Segundo o dicionário Aurélio, morango não é fruta. É uma “infrutescência” – veja só. Os verdadeiros frutos do morangueiro, na verdade, são aqueles grãos duros que brotam ao lado do morango. De qualquer modo, fruta ou infrutescência, estamos em plena safra, há morangos por toda parte, bem vermelhos, saborosos. Além das sobremesas, bem doces com muito açúcar para equilibrar a acidez natural, como o clássico morango com nata, o morango se mistura bem com folhas verdes numa salada temperada com azeite e limão. Em qualquer uso é preciso ter um cuidado: só retire o cabinho depois de lavar o morango, sempre lave com o cabinho, pois o cabinho é uma espécie de tampa natural que impede a água de encharcar ... a fruta. É inevitável pensar no morango como fruta e, é claro, com açúcar. Mas ele pode também ser salgado e, inclusive, prato principal: há um excelente risoto, um arroz com morangos que leva caldo de galinha, vinho branco... São inesgotáveis as utilizações muito além da inocente sobremesa com nata.
A propósito, Anonymus Gourmet, numa dessas tardes primaveris, observava o sugestivo morango inteiro mergulhado numa flute borbulhante de champanhe num brinde a dois com Madame Queiroz. Foi quando lembrou Millôr Fernandes, que tinha uma bela imagem a propósito de frutas e de pecado: “Imagina o que seria o pecado se Eva, em vez da maçã quase sem gosto, tivesse mordido um pêssego bem doce!” Não contente com a observação, Anonymus foi mais longe, arregalando os olhos:
“E se Eva tivesse experimentado morangos com nata e açucar?!...”
Madame Queiroz, educada num colégio de freiras, ficou escandalizada com a vulgaridade da observação:
“Brincar com essas questões me parece uma falta de princípios!” – e afastou com expressão severa o cálice de champanhe onde o rubro morango, incentemente, flutuava entre as borbulhas.
Anonymus, em plena espiral do desastre, tentou consertar com uma frase de Groucho Marx:
“Senhora, aqui tem meus princípios. Se não lhe agradam, tenho outros.”
Mas, não pegou bem. Por isso, para se recuperar com Madame Queiroz, Anonymus Gourmet, com a humildade do noviço que lava as lajes do claustro, empreendeu uma jornada purificadora. Convidou o jovem Alarico a repetir, meio século depois, uma inocente lembrança da infância: o passeio semanal com o avô à banca do Mercado Público, para comer morangos com nata. O programa deste sábado, oito e meia da manhã, na RBS TV é a crônica dessa peregrinação, que culminou na cozinha, com um inexcedível escondidinho de morangos.
