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Posts na categoria "Colunas e dicas"

Depois de um vingativo café frio

04 de abril de 2014 0

Nada mais frágil do que a reputação das nações: basta um guarda alfandegário com mau humor ou um carregador de malas desajeitado para que o viajante faça um conceito definitivo sobre o país em que recém chegou. Sou fascinado e não canso de repetir a graça dessa constatação, escrita em fins do Século XIX, numa carta de Carlos Fradique Mendes, o mais encantador dos personagens de Eça de Queiroz.

A arguta lição de Fradique foi lembrada por Anonymus Gourmet naquela noite, durante o jantar, num discreto restaurante londrino, quando Madame Xavier estreava sua certidão de divórcio. Anonymus recordou a frase de Fradique para explicar as “injúrias seculares” que são lançadas contra o Império Britânico em matéria de gastronomia.

Segundo Anonymus Gourmet, a má reputação da cozinha britânica é obra de “recém-chegados com pressa”.

Posso imaginar a cena, – dizia Anonymus naquela noite.  Um desses viajantes que gosta de fazer diários de viagem, com observações superficiais e irresponsáveis, redigidas sempre em tom definitivo, passa por aqui, come mal ou é mal atendido numa taberna qualquer, chegando depois das horas, quando o taberneiro e a cozinheira já se preparavam para fechar as portas, apagar as luzes e soltar os demônios num rápido namoro, antes de voltarem para a monotonia de suas respectivas casas.

Indiferente à notória aflição do taberneiro e à urgência da cozinheira, o viajante pede um filé com requintes fora do cardápio. Faltam quatro minutos para o encerramento da cozinha estampado na porta. Com aquela dignidade com que os súditos de Sua Majestade historicamente honram os horários, taberneiro e cozinheira respiram fundo, calam as respectivas vozes interiores que gritam pelo imediato fechamento da taberna e pela urgente prevaricação, sufocam as respectivas fogueiras interiores que os devoram.

O visitante quer uma entrada (“fora do cardápio, mas fácil de preparar”), um acompanhamento especial para o filé (“pommes au gratin, em forno suave durante 30 minutos”) e, é claro, um risoto de funghi feito na hora. Na sobremesa, exige as bananas flambadas na mesa ao molho cítrico. Comme boisson, nem pensar no vinho da casa, já aberto: escolhe uma garrafa fora da carta, que descansa nas profundezas da adega e requer um mínimo de 40 minutos depois de aberta, para respirar.

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Pommes au gratin, em forno suave durante 30 minutos (Foto: divulgação creative commons/basilic89)

Claro que tudo dá errado. Os grandes triunfos gastronômicos têm a ver com gestos de gentileza e fraternidade. A arrogância e a indiferença de um freguês fora de hora endurece o coração da cozinheira e desperta os piores instintos de quem atende a mesa. Aquele freguês inconveniente não percebe que foi ele o causador do naufrágio. Altaneiro, escreve em seu caderno, depois do vingativo café frio que encerrou o jantar: “Come-se mal na Inglaterra.”

Quitutes espanhóis e a têmpera dos bravos

28 de março de 2014 0

Na semana passada, no programa da RBS TV, tive uma mostra dos desígnios do Cavalo Celeste – para usar um assombro do meu amigo Parker Silva. Foi um programa sobre as (ou “os”) irresistíveis tapas, que encantam mesas espanholas depois das aflições do dia, em crepúsculos de cerveja e vinho, confirmando o gênio português sobre tudo que vale a pena quando a alma não é pequena.

Pintxo de sardinha com purê de maçã, tapas de cogumelos, tapas de pão com tomate… A apresentação do cardápio de quitutes espanhóis parecia escolha aleatória. Entretanto, na verdade, a acreditar nos desígnios celestes, tratava-se de uma homenagem adivinhada a um dos homens fundamentais do Século XX: Adolfo Suárez, ex-primeiro ministro da Espanha, político chave na transição à democracia após a era Franco, que morreu no domingo passado, o dia seguinte ao programa.

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Pintxo de sardinha com purê de maçã, tapas de cogumelos, tapas de pão com tomate… A apresentação do cardápio de quitutes espanhóis parecia escolha aleatória. Foto: William Mayer)

A têmpera desse homem invulgar ficou conhecida, ao lado de dois outros bravos espanhóis, exatamente às 18h22min do dia 23 de fevereiro de 1981, em Madrid, quando o Parlamento foi invadido por um bando e o chefe deste, um tenente-coronel bigodudo, subiu à tribuna e gritou: “Quieto todo el mundo!” Um militar na tribuna com uma pistola na mão – cujo disparo para o teto convenceu os hesitantes – dominava a casa dos representantes do povo. Assistiu-se à humilhação que o escritor angolano Ferreira Fernandes sintetizou de forma exemplar: “Todos os deputados (quer dizer, toda a nação) encafuaram-se que nem coelhos sob as cadeiras e o tampo das mesas.”

Na verdade, todos, menos três. É um daqueles momentos únicos em que brilha a têmpera dos bravos, como dizia o personagem de um antigo filme de John Ford. Os três homens que não obedeceram ao bando armado: um homem de direita, o velho general, então ministro da Defesa, Gutiérrez Mellado; um homem de esquerda, o deputado comunista Santiago Carrillo; e o primeiro ministro e deputado Adolfo Suárez. O general Gutiérrez Mellado levantou-se para interpelar o bando e foi agredido. Suárez e Carrillo mantiveram-se sentados, soberbos.

O general Gutiérrez morreu em 1995; Santiago Carrillo morreu no ano passado aos 97 anos de idade; Suárez morreu no domingo passado, depois de anos com Alzheimer. Carrillo e Suarez eram adversários, mas feitos na mesma forja. No ano passado, pouco antes de morrer, Carrillo disse à revista Esquire sobre seu antigo adversário: “Adolfo Suárez foi um homem que conquistou meu respeito. Comandou pessoalmente a redemocratização da Espanha, e foi capaz de cumprir seus compromissos. Fora ele, não creio que haja personalidades que mereçam admiração.”

Os melhores camarões apimentados

21 de março de 2014 0

Foi emocionante, para alguém que lê Hemingway desde a infância, voltar – daquela vez não pelas páginas de um livro mas sim pessoalmente – a um dos lugares favoritos do escritor. O Terraza é muito mais despojado na realidade do que me pareceu nos romances – o que não desmerece o bar, mas elogia o velho narrador. Na parede, um quadro a óleo com um retrato de boa qualidade de Ernest Hemingway bebendo no balcão. Por toda a parte, nas três salas em que se divide aquele boteco amplo, velhos pescadores e a gente simples do Cojímar, bebendo e comendo camarões apimentados. Segundo Fidel Castro, os camarões apimentados servidos ali eram os melhores de Cuba.

Quando entrei, buscava – além de cerveja, rum e camarões apimentados – também um pouco da atmosfera de um dos lugares essenciais da vida e da obra do Prêmio Nobel da Literatura de 1954.

O encontro com Gregório Fuentes foi casual, eu nem sabia que ele ainda vivia, muito menos que andaria por Cojímar, contando sua história a forasteiros curiosos. Logo que cheguei ao Terraza, quando ainda examinava o quadro a óleo, as paredes gastas, e apenas acabara de dar o primeiro gole na Hatuey, o “capitan” do bar, percebendo que eu procurava por vestígios do velho escritor, me chamou, apontando para um canto:

“Companero, mire, ali está el piloto del Pilar!”

Uma casualidade que, é claro, eu só poderia receber como caprichosa homenagem à minha devoção de leitor. Naquela visita nostálgica ao ambiente descrito nos romances de Hemingway, naquele aniversário de 30 anos da morte do meu ídolo, me aguardava muito mais do que o cenário das histórias: lá estava, inesperadamente a postos, um dos personagens! Ainda guardo uma foto daquele encontro comovente.

Na verdade, não chegava a ser exatamente uma coincidência espantosa: eu descobriria em seguida que, como acontecia com o “Santiago” e com o “Antônio” nos livros, o Gregório Fuentes da vida real também era frequentador do Terraza de Cojímar.

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Mais do que o autor que o transformou em personagem, mais do que um patrão, mais do que o comandante do Pilar, Ernest Hemingway foi, para Gregório Fuentes, o melhor amigo. Para ele, deixou em testamento o “Pilar”: o legado do barco fala por si. Certa vez, os dois navegavam num dia luminoso entre os cayos da costa cubana, quando Hemingway, depois de umas doses de rum, definiu no seu espanhol vacilante, mas suficiente, aquela sólida amizade:

“Gregório, sabes por que yo soy tu amigo? Por que yo soy tu, e tu es yo. Somos la misma persona.”

Com a lembrança dessa declaração fraterna, os velhos olhos azuis do marinheiro, endurecidos pelo mar, o sol e o vento, ficaram de repente cheios d’água. A dor pela perda do grande amigo parecia a mesma, ainda que décadas tivessem passado.

A boca teria sabor de morangos

14 de março de 2014 0

A gastronomia, já se disse tantas vezes, é uma arte feita para ser destruída. A receita levada à mesa com o desenho digno de uma tela colorida, capaz de honrar a parede de um grande museu, deve ser desfigurada com garfo e faca. Por isso, desde muitos anos, antecipando o atual surto de celulares e câmaras fotográficas, os japoneses quando jantavam nos restaurantes famosos de Paris, tinham a prudência de fotografar o prato antes de destrinchá-lo. Providência admirável para perpetuar, não só a imagem que impressionou os olhos, mas também os sabores que marcaram a memória gustativa. O imenso livro de Proust foi construído sobre a pequena memória gastronômica de uma madeleine. Com o livro, Proust perpetuou — com mais engenho que os japoneses, por certo — a lembrança fugidia da infância.

Assim como a arte da gastronomia se faz para ser destruída, a memória é feita para o esquecimento. O cérebro se encarrega de faxinar constantemente nosso depósito de recordações. Anonymus Gourmet preserva dessa faxina e não cansa de ler e recordar Giuseppe Tomasi di Lampedusa, o maior escritor italiano do século 20, que — como Proust — recusava essa fatalidade do esquecimento. Escrevendo, Lampedusa  construiu os muros da praça fortificada de suas recordações : “Ter um diário ou escrever a uma certa idade as próprias memórias deveria ser um de­ver ‘imposto pelo Estado’: o material que se teria acu­mulado depois de três ou quatro gerações teria um valor inestimável: muitos problemas psicológicos e históricos que assolam a humanidade seriam resolvidos.

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Não exis­tem memórias, mesmo quando escritas por personagens insignificantes, que não encerrem valores sociais e pitores­cos de primeira ordem.” Lampedusa, durante “o declínio da vida”, dedicou-se a anotar “o mais possível das sensações que atravessaram a existência”. Conseguiu capturar momentos “que sem esse leve esforço seriam perdidos para sempre”. Certas páginas incomparáveis do seu Gattopardo, de tão vívidas, parecem emergir de um diário. Por exemplo: a noite em que Angélica surge no romance, quando “a sensualidade se mistura com os sabores do jantar”. Visconti recriou essa cena no cinema com mágica delicadeza. Angélica (Claudia Cardinalle no esplendor dos 20 anos) vive um jogo sutil de cativante sedução com o Príncipe (o alter ego de Lampedusa, vivido na tela por Burt Lancaster) e Tancredi (Alain Delon) num jantar que é a primeira refeição da família na casa de veraneio: “A porta se abriu e entrou Angélica. A primeira impressão foi de deslumbrada surpresa. Os Salina perderam a respiração; Tancredi chegou a sentir como se lhe pulsassem as veias das têmporas.  Ela era alta e bem feita, sua carne devia possuir o sabor da nata fresca, a boca teria o sabor de morangos…”

Comer, beber e viver devagar

07 de março de 2014 1

Apesar de a internet ter substituído as caravelas, não foi inventado ainda o prodígio que fará Anonymus Gourmet, no final de uma manhã gelada, deixar sua trincheira, atravessar a rua e se ver na Praça Camões para um aperitivo preliminar a um copioso almoço lisboeta com o Almirante Vasco Marques, que tem comandado nossas expedições por Portugal, brilhando em terra firme com o mesmo destemor que enfrentou mares bravios. Entre tantas homenagens possíveis a esse homem brilhante e generoso, vale uma gratidão: foi ele que, anos atrás, apresentou Anonymus Gourmet ao Slow Food (comer devagar), hoje um grande movimento que cresce na Europa.

O Slow Food, nas palavras do Insigne Marinheiro, “quer que as pessoas comam, bebam e vivam devagar, saboreando os alimentos, curtindo seu preparo, no convívio com a família, com amigos, sem pressa e com qualidade. Ou seja, se contrapõe ao estilo de vida Fast Food que, mais do que comer rápido, é a infelicidade de viver rápido, passar pela vida com pressa”. Ele próprio adota pessoalmente esse comportamento: começa seu dia com um calmo e lauto “pequeno almoço”, o café da manhã dos portugueses, e não abre mão de um almoço demorado, acompanhado por uma garrafa de vinho tinto de boa safra, seguido por uma sesta reparadora.

O Slow Food contrapõe ao estilo de vida Fast Food que, mais do que comer rápido, é a infelicidade de viver rápido, passar pela vida com pressa. Foto: Adam Appel / arquivo pessoal

− A surpresa, − entusiasma-se o Almirante, − é que o Slow Food está servindo de base para um movimento mais amplo chamado Slow Europa, uma nova atitude que questiona a pressa e a loucura gerada pela globalização, refutando o apelo à “quantidade do ter” em contraposição à qualidade de vida ou à “qualidade do ser”.

Anonymus Gourmet ouvia esse discurso vibrante na Luminosa, em Lisboa, animado por uma travessa de tenros croquetes que chegavam à mesa escoltados por uma imponente garrafa de Evel Grande Escolha. O Almirante sorriu para o Evel, e continuou com a veemência de um profeta:

− Essa chamada “slow atitude”, atitude sem pressa, significa viver bem a vida e trabalhar com mais qualidade e produtividade, com atenção aos detalhes, preocupando-se com a excelência. É uma forma de viver bem cada momento.

Libertando o poeta que carrega, o Almirante ilustrou seu ponto com a cena inesquecível do filme “Perfume de Mulher”. O coronel cego, velho morcego que tudo percebe, vivido por Al Pacino, convida a jovem mulher para dançar.  Ela, embora fascinada, vacila:

− Não posso, meu noivo vai chegar em minutos.

− Mas, em um minuto se vive uma vida − responde o coronel, enlevando-a a seguir num tango arrebatador.

O linguado no altar do Gambrinus

28 de fevereiro de 2014 1

Depois que os grandes homens morrem e são sepultados, começa o trabalho de desenterrar suas frases que o bom senso e a cortesia social impediam de vir a público quando em vida. Da sepultura de Federico Fellini, foi exumada esta joia: “É mais fácil ser fiel a um restaurante do que a uma mulher.” De fato, os restaurantes despertam fidelidades extremadas. O Gambrinus é um exemplo veemente dessa verdade.

Na semana passada, na companhia do Maestro Lopes, ocupamos um posto privilegiado na casa, com a luz do entardecer coada entre as cortinas: o cenário adequado à grandeza dos dois linguados que aportaram à mesa. Saboreamos quietos e comovidos, à sombra da histórica cadeira de Chico Alves. Deus salve as cozinheiras, os garçons e a irrepreensível gentileza dos sucessores e sucessoras do grande Antoninho. Ele se foi, mas deixou como herança um estilo de cativar os clientes que continua irresistível.

O Gambrinus está entre os poucos restaurantes de Porto Alegre que se pode considerar de “cozinha brasileira”, essa modalidade indefinível e multiforme na diversidade fantástica do País. Na verdade, cozinha brasileira (de tão rico que é esse espectro) e “cozinha variada” parecem se confundir. E o Gambrinus põe na mesa, com esmero e competência, a riqueza dessa mistura. Tem a rabada com polenta, tem carreteiro, tem filés de todo o tipo, picadinhos, feijoada, macarronada, comidinhas do jeito mineiro, camarão à baiana… E os peixes: o linguado, —e também a tainha recheada com cama­rão,— merecem um altar… Frequentador daquelas mesas impecáveis há mais de 40 anos, confesso a dificuldade de sempre: o que escolher entre tantos tesouros?

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O Mercado Público de Porto Alegre hospeda um dos melhores restaurantes da capital (Foto: Adam Scheffel/RBS TV)

E como se não bastasse… o chopp — cremoso, bem tirado e geladíssimo: nos recentes calores de 42ºC serviu como amável remédio nas vagabundagens vespertinas… Para as noites de frio invernal, nos aguardam os mistérios e perplexidades de tintos de boa data…

Esse parque de diversões gastronômicas vem de longe. A restaura­ção do Mercado revelou afrescos e azulejos quase secu­lares, que estavam escondidos sob o reboco. Com o fechamento do histórico restaurante Dona Maria, em 1999, o Gambrinus não tem mais concorrentes no troféu antiguidade. Uns falam em 1920, outros insistem que os primeiros registros da existência do restaurante remontam a 1890. Nas duas datas o Gambrinus leva o título de mais antigo restaurante da cidade. E, sem dúvida um dos melhores.

Champagne gelada no breakfast

21 de fevereiro de 2014 0

O ator Philip Seymour Hoffman, recentemente falecido, ganhou o Oscar e não será esquecido por seu soberbo desempenho em “Capote”, o filme em que representou o escritor Truman Capote. O personagem tinha duas metades e, como ele, também sucumbiu às drogas. Philip Seymour Hoffman, um homem tímido e reservado, compreendeu que deveria representar no filme dois papéis: as duas identidades opostas de Truman Capote. De um lado, a imagem frívola de um homem mundano, refinado e cheio de trejeitos, centro de festas memoráveis, fofocas e pequenos escândalos, íntimo das maiores celebridades do século XX (a começar por Jackie e John Kennedy, Marilyn Monroe, Frank Sinatra…), vaidoso de suas roupas exclusivas cortadas na alfaiataria favorita de Clark Gable e John Wayne, o célebre atelier Brioni, em Roma (no tempo em que as tesouras eram manejadas pessoalmente por Nazareno Fonticolli e Gaetano Savini), com o Jaguar flamante na garagem, três casas luxuosamente guarnecidas por telas de Matisse e Picasso (algumas com dedicatória), champagne gelada no breakfast… Essa imagem de milionário festeiro, morreu com Capote, vagamente lembrada pelo pitoresco.

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O personagem tinha duas metades e, como ele, também sucumbiu às drogas. Foto: Reprodução/Capote

No filme, Hoffmann deu vida a alguém como ele próprio: o artista magnífico que era o outro lado de Capote. Ficou para sempre, ou pelo menos tem perdurado pelas últimas três décadas, desde a sua morte, a qualidade profissional do jornalista e escritor obstinado. Truman Capote trabalhava sem descanso. Um “sacerdote da notícia”, dizíamos nos anos 1970, quando tentávamos imitar seu estilo seco e magnífico. Hoffmann reviveu no filme as noites insones e os dilemas de Capote para dar vida a uma reportagem de 350 páginas, publicada em capítulos na revista New Yorker, e depois imortalizada no livro A Sangue Frio (In cold blood).

O filme Capote é a biografia dessa reportagem extraordinária. A faísca que ativou a chama do escritor-jornalista Truman Capote foi um fato inusitado em 1959, mas hoje banal: dois assassinos invadiram uma casa de pacatos fazendeiros e mataram a família inteira. Na manhã em que leu essa notícia no jornal, decidiu buscar os fatos completos e viajou para o Kansas: não só recuperou a história, como ajudou a condenar os assassinos e produziu um texto primoroso. Na advertência inicial de A sangue frio, Truman Capote deixa claro que o livro foi escrito com rigor: “Todo o material por mim utilizado neste livro, quando não é fruto da minha observação direta, provém de arquivos oficiais ou resulta das minhas entrevistas com pessoas diretamente interessadas nesta história.” Para interpretar esse escritor-jornalista genial, Philip Seymour Hoffman usou a mesma fidelidade do seu personagem: mais do que interpretar, ele ressuscitou Truman Capote.

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Depois do Gran Colbert, chá de verbena

14 de fevereiro de 2014 0

Recordar é viver. A recente greve dos rodoviários, sob um calor de 40ºC e um sol de rachar, fez Anonymus Gourmet lembrar de uma situação semelhante, anos atrás, em Paris, com temperatura bem diversa. Frio de zero grau, céu cinzento, as ruas do sábado ocupadas por manifestantes contra o governo que paralisaram parcialmente os transportes. Ao mesmo tempo, filas imensas aguardavam, em frente ao Grand Palais, não por ônibus, mas sim pelo momento de se deslumbrar com a maior exposição já realizada das obras do ícone impressionista Claude Monet.

Enquanto isso, perto do aeroporto, num centro de convenções que mais parece uma cidade, os nervosos preparativos para a SIAL, a maior feira de alimentação do mundo. Ça c’est Paris! — refletiu Anonymus Gourmet, enquanto se deliciava diante de um saboroso entrecot com aspargos gratinados, guarnecido por uma honrada garrafa de Châteauneuf du Pape “Vieilles Vignes”, numa sólida trincheira do bom gosto parisiense: o Le Grand Colbert, perto da mesa favorita de Jack Nicholson.

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O Grand Colbert, até virar cenário do encontro inesquecível de Jack Nicholson e Diane Keaton, no filme “Alguém tem que ceder”, era apenas mais um dos extraordinários restaurantes que fizeram a fama de Paris. Agora, é claro, virou atração turística. Mas quando um dos velhos garçons pressente — pelo corte do sobretudo, ou pela gravata impecável — um dos antigos clientes, é como se um farol se acendesse, e brilha o velho charme do lugar.

Depois do Grand Colbert, esgueirando-se entre os manifestantes do Boulevard Beaumarchais, Anonymus, bem alimentado, tomou o rumo da maior feira de alimentação do mundo, instalada, por cinco dias, nas proximidades do aeroporto Charles De Gaulle, para trabalhar um pouco. Depois do almoço, os comilões são virtuosos, pensou Anonymus, ao ingressar no imenso espaço, em que não faltavam tentações. No fantástico centro de imprensa, equipado com computadores de última geração, um grande balcão oferecia uma espécie de enciclopédia viva de canapés, acepipes, sanduíches e empadas de todos os tipos e recheios, devidamente acompanhados por uma mostra resumida, mas expressiva, de champagnes, vinhos, conhaques e licores de diversas procedências francesas, de prontidão para enfrentar a sede e a fome de mais 1000 jornalistas credenciados.

Pelos quilômetros e quilômetros da gigantesca feira, encontra-se de quase tudo, de toda parte: o frango, os suínos, o vinho e outros importantes produtos brasileiros estavam lá, lado a lado com linguiças suecas, molhos italianos, patos franceses, carnes australianas, arroz vietnamita, bacalhau norueguês, azeites portugueses, apresentados por 5.600 expositores de 185 países, disputam a atenção e o apetite de 150 mil visitantes, na maioria profissionais que escolhem os produtos que vão ser oferecidos nas prateleiras dos mercadinhos e supermercados do mundo. Olhando a paisagem, com o estômago e a alma ocupados pelo inexcedível entrecot do Grand Colbert, Anonymus pediu ao discreto garçom queniano da sala de imprensa um chá de verbena que, além do mítico poder de reacender velhas paixões, tem importantes qualidades digestivas.

Os vinhos, os versos e os amores roubados

24 de janeiro de 2014 0

A minissérie Amores Roubados, além de encantar a audiência, prestou dois serviços importantes à cultura brasileira. Primeiro, iluminou novos vinhos. A ambientação da história, numa vinícola do sertão nordestino, deve ter causado perplexidade em grande parte do público. Vinho brasileiro, no imaginário, é produzido no Rio Grande do Sul, com o destaque histórico da Serra Gaúcha, onde os bons resultados são crescentes. Com a minissérie, o grande público ficou sabendo que o sertão nordestino, conhecido pela aridez, pelo sol implacável, pela caatinga inóspita, também tem o rio São Francisco, que cria um verdadeiro oásis na divisa de Pernambuco com a Bahia, permitindo a produção de bons vinhos.

A combinação de clima seco, solo pobre, sol quase todos os dias do ano, com a pujança do rio para irrigação planejada, faz a mágica: permite o florescimento de uvas nobres para vinhos jovens e encantadores: cabernet sauvignon, syrah, malbec, touriga, tannat, alicante bouschet, alicante… Não existe na região o pesadelo das chuvas inesperadas, capazes de apodrecer as uvas e arruinar a produção.

Cauã e Isis Valverde, durante as gravações de Amores Roubados. Foto: Globo/Estevam Avellar

O segundo bom serviço à cultura brasileira foi o gesto de Leandro (Cauã Raymond) dando de presente a Isabel (Patrícia Pillar) um velho exemplar de Poemas, ressuscitando o livro de Joaquim Cardozo (1897-1978), bem assim com “z”, que, embora esquecido, será para sempre um dos maiores poetas da língua portuguesa. Além de produzir versos extraordinários, Cardozo, engenheiro e físico de prestígio mundial, foi o calculista de todos os projetos e palácios de Oscar Niemeyer. Suas pesquisas e obras científicas foram aplaudidas por dois ganhadores do Prêmio Nobel da Física: Dirac (1933) e Anderson (1936). Joaquim conseguiu unir suas duas paixões — a física e a poesia — com rimas sobre a antimatéria e o antitempo, reunidas em Canção do tempo sem tempo.

Entretanto, os versos que arrebataram Isabel por certo foram outros. Na minissérie, Isabel desabrocha de seu casulo de solidão com as páginas luminosas do livro que Leandro lhe oferece. E delira. Nunca mais seria a mesma depois de ler impressa, a promessa de um novo amor: “Não sei se ainda dormia e se sonhava… / Mas era uma visão, uma doçura / Que vinha de nascer da noite escura / E de ouro e de carmim se revelava.”

Enlevada pela beleza dessa sugestão, Isabel por certo não chegou à página onde Cardozo, com a amarga antevisão dos poetas, antecipa em estrofes premonitórias os amores e os sonhos roubados pelo fim trágico de Leandro: “No tempo pulverizado, / Há cinza também da morte: / Estão serrando no escuro / As tábuas da minha sorte”.

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Começa a degustação

17 de janeiro de 2014 0

Em abril de 2012, esta coluna anunciou: “Vem aí um manjar raro para quem aprecia a degustação de uma obra prima: a L&PM vai lançar, pela primeira vez em língua portuguesa, a biografia de Gustave Flaubert: ‘O idiota da família’, de Jean Paul Sartre.”

A boa notícia é que a degustação vai começar.  Esta semana chegou às livrarias o primeiro dos três volumes dessa obra colossal. O primeiro volume de O Idiota da Família tem exatamente 1111 (é isso aí: mil cento e onze) páginas. Já estão em preparação o segundo volume (1058 páginas na edição francesa da Gallimard) e o terceiro, que terá na edição brasileira em torno de 700 páginas. Portanto o total dos três volumes  da obra prima de Sartre terá perto de 3.000 páginas. A L&PM, com essa edição, já em janeiro lança seu candidato a evento editorial do ano no Brasil. A tradução soberba de Julia da Rosa Simões, elogiada pelos especialistas, recebeu excepcional tratamento gráfico. Dá prazer folhear o exemplar.

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O primeiro volume de O Idiota da Família tem exatamente 1111 páginas

Houve um momento, no final dos anos 1960, em que a maioria dos críticos considerou a carreira literária de Jean Paul Sartre  esgotada e encerrada. Foi quando o grande filósofo e escritor surpreendeu o mundo com as 4000 páginas impecavelmente bem escritas dos três volumes d’O Idiota da Família, um estudo sem precedentes da vida e da obra de Gustave Flaubert, que na infância chegou a ser considerado um débil mental e, na idade madura, com devoção de sacerdote e o trabalho obstinado de operário, construiu o monumento Madame Bovary.

Ficou claro que o pequeno Flaubert não era débil mental num momento histórico de sua infância, flagrado pela pesquisa de Sartre. Foi quando percebeu que a palavra “escrever” tinha o duplo sentido que cria toda uma ambiguidade: designa o simples ato de desenhar palavras numa folha de papel e também a ação singular de compor “escritos”. Sartre exulta com a arrasadora constatação: “Pensávamos encontrar um antigo idiota recém saído das brumas: esbarramos em um homem de letras.”

Na idade madura, já consagrado, Flaubert escreveu: “A estupidez não está de um lado e o espírito do outro. É como o vício e a virtude; sagaz é quem os distingue”. Sartre teve a sagacidade de distinguir, ao estudar a família de Flaubert, que, aquele que os parentes consideravam “idiota”, na verdade era um espírito superior. Suas limitações pessoais, suas neuroses e dificuldades de relacionamento foram a rica matéria utilizada por Flaubert para escrever o monumento Madame Bovary.