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Posts na categoria "Colunas e dicas"

Os vinhos, os versos e os amores roubados

24 de janeiro de 2014 0

A minissérie Amores Roubados, além de encantar a audiência, prestou dois serviços importantes à cultura brasileira. Primeiro, iluminou novos vinhos. A ambientação da história, numa vinícola do sertão nordestino, deve ter causado perplexidade em grande parte do público. Vinho brasileiro, no imaginário, é produzido no Rio Grande do Sul, com o destaque histórico da Serra Gaúcha, onde os bons resultados são crescentes. Com a minissérie, o grande público ficou sabendo que o sertão nordestino, conhecido pela aridez, pelo sol implacável, pela caatinga inóspita, também tem o rio São Francisco, que cria um verdadeiro oásis na divisa de Pernambuco com a Bahia, permitindo a produção de bons vinhos.

A combinação de clima seco, solo pobre, sol quase todos os dias do ano, com a pujança do rio para irrigação planejada, faz a mágica: permite o florescimento de uvas nobres para vinhos jovens e encantadores: cabernet sauvignon, syrah, malbec, touriga, tannat, alicante bouschet, alicante… Não existe na região o pesadelo das chuvas inesperadas, capazes de apodrecer as uvas e arruinar a produção.

Cauã e Isis Valverde, durante as gravações de Amores Roubados. Foto: Globo/Estevam Avellar

O segundo bom serviço à cultura brasileira foi o gesto de Leandro (Cauã Raymond) dando de presente a Isabel (Patrícia Pillar) um velho exemplar de Poemas, ressuscitando o livro de Joaquim Cardozo (1897-1978), bem assim com “z”, que, embora esquecido, será para sempre um dos maiores poetas da língua portuguesa. Além de produzir versos extraordinários, Cardozo, engenheiro e físico de prestígio mundial, foi o calculista de todos os projetos e palácios de Oscar Niemeyer. Suas pesquisas e obras científicas foram aplaudidas por dois ganhadores do Prêmio Nobel da Física: Dirac (1933) e Anderson (1936). Joaquim conseguiu unir suas duas paixões — a física e a poesia — com rimas sobre a antimatéria e o antitempo, reunidas em Canção do tempo sem tempo.

Entretanto, os versos que arrebataram Isabel por certo foram outros. Na minissérie, Isabel desabrocha de seu casulo de solidão com as páginas luminosas do livro que Leandro lhe oferece. E delira. Nunca mais seria a mesma depois de ler impressa, a promessa de um novo amor: “Não sei se ainda dormia e se sonhava… / Mas era uma visão, uma doçura / Que vinha de nascer da noite escura / E de ouro e de carmim se revelava.”

Enlevada pela beleza dessa sugestão, Isabel por certo não chegou à página onde Cardozo, com a amarga antevisão dos poetas, antecipa em estrofes premonitórias os amores e os sonhos roubados pelo fim trágico de Leandro: “No tempo pulverizado, / Há cinza também da morte: / Estão serrando no escuro / As tábuas da minha sorte”.

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Começa a degustação

17 de janeiro de 2014 0

Em abril de 2012, esta coluna anunciou: ”Vem aí um manjar raro para quem aprecia a degustação de uma obra prima: a L&PM vai lançar, pela primeira vez em língua portuguesa, a biografia de Gustave Flaubert: ’O idiota da família’, de Jean Paul Sartre.”

A boa notícia é que a degustação vai começar.  Esta semana chegou às livrarias o primeiro dos três volumes dessa obra colossal. O primeiro volume de O Idiota da Família tem exatamente 1111 (é isso aí: mil cento e onze) páginas. Já estão em preparação o segundo volume (1058 páginas na edição francesa da Gallimard) e o terceiro, que terá na edição brasileira em torno de 700 páginas. Portanto o total dos três volumes  da obra prima de Sartre terá perto de 3.000 páginas. A L&PM, com essa edição, já em janeiro lança seu candidato a evento editorial do ano no Brasil. A tradução soberba de Julia da Rosa Simões, elogiada pelos especialistas, recebeu excepcional tratamento gráfico. Dá prazer folhear o exemplar.

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O primeiro volume de O Idiota da Família tem exatamente 1111 páginas

Houve um momento, no final dos anos 1960, em que a maioria dos críticos considerou a carreira literária de Jean Paul Sartre  esgotada e encerrada. Foi quando o grande filósofo e escritor surpreendeu o mundo com as 4000 páginas impecavelmente bem escritas dos três volumes d’O Idiota da Família, um estudo sem precedentes da vida e da obra de Gustave Flaubert, que na infância chegou a ser considerado um débil mental e, na idade madura, com devoção de sacerdote e o trabalho obstinado de operário, construiu o monumento Madame Bovary.

Ficou claro que o pequeno Flaubert não era débil mental num momento histórico de sua infância, flagrado pela pesquisa de Sartre. Foi quando percebeu que a palavra “escrever” tinha o duplo sentido que cria toda uma ambiguidade: designa o simples ato de desenhar palavras numa folha de papel e também a ação singular de compor “escritos”. Sartre exulta com a arrasadora constatação: “Pensávamos encontrar um antigo idiota recém saído das brumas: esbarramos em um homem de letras.”

Na idade madura, já consagrado, Flaubert escreveu: “A estupidez não está de um lado e o espírito do outro. É como o vício e a virtude; sagaz é quem os distingue”. Sartre teve a sagacidade de distinguir, ao estudar a família de Flaubert, que, aquele que os parentes consideravam “idiota”, na verdade era um espírito superior. Suas limitações pessoais, suas neuroses e dificuldades de relacionamento foram a rica matéria utilizada por Flaubert para escrever o monumento Madame Bovary.

O Pampulhinha e a paz do Vietnam

10 de janeiro de 2014 0

Jaime Pinheiro, cada vez mais candidato, não a Chef do Ano – mas, isto sim, a Chef da Década, – trouxe o mar para a mesa dos fundos à direita, do restaurante Pampulhinha, numa noite agradável às vésperas do Ano Novo. O motivo não poderia ser mais justo: uma comemoração de velhos jornalistas. A dupla de tocaios: José Antonio Severo e eu recordamos um feito de 40 anos atrás.

Parece que foi ontem. Madrugada gelada em Roma, acordei em sobressalto com o telefone tocando. Meu Deus, morreu alguém. Atendi. Era o Severo, nosso diretor de redação.

“Pinheiro, tens que viajar imediatamente! O Kissinger está anunciando o fim da guerra na Conferência de Paz do Vietnam, em Paris.”

“Não há voos. Fiumicino está fechado pelo mau tempo.”

“Então te manda de trem!”

A Guerra do Vietnam foi uma questão central da nossa geração. Lá fui eu num vagão bem diferente dos fantásticos trens de altíssima velocidade que hoje voam pelos trilhos europeus. Naquela noite gelada iniciei uma viagem de 24 horas. Mas valeu a pena. Chegando ao hotel Majestic, onde se reuniam os representantes diplomáticos das grandes potências e do Vietnam, encontro um velho amigo vietnamita, da assessoria da linda Madame Thi Bihn, chanceler do Vietnem do Norte, e estrela absoluta da Conferência. Surpresa das supresas, ela concordou em conceder uma entrevista exclusiva e lá fui eu, um bloco de notas, a caneta e a coragem. E ela afirmou: “Kissinger está errado. Não vamos assinar a paz. Só haverá paz se os americanos forem embora.” Corri ao hotel, enquanto o Severo negociava a nossa matéria exclusiva com as agências internacionais. A paz do Vietnam, como anunciara Madame na “nossa” entrevista, só viria um ano depois – quando as tropas americanas foram embora.

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Assim, nossa pequena festa de aniversário de 40 anos da matéria fazia sentido. O Jaime começou trazendo à mesa lulas frescas recém grelhadas para acompanhar um Alvarinho impecável: tão gelado como aquela madrugada romana de 40 anos atrás. Depois, foi aberto com certa cerimônia um Porca de Murça Reserva, que enfrentou a lagosta extraordinária, apresentada no ponto exato. Jaime se superou: usou a determinação e a perícia com que os portugueses desafiam os mistérios do mar. Estava tão brilhante e tão saborosa a lagosta que limpamos a travessa, bebemos o vinho e esquecemos de brindar nossa vitória de 40 anos atrás.

Nos sentimos moralmente obrigados a pedir mais uma garrafa de Porca de Murça Reserva para um brinde especial.

O único sonho que realizei

03 de janeiro de 2014 0

A mesa é o território mágico de convivas bem escolhidos, porque depois dos primeiros cálices, enquanto desfilam as delícias e sabores, brotam confissões, declarações de amor, ódios antigos e culpas recentes, juramentos, relatos fantásticos, verdades difíceis de provar, mentiras fáceis de engolir.

O calor aquece as almas e solta o verbo. Justamente por isso, nas reminescências e nostalgias de fim de ano, nos torneios de jantares e encontros de dezembro, Anonymus Gourmet gosta de lembrar um escritor hoje esquecido: Somerset Maugham.

Além de compor volumes iluminantes, Maugham também foi um esplêndido gastrônomo. Conta-se que, durante um jantar na Provence, uma jovem jornalista versada em vinhos desafiou-o, perguntando-lhe se sabia qual era a forma correta de segurar uma garrafa na hora de servir. A resposta de Maugham tornou-se um postulado insuperável da liturgia dos vinhos: “Garrafas, minha senhora, a gente segura pelo gargalo; mulheres a gente pega pela cintura”.

Somerset Maugham

Anonymus Gourmet lembra um escritor hoje esquecido: Somerset Maugham

Há quem duvide da experiência pessoal de Maugham em matéria de segurar mulheres. Mas, pelo menos do ponto de vista literário, ninguém penetrou tão fundo na alma feminina e ensinou com tanta maestria a arte da sedução como o Maugham de Maquiavel e a Dama. Foi exatamente uma mulher, a Mildred que enfeitiçou e degradou o pobre Philip Carey de Servidão Humana, livro que celebrizou o jovem médico William Somerset Maugham, do St. Thomas Hospital, de Londres, tornando-o reconhecido como um dos grandes escritores ingleses do século passado.

Esse “grande escritor inglês”, na verdade, foi o mais francês dos britânicos. Nasceu e viveu até os nove anos em Paris, onde seu pai era conselheiro da embaixada da Inglaterra. Ali se educou e se deliciou desde cedo com os segredos da gastronomia francesa. “Nas mesas de Paris aprendi o horror à indulgência”, gostava de proclamar, sempre intransigente com o ponto do seu steak au poivre.

Anonymus nunca esquece e sempre repete, como lição indispensável de vida, uma advertência do grande escritor. Depois do jantar, Somerset Maugham apreciava um bom charuto – geralmente um inatacável Punch doble corona, “cuja sobrecapa era alisada na coxa de uma mulata cubana de Vuelta Abajo”. Nos dias finais de sua serena agonia, Maugham escreveu: “Quando eu era jovem e tinha pouco dinheiro, fiz vários planos para a vida adulta. Um deles: que teria sempre, depois do jantar, um pouco de conhaque acompanhado por um bom e caro charuto. Foi um dos poucos sonhos da juventude que realizei. E foi o único que não me decepcionou”.

Dúvidas e naufrágios de um cozinheiro

27 de dezembro de 2013 0

Semanas atrás, no programa da TV, homenageamos um livro que vale a pena: O Pedante na Cozinha (Editora Rocco, 142 pg). O autor, Julian Barnes, é um escritor inglês de prestígio (O Papagaio de Flaubert, entre outros livros marcantes), que relata suas aventuras e desventuras de sofisticado cozinheiro amador. Em português (em inglês e em italiano também) a palavra “pedante” tem dois significados.

No sempre consultado Aurélio, pedante é (1) aquele que “se expressa exibindo conhecimentos que realmente não possui; parlapatão, impostor, vaidoso, pretensioso”. Noutro sentido, (2) é aquele que “ostenta erudição afetada e livresca; afetado, amaneirado, rebuscado”. O pedante do livro de Barnes não é o parlapatão do primeiro significado e sim o rebuscado que ostenta erudição livresca. E a graça do livro são exatamente as dúvidas e naufrágios de um cozinheiro teórico, muito informado, diante das surpresas de um fogão da vida real.

Barnes despreza “o cozinheiro amador autodidata, ansioso e que faz cara feia para os livros de receitas”, lembrando uma posição típica dessa prolífica fauna: “Ah, não leio receitas − dizem eles. Ou então: ‘Leio receita só para aproveitar ideias’. Certo, ótimo, mas vou fazer uma pergunta: alguém contrataria um advogado que dissesse: ‘Ah, eu dou uma olhada em algumas leis, mas só para aproveitar ideias’?”

pedante

Também sobram estocadas para os chefs esnobes. Barnes diz que o pior prato que comeu na vida − “pior no sentido de me deixar mais indignado” − foi num restaurante francês cheio de estrelas em que o chef utilizava a “cozinha do instinto”, desprezando as receitas: “naquela noite, a intuição dele o fez usar, sozinho, toda produção de vinagre do país, prato após prato”. Por isso, acredita que os grandes chefs que falam demais merecem a sentença de Matisse: “Deviam cortar a língua dos artistas”.

Com orgulho Julian Barnes afirma: “continuo a ser um cozinheiro que se baseia em textos” e confessa que não é competitivo, nem está interessado em saber se “cozinhar é ciência ou arte”. Ele se conforma “se for um hobby como marcenaria ou reparos domésticos”. Ao falar em hobby, Barnes aproveita para fazer uma maldade, dizendo que ficou surpreso “ao descobrir que a jardinagem, com todo aquele ar de serenidade anterior ao pecado original, é furiosamente competitiva, e quase sempre quem se entrega a essa atividade são os invejosos, os desonestos e os criminosos discretos”.

O desembarque de uma garrafa magnífica

20 de dezembro de 2013 0

Quando viajamos, sempre há uma dica de algum amigo piedoso sobre um ótimo restaurante a não perder. Anos atrás, Anonymus Gourmet decidiu escrever sobre um restaurante a frequentar com cautela: o Grand Cafe de Bordeaux, onde há vinhos soberbos, mas o principal prato de carne – a cote de boeuf a la mode du chef – provavelmente é servido, em verdade,  à moda japonesa, pois lembra um sashimi: a carne parece crua, de tão mal passada. Só que os restaurantes japoneses são em geral servidos por atendentes cordiais, bem diferentes do maitre e do garcon bordaleses, mal humorados e com pressa, que, contrariados, informaram que “aquilo” era mal passado – “e pronto!” Anonymus Gourmet invocou silenciosamente o Cavalo Celeste para sublimar o desaforo e evitou revelar que o convidado que o acompanhava naquela jornada que se revelava áspera era ninguem menos  que o Dr. Jose Abu-Jamra, que, além de estrela eventual de nosso show culinário, é considerado por Tom Hanks (em Saint Barth) e Ed Motta (em Atlântida, RS) um dos maiores assadores da América Latina.

Anonymus Gourmet e Zé Abu Jamra

Anonymus Gourmet e Zé Abu Jamra

Anonymus procurou advogar a causa com frieza e sangue frio, ponderando com a polidez possivel que talvez, quem sabe, por gentileza, se não fosse incômodo, pudesse o cozinheiro conceder para aquela peça de carne quase crua uns minutos a mais na grelha? Assim como faltava cordialidade japonesa ao garçon e ao maitre, também faltou grandeza ao cozinheiro: rancoroso, ele devolveu a mesa uma peça cozida em excesso que mais parecia egressa das velhas sopas do Exercito da Salvação, as quais, entretanto, faça-se justica:  eram quentes e, ali, o cozinheiro, claramente querendo se vingar, seguiu a rigor o preceito de que a vingança é um prato que deve ser servido frio. De qualquer forma, a situação de Anonymus e Abu era semelhante à encruzilhada de Robert Redford, que, ao fundo, numa imensa tela de plasma, tentava ganhar tempo para salvar Brad Pitt, no filme Jogo de Espiões. E, exatamente como aconteceu com Redford no filme, a solução mágica haveria de surgir inesperadamente na mesa. No filme, as coisas se resolveram num arriscado desembarque de helicoptero. Naquela mesa de Bordeaux, em que tudo parecia perdido, em vez de um helicóptero, a luz brotaria no desembarque de uma magnífica garrafa de Chateau Beausejour Becot, 2001, que merecia muito além da nota 89/100 atribuida por Robert Parker. Naquele pantanoso restaurante brotara uma garrafa deslumbrante. Além do prazer intensodo vinho, a perplexidade inevitável: por que a cozinha não tinha o padrão da adega? Quais seriam os critérios ou os princípios da casa? Foi inevitável lembrar Grouxo Marx: “Senhora, aqui tem meus princípios. Se não lhe agradam, tenho outros.”

A grande festa da faca artesanal

13 de dezembro de 2013 0

Neste fim de semana, a celebração de um dos valores fundamentais do gauchismo: a faca. Sábado (das 10h às 18h) e domingo (das 10h às 16h), no átrio do restaurante Vitrine Gaúcha, no DC Shopping, será realizada a V Feira da Faca Artesanal Gaúcha. Afiação, compra, venda e trocas de facas, shows musicais, homenagens vão acontecer em torno de 35 expositores.

Nessa festa, ganhei uma homenagem inesperada: patrono da feira! Desde sempre, cultivei uma pequena coleção de facas artesanais, entusiasmado pelo meu falecido e inesquecível amigo Virabosta, com suas facas que fazem sucesso na Europa.

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A faca é personagem insuperável na literatura do Pampa. Um dos temas de Jorge Luis Borges era o punhal, ao lado do labirinto, do livro, do espelho, do zahir e do tigre. Sinval Medina escreveu uma fascinante biografia do Senador Pinheiro Machado, em torno de uma faca mal usada: “A faca e o mandarim”.

As facas artesanais resistiram ao tempo e à moderna tecnologia e se tornaram uma tradição do gaúcho. “Forjadas no aço e no fogo, com cabos de marfim e até mesmo em metais preciosos, facas feitas à mão e forjadas na bigorna são prestigiadas como artigos de luxo e objetos de desejo de colecionadores” − diz, com toda razão, Roberto Vianna, um dos organizadores da V Feira da Faca Artesanal Gaúcha.

Na verdade, a faca é mais do que um acessório valioso para um gaúcho: “É mais fácil imaginar um gaúcho sem o seu cavalo do que sem a faca: ela é como uma parte de seu corpo.” − diz Vianna. A faca é usada pelo gaúcho em uma infinidade de atividades e necessidades, desde cortar a carne para o churrasco a instrumento de defesa (atualmente, tal uso tem suscitado polêmica, em especial nos acampamentos farroupilhas). É adquirida em lojas especializadas e também, o que é muito comum, encomendada a um artesão de facas: o cuteleiro.

O cuteleiro é quem produz facas de forma totalmente artesanal, e essa habilidade é muito prestigiada. As facas produzidas artesanalmente têm status de artigo de luxo – garantem os aficcionados.

A forja de uma faca é processo demorado e minucioso. Exige do artesão talento e sensibilidade. Fazer uma faca artesanal é uma daquelas artes que a indústria, a produção em série e o consumismo não conseguiram extinguir. Uma faca artesanal é um objeto único que remete à memória e à história: afinal a faca já foi, no passado, um instrumento essencial. Hoje, além da sua utilidade e do seu encanto, ela tem o valor dessa lembrança e, por certo, dessa saudade secular.

Depois do Almoço, Dostoievski

06 de dezembro de 2013 0

Conheci Dostoievski em Xangrilá, depois do almoço. É uma das tantas dívidas que o Ivan e eu temos com nosso pai: na base do centralismo democrático stalinista, ligeiramente tropicalizado, o pai nos impôs um programa obrigatório de leituras. Longe da cidade que é hoje, a Xangrilá da nossa adolescência era um descampado, o Nordestão desenhando cômoros no areal, entre as poucas casas. Não havia muito o que fazer: depois do banho de mar, o almoço demorado e, a partir daquele dia, a tarde começava com duas horas de Dostoievski.

O livro escolhido para minha iniciação, nos dias de hoje, talvez provocasse a intervenção do Conselho Tutelar ou do Juizado da Infância e da Juventude: “Crime e Castigo”! Abri contrafeito o pesado volume encadernado em couro e, logo depois de ler os primeiros parágrafos, ainda recordo do impacto inesperado. Anos passaram, e Jorge Luis Borges, na escuridão de sua cegueira, iluminaria, em duas frases, aquela minha perplexidade juvenil: “Como a descoberta do amor, como a descoberta do mar, a descoberta de Dostoievski marca uma data memorável de nossa vida. Em geral, corresponde à adolescência; a maturidade busca e descobre escritores serenos.”  Naquele dia, por momentos o Nordestão deixou de assobiar, o céu azul do azul lavado pela chuva, do verso de Paulo Mendes Campos, perdeu sua atração irresistível e o dia límpido e ensolarado lentamente foi substituído pela urgência da emoção nova e avassaladora daquela primeira leitura. Borges deve ter vivido algo parecido na juventude em Genebra: “Ler um livro de Dostoievski é penetrar em uma grande cidade, que desconhecemos, ou nas sombras de uma batalha.”

Livro Crime e Castigo de Fyodor Dostoyevsky (Foto: William Mayer/ Arquivo Pessoal)

Livro Crime e Castigo, Fyodor Dostoyevsky (Foto: William Mayer/ Arquivo Pessoal)

A história do jovem Raskolnikov é soberba, contada de forma magnífica. Estudante pobre, cheio de sonhos, divide os indivíduos entre ordinários e extraordinários e se impõe a missão de fazer algo realmente importante, ainda que seja uma violação às leis. Escolhe matar com violência uma velha agiota e, ao fugir, também assassina a irmã da vítima, que apareceu de surpresa e testemunhou o crime. Rouba algumas jóias, que acaba por descartar, atormentado pela culpa. O romance brilha no relato do remorso sem remédio que persegue o personagem como uma danação. Quando um inocente é preso, Raskolnikov assume o crime e é condenado. Diversas histórias paralelas reforçam o eixo principal da narrativa, entre elas, a relação do protagonista com Sonia, que o encoraja a confessar o crime. Toda a miséria e toda a grandeza da condição humana transbordavam daquelas páginas. Mas nem todos se emocionaram tanto assim. No prefácio de uma antologia da literatura russa, Nabokov escreveu que não encontrou uma única página de Dostoievski digna de ser incluída. Borges recusou essa afronta com uma verdade salpicada de ironia: “Isso quer dizer que Dostoievski não deve ser julgado por páginas soltas  e sim pela soma de páginas que compõe o livro”.

Chá e torradas com poetas ingleses

29 de novembro de 2013 0

Meu primeiro encontro com John Keats, escreveu Jorge Luis Borges, foi a experiência literária mais importante da minha vida. Os poemas de Keats, entretanto, não foram bem recebidos pela crítica durante sua vida. Viveu a maldição de muitos gênios: só foi plenamente aclamado depois de morto. Seu trabalho começou a ganhar repercussão quatro anos antes de sua morte, mas, não viveu o suficiente para saborear o triunfo: Keats se tornou um dos mais amados de todos os poetas ingleses, e teve influência significativa sobre poetas e escritores notáveis, a começar pelos seus amigos Lord Byron e Percy Shelley. Atento aos conselhos dos livros de Borges,  tentei seguir alguns rastros de Keats, Shelley e Byron em Roma, muitos anos atrás, quando trabalhava como correspondente na Europa.

John Keats (Foto: Phil Sellens/ Divulgação Creative Commons

John Keats (Foto: Phil Sellens/ Divulgação Creative Commons

Ao lado da escadaria da Piazza di Spagna, coberta de flores na Páscoa, uma placa de mármore na parede da casa velha com três pisos dava notícia que ali morou e morreu John Keats. E com ele, durante certo tempo – fiquei sabendo depois – moraram Byron e Shelley. Por uma escada estreita, com corrimão de ferro pintado de verde e os degraus gastos pelo uso, mas muito brancos e muito lavados, cheguei ao terceiro andar. A casa, preservada por uma instituição cultural inglesa, estava como Keats a deixou. Era um convite para um chá com torradas entre poetas ingleses. A não ser pelas módicas 500 liras na entrada para ajudar na conservação, tudo se passou como uma visita à casa de amigos. Um homem uniformizado, de modos educados, recebia os poucos visitantes curiosos e mostrava com orgulhosa devoção o quarto em que Keats morreu, a mesa onde Shelley escrevia, os livros de Byron cobertos de anotações espirituosas à margem. E as cartas de Byron… suas imensas e encantadoras cartas, páginas de espírito e bom-humor. O recepcionista dava os ares de um mordomo que convivera com os poetas… “Keats foi o maior de todos”  — garantiu aquele zelador-historiador da casa de Piazza Spagna. Mas o seu hóspede favorito foi Byron.  Garantiu-me o gentil cicerone que “foi na Itália que Byron viveu alguns dos seus melhores momentos”. Enalteceu a atuação de Byron como parlamentar na Câmara dos Lordes, pelo Partido Liberal; sua nobre ascendência, segundo filho do quarto Lord Byron, que foi ilustre almirante da Armada Britânica. Ah, e a gloriosa chegada à Espanha, em 1809? Em Sevilha o poeta apaixonou-se por uma mulher casada, desafiando o marido para um duelo. Nessa mesma viagem, seguiu pelo Mediterrâneo até Constantinopla, passando por Smyrna. Enquanto o navio esteve parado por causa de uma calmaria, Byron visitou Tróia e não resistiu: desafiando os astros, atravessou o Helesponto (antigo nome do estreito de Dardanelos, que liga o mar Egeu ao mar de Mármara) nadando mais de 1600 metros de águas agitadas, comprovando na prática a lenda de Leandro na mitologia…

Publique-se a lenda

22 de novembro de 2013 0

         Seria um ato de soberba insuportável ficar em silêncio diante do carinho que Alarico e eu recebemos das pessoas no lançamento do nosso livro “Show de Sabores”, na 59.a Feira do Livro de Porto Alegre, encerrada no fim de semana passado. A sessão de autógrafos foi testemunhada ao vivo pelo sempre atento RBS Notícias: não existe palavra que possa retribuir a gentileza generosa das centenas de amigos e leitores na longa fila que, por mais de três horas, dava voltas pela praça. Obrigado.

         Depois dos autógrafos, comemoramos com cachorro quente, coincidência com o tema de nossa coluna da semana passada, onde registrei a pretensão americana pela invenção do hot dog. Como disse, a pretensão é contestada pelos alemães.

Anonymus Gourmet com seu novo livro Show de Sabores (Foto: Juliana Borba)

Anonymus Gourmet com seu novo livro Show de Sabores (Foto: Juliana Borba)

         Na versão germânica o cachorro quente teria sido inventado por um açougueiro de Frankfurt, Johann Georghehner que, em 1852, batizou as salsichas que fabricava com o nome de seu cachorro bassê. O cachorro bassê, cuja raça é a dachshund, desde o final do século 17, já era comparado à salsicha. Popularmente, essa iguaria já era chamada de dachshund ou “pequeno cão comprido”. Existe também uma versão diplomática que tenta agradar alemães e norteamericanos: um imigrante alemão, Charles Feltman, teria levado as salsichas para os Estados Unidos por volta de 1880. Lá, criou um sanduíche quente com pão de leite, salsicha, molhos etc…

         Mas, a verdade não se encontra nos extremos e, geralmente, está no meio. Não por acaso, a melhor versão sobre a origem do hot dog  tem os EUA como cenário e um alemão como personagem principal. E sua qualidade literária é indiscutível. Por essa versão, o cachorro-quente teria sido criado por um alemão chamado Anton Feuchtwanger em St. Louis, EUA, em 1904. Ele vendia salsichas quentes e dava a cada cliente uma luva de algodão para não queimarem as mãos. Como a maioria das pessoas não devolvia as luvas, ele começou a ter prejuízo. Pediu, então, auxílio ao seu cunhado, um padeiro, que fez pães compridos na medida de uma salsicha.  Pode não ser verdade, mas é uma boa versão. E sugere o provérbio italiano: Non è vero, ma è ben trovato  (não é verdade, mas é bem bolado). Em apoio a essa versão também vale a lembrança da hipocrisia realista do filme “O homem que matou o facínora”. Quando o preocupado James Stewart vê sua lendária carreira ser ameaçada pela desagradável verdade dos fatos, ouve a frase tranquilizadora do dono do jornal da cidade:  ”Se a lenda é melhor que a realidade, publique-se a lenda!”