiz siciliana, veio à mesa uma especialidade do Norte italiano, o risotto de aspargos, entretanto com saborosa concessão ao Sul no tempero de limão siciliano. Os portugueses, que desbravaram oceanos alheios, também se revelam dignos intérpretes de especialidades que vêm de longe. Foi o que aconteceu sob aquele céu estrelado: um jantar arrebatador. Como inevitável complemento, a noite quente e a falta de testemunhas convidava para uma infidelidade: aproveitei que não havia ninguém a observar e, em vez de um vinho branco refrescado da Filipa Pato, que seria obrigatório, me permiti uma cerveja Sagres, dupla,  estupidamente gelada. O risoto não reclamou da companhia da cerveja. E para completar essa noite liberada às heresias amáveis, olhei em volta e, anonimamente, pedi sorvete de limão com vodca, uma delícia quase pecaminosa.

A perfeição não tem limites

11 de abril de 2014 0

Lisboa – O maior problema do Magano é o seu sucesso. Isso porque dificilmente haverá uma mesa vazia à espera daquele viajante distraído, que gosta de chegar de repente, sem aviso. É preciso reservar com certa antecedência. Aliás, essa é uma precaução que deveria ser erigida em lei do Estado. Não só em Lisboa, Paris, Londres e muitos outros lugares civilizados, onde é impensável sair para jantar, ou mesmo almoçar, sem previamente reservar um lugar. Ora, quando vamos visitar um amigo, por mais próximo que seja, telefona-se antes, na verdade para saber se há lugar para nós, pois o amigo poderá estar de saída, poderá estar em família etc…

Superada essa primeira etapa, a reserva, o Magano lhe receberá de braços abertos. Na segunda visita já será incluído entre os clientes da casa, com direito a ser tratado pelo nome. A sensação do frequentador que reservou um lugar é de que amigos estavam à sua espera. E quem vai pela primeira vez, não resiste a uma segunda, terceira e enésima vez. É sempre a mesma coisa, e ao mesmo tempo é sempre diferente. A cordialidade e a objetividade nas informações sobre o cardápio e as possibilidades da cozinha são notáveis: mais de uma vez, aceitaram com a maior gentileza modificações em pratos do cardápio, a meu pedido. Outros frequentadores também tiveram a mesma acolhida às suas sugestões. Claro que quase sempre tive um handicap nas dezenas de vezes em que lá estive, sozinho ou com a Linda: a companhia do Almirante Vasco Marques e da Rosarinho. Na segunda-feira desta semana, - uma segunda-feira qualquer de início de primavera, hora do almoço, o Magano estava lotado enquanto outros concorrentes culpam “a crise” por suas muitas mesas vazias.

Anonymus Portual

Anonymus Gourmet está em belas terras portuguesas em busca de novas receitas

Começamos com empadinhas crocantes recheadas com frango bem temperado, peixinhos da horta e fatias de presunto de porco preto, uma das glórias portuguesas. Não faltam alentejanos a jurar que o melhor presunto espanhol é aquele feito na fronteira com Portugal… com a carne de porcos pretos portugueses! Na hora da verdade, houve uma divisão na mesa: Rosarinho escolheu o delicioso arroz com pombo bravo, uma especialidade que não resisti a experimentar com gosto. Mas no prato de resistência aceitei o comando do Almirante: o robalo magnificamente grelhado com uma apropriada guarnição de batatas, cenoura e espinafre. A sinfonia gastronômica foi animada por sabores e aromas do Douro: um brilhante branco Carm, vinho de castas Rabigato, escrupulosamente cultivadas pela família Roboredo Madeira. E, como a perfeição não tem limites, na sobremesa vieram “encharcadas” – a única obra do engenho humano que, feita com gemas e açúcar, supera o doce de ovos moles. Para acompanhar esse fenômeno, foi inevitável uma obra prima: Royal Oporto Tawny, envelhecido 20 anos.

Depois de um vingativo café frio

04 de abril de 2014 0

Nada mais frágil do que a reputação das nações: basta um guarda alfandegário com mau humor ou um carregador de malas desajeitado para que o viajante faça um conceito definitivo sobre o país em que recém chegou. Sou fascinado e não canso de repetir a graça dessa constatação, escrita em fins do Século XIX, numa carta de Carlos Fradique Mendes, o mais encantador dos personagens de Eça de Queiroz.

A arguta lição de Fradique foi lembrada por Anonymus Gourmet naquela noite, durante o jantar, num discreto restaurante londrino, quando Madame Xavier estreava sua certidão de divórcio. Anonymus recordou a frase de Fradique para explicar as “injúrias seculares” que são lançadas contra o Império Britânico em matéria de gastronomia.

Segundo Anonymus Gourmet, a má reputação da cozinha britânica é obra de “recém-chegados com pressa”.

Posso imaginar a cena, – dizia Anonymus naquela noite.  Um desses viajantes que gosta de fazer diários de viagem, com observações superficiais e irresponsáveis, redigidas sempre em tom definitivo, passa por aqui, come mal ou é mal atendido numa taberna qualquer, chegando depois das horas, quando o taberneiro e a cozinheira já se preparavam para fechar as portas, apagar as luzes e soltar os demônios num rápido namoro, antes de voltarem para a monotonia de suas respectivas casas.

Indiferente à notória aflição do taberneiro e à urgência da cozinheira, o viajante pede um filé com requintes fora do cardápio. Faltam quatro minutos para o encerramento da cozinha estampado na porta. Com aquela dignidade com que os súditos de Sua Majestade historicamente honram os horários, taberneiro e cozinheira respiram fundo, calam as respectivas vozes interiores que gritam pelo imediato fechamento da taberna e pela urgente prevaricação, sufocam as respectivas fogueiras interiores que os devoram.

O visitante quer uma entrada (“fora do cardápio, mas fácil de preparar”), um acompanhamento especial para o filé (“pommes au gratin, em forno suave durante 30 minutos”) e, é claro, um risoto de funghi feito na hora. Na sobremesa, exige as bananas flambadas na mesa ao molho cítrico. Comme boisson, nem pensar no vinho da casa, já aberto: escolhe uma garrafa fora da carta, que descansa nas profundezas da adega e requer um mínimo de 40 minutos depois de aberta, para respirar.

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Pommes au gratin, em forno suave durante 30 minutos (Foto: divulgação creative commons/basilic89)

Claro que tudo dá errado. Os grandes triunfos gastronômicos têm a ver com gestos de gentileza e fraternidade. A arrogância e a indiferença de um freguês fora de hora endurece o coração da cozinheira e desperta os piores instintos de quem atende a mesa. Aquele freguês inconveniente não percebe que foi ele o causador do naufrágio. Altaneiro, escreve em seu caderno, depois do vingativo café frio que encerrou o jantar: “Come-se mal na Inglaterra.”

Quitutes espanhóis e a têmpera dos bravos

28 de março de 2014 0

Na semana passada, no programa da RBS TV, tive uma mostra dos desígnios do Cavalo Celeste – para usar um assombro do meu amigo Parker Silva. Foi um programa sobre as (ou “os”) irresistíveis tapas, que encantam mesas espanholas depois das aflições do dia, em crepúsculos de cerveja e vinho, confirmando o gênio português sobre tudo que vale a pena quando a alma não é pequena.

Pintxo de sardinha com purê de maçã, tapas de cogumelos, tapas de pão com tomate… A apresentação do cardápio de quitutes espanhóis parecia escolha aleatória. Entretanto, na verdade, a acreditar nos desígnios celestes, tratava-se de uma homenagem adivinhada a um dos homens fundamentais do Século XX: Adolfo Suárez, ex-primeiro ministro da Espanha, político chave na transição à democracia após a era Franco, que morreu no domingo passado, o dia seguinte ao programa.

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Pintxo de sardinha com purê de maçã, tapas de cogumelos, tapas de pão com tomate… A apresentação do cardápio de quitutes espanhóis parecia escolha aleatória. Foto: William Mayer)

A têmpera desse homem invulgar ficou conhecida, ao lado de dois outros bravos espanhóis, exatamente às 18h22min do dia 23 de fevereiro de 1981, em Madrid, quando o Parlamento foi invadido por um bando e o chefe deste, um tenente-coronel bigodudo, subiu à tribuna e gritou: “Quieto todo el mundo!” Um militar na tribuna com uma pistola na mão – cujo disparo para o teto convenceu os hesitantes – dominava a casa dos representantes do povo. Assistiu-se à humilhação que o escritor angolano Ferreira Fernandes sintetizou de forma exemplar: “Todos os deputados (quer dizer, toda a nação) encafuaram-se que nem coelhos sob as cadeiras e o tampo das mesas.”

Na verdade, todos, menos três. É um daqueles momentos únicos em que brilha a têmpera dos bravos, como dizia o personagem de um antigo filme de John Ford. Os três homens que não obedeceram ao bando armado: um homem de direita, o velho general, então ministro da Defesa, Gutiérrez Mellado; um homem de esquerda, o deputado comunista Santiago Carrillo; e o primeiro ministro e deputado Adolfo Suárez. O general Gutiérrez Mellado levantou-se para interpelar o bando e foi agredido. Suárez e Carrillo mantiveram-se sentados, soberbos.

O general Gutiérrez morreu em 1995; Santiago Carrillo morreu no ano passado aos 97 anos de idade; Suárez morreu no domingo passado, depois de anos com Alzheimer. Carrillo e Suarez eram adversários, mas feitos na mesma forja. No ano passado, pouco antes de morrer, Carrillo disse à revista Esquire sobre seu antigo adversário: “Adolfo Suárez foi um homem que conquistou meu respeito. Comandou pessoalmente a redemocratização da Espanha, e foi capaz de cumprir seus compromissos. Fora ele, não creio que haja personalidades que mereçam admiração.”

Os melhores camarões apimentados

21 de março de 2014 0

Foi emocionante, para alguém que lê Hemingway desde a infância, voltar – daquela vez não pelas páginas de um livro mas sim pessoalmente – a um dos lugares favoritos do escritor. O Terraza é muito mais despojado na realidade do que me pareceu nos romances – o que não desmerece o bar, mas elogia o velho narrador. Na parede, um quadro a óleo com um retrato de boa qualidade de Ernest Hemingway bebendo no balcão. Por toda a parte, nas três salas em que se divide aquele boteco amplo, velhos pescadores e a gente simples do Cojímar, bebendo e comendo camarões apimentados. Segundo Fidel Castro, os camarões apimentados servidos ali eram os melhores de Cuba.

Quando entrei, buscava – além de cerveja, rum e camarões apimentados – também um pouco da atmosfera de um dos lugares essenciais da vida e da obra do Prêmio Nobel da Literatura de 1954.

O encontro com Gregório Fuentes foi casual, eu nem sabia que ele ainda vivia, muito menos que andaria por Cojímar, contando sua história a forasteiros curiosos. Logo que cheguei ao Terraza, quando ainda examinava o quadro a óleo, as paredes gastas, e apenas acabara de dar o primeiro gole na Hatuey, o “capitan” do bar, percebendo que eu procurava por vestígios do velho escritor, me chamou, apontando para um canto:

“Companero, mire, ali está el piloto del Pilar!”

Uma casualidade que, é claro, eu só poderia receber como caprichosa homenagem à minha devoção de leitor. Naquela visita nostálgica ao ambiente descrito nos romances de Hemingway, naquele aniversário de 30 anos da morte do meu ídolo, me aguardava muito mais do que o cenário das histórias: lá estava, inesperadamente a postos, um dos personagens! Ainda guardo uma foto daquele encontro comovente.

Na verdade, não chegava a ser exatamente uma coincidência espantosa: eu descobriria em seguida que, como acontecia com o “Santiago” e com o “Antônio” nos livros, o Gregório Fuentes da vida real também era frequentador do Terraza de Cojímar.

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Mais do que o autor que o transformou em personagem, mais do que um patrão, mais do que o comandante do Pilar, Ernest Hemingway foi, para Gregório Fuentes, o melhor amigo. Para ele, deixou em testamento o “Pilar”: o legado do barco fala por si. Certa vez, os dois navegavam num dia luminoso entre os cayos da costa cubana, quando Hemingway, depois de umas doses de rum, definiu no seu espanhol vacilante, mas suficiente, aquela sólida amizade:

“Gregório, sabes por que yo soy tu amigo? Por que yo soy tu, e tu es yo. Somos la misma persona.”

Com a lembrança dessa declaração fraterna, os velhos olhos azuis do marinheiro, endurecidos pelo mar, o sol e o vento, ficaram de repente cheios d’água. A dor pela perda do grande amigo parecia a mesma, ainda que décadas tivessem passado.

A boca teria sabor de morangos

14 de março de 2014 0

A gastronomia, já se disse tantas vezes, é uma arte feita para ser destruída. A receita levada à mesa com o desenho digno de uma tela colorida, capaz de honrar a parede de um grande museu, deve ser desfigurada com garfo e faca. Por isso, desde muitos anos, antecipando o atual surto de celulares e câmaras fotográficas, os japoneses quando jantavam nos restaurantes famosos de Paris, tinham a prudência de fotografar o prato antes de destrinchá-lo. Providência admirável para perpetuar, não só a imagem que impressionou os olhos, mas também os sabores que marcaram a memória gustativa. O imenso livro de Proust foi construído sobre a pequena memória gastronômica de uma madeleine. Com o livro, Proust perpetuou — com mais engenho que os japoneses, por certo — a lembrança fugidia da infância.

Assim como a arte da gastronomia se faz para ser destruída, a memória é feita para o esquecimento. O cérebro se encarrega de faxinar constantemente nosso depósito de recordações. Anonymus Gourmet preserva dessa faxina e não cansa de ler e recordar Giuseppe Tomasi di Lampedusa, o maior escritor italiano do século 20, que — como Proust — recusava essa fatalidade do esquecimento. Escrevendo, Lampedusa  construiu os muros da praça fortificada de suas recordações : “Ter um diário ou escrever a uma certa idade as próprias memórias deveria ser um de­ver ‘imposto pelo Estado’: o material que se teria acu­mulado depois de três ou quatro gerações teria um valor inestimável: muitos problemas psicológicos e históricos que assolam a humanidade seriam resolvidos.

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Não exis­tem memórias, mesmo quando escritas por personagens insignificantes, que não encerrem valores sociais e pitores­cos de primeira ordem.” Lampedusa, durante “o declínio da vida”, dedicou-se a anotar “o mais possível das sensações que atravessaram a existência”. Conseguiu capturar momentos “que sem esse leve esforço seriam perdidos para sempre”. Certas páginas incomparáveis do seu Gattopardo, de tão vívidas, parecem emergir de um diário. Por exemplo: a noite em que Angélica surge no romance, quando “a sensualidade se mistura com os sabores do jantar”. Visconti recriou essa cena no cinema com mágica delicadeza. Angélica (Claudia Cardinalle no esplendor dos 20 anos) vive um jogo sutil de cativante sedução com o Príncipe (o alter ego de Lampedusa, vivido na tela por Burt Lancaster) e Tancredi (Alain Delon) num jantar que é a primeira refeição da família na casa de veraneio: “A porta se abriu e entrou Angélica. A primeira impressão foi de deslumbrada surpresa. Os Salina perderam a respiração; Tancredi chegou a sentir como se lhe pulsassem as veias das têmporas.  Ela era alta e bem feita, sua carne devia possuir o sabor da nata fresca, a boca teria o sabor de morangos…”

Comer, beber e viver devagar

07 de março de 2014 1

Apesar de a internet ter substituído as caravelas, não foi inventado ainda o prodígio que fará Anonymus Gourmet, no final de uma manhã gelada, deixar sua trincheira, atravessar a rua e se ver na Praça Camões para um aperitivo preliminar a um copioso almoço lisboeta com o Almirante Vasco Marques, que tem comandado nossas expedições por Portugal, brilhando em terra firme com o mesmo destemor que enfrentou mares bravios. Entre tantas homenagens possíveis a esse homem brilhante e generoso, vale uma gratidão: foi ele que, anos atrás, apresentou Anonymus Gourmet ao Slow Food (comer devagar), hoje um grande movimento que cresce na Europa.

O Slow Food, nas palavras do Insigne Marinheiro, “quer que as pessoas comam, bebam e vivam devagar, saboreando os alimentos, curtindo seu preparo, no convívio com a família, com amigos, sem pressa e com qualidade. Ou seja, se contrapõe ao estilo de vida Fast Food que, mais do que comer rápido, é a infelicidade de viver rápido, passar pela vida com pressa”. Ele próprio adota pessoalmente esse comportamento: começa seu dia com um calmo e lauto “pequeno almoço”, o café da manhã dos portugueses, e não abre mão de um almoço demorado, acompanhado por uma garrafa de vinho tinto de boa safra, seguido por uma sesta reparadora.

O Slow Food contrapõe ao estilo de vida Fast Food que, mais do que comer rápido, é a infelicidade de viver rápido, passar pela vida com pressa. Foto: Adam Appel / arquivo pessoal

− A surpresa, − entusiasma-se o Almirante, − é que o Slow Food está servindo de base para um movimento mais amplo chamado Slow Europa, uma nova atitude que questiona a pressa e a loucura gerada pela globalização, refutando o apelo à “quantidade do ter” em contraposição à qualidade de vida ou à “qualidade do ser”.

Anonymus Gourmet ouvia esse discurso vibrante na Luminosa, em Lisboa, animado por uma travessa de tenros croquetes que chegavam à mesa escoltados por uma imponente garrafa de Evel Grande Escolha. O Almirante sorriu para o Evel, e continuou com a veemência de um profeta:

− Essa chamada “slow atitude”, atitude sem pressa, significa viver bem a vida e trabalhar com mais qualidade e produtividade, com atenção aos detalhes, preocupando-se com a excelência. É uma forma de viver bem cada momento.

Libertando o poeta que carrega, o Almirante ilustrou seu ponto com a cena inesquecível do filme “Perfume de Mulher”. O coronel cego, velho morcego que tudo percebe, vivido por Al Pacino, convida a jovem mulher para dançar.  Ela, embora fascinada, vacila:

− Não posso, meu noivo vai chegar em minutos.

− Mas, em um minuto se vive uma vida − responde o coronel, enlevando-a a seguir num tango arrebatador.