A telespectadora Patricia questionou sobre o preparo do prato foie gras, confira:
“Venho aqui destacar meu descontentamento em relação ao preparo um prato "foie gras". O problema é a monstruosidade que estes animais passam para que "algumas" pessoas desfrutem do foie gras. Para quem não sabe, os animais são mantidos presos sempre em pé, em uma gaiola sem espaço para virar de lado ou sequer deitar, durante horas, com um cano metálico de uns 50cm goela abaixo com alimento, até seu fígado crescer ao ponto de quase explodir... Me pergunto, vale a pena colaborar com estes monstros?? Mostrar um prato destes em um programa tão familiar é absurdo, deveriam fazer campanha para proteger estes animais e não incentivar essa estúpida crueldade. Reforço minha indignação, sendo estudante de zootecnia da UFPEL, viso a produção animal, mas com "o bem estar animal" em primeiro lugar." - Patricia Agostini.
Cara Patricia:
Agradeço sua mensagem e suas preocupações. Também eu tenho uma inquietação antiga em relação à dor dos animais... Na minha vida particular e na vida pública, em reiteradas oportunidades, tenho defendido um tratamento digno para com os animais. Seguidamente, em especial no Café TVCom, e também em outros espaços em rádio, jornal e TV, já me questionei a propósito: como aceitar a forma em que galinhas são criadas? E a tortura dos bovinos, levados à morte com estocadas de ferro? E a caça por esporte?... E assim os exemplos são infinitos. Tenho muitas perguntas, mas poucas respostas.
Em minha casa, além de cães, cuidados como filhos, tenho também muitos pássaros soltos que vivem entre as árvores. Vejo-os como amigos que me visitam e vão ficando, fazendo seus ninhos e se alimentando das frutas, atraídos pela vegetação e também por alimentos que disponibilizamos.
Essa questão da convivência pacífica e amistosa com os animais, e em especial o uso de animais para alimentação é complexa e cheia de contradições.
O fato de mostrarmos uma receita com foie gras não significa nenhum compromisso moral com a forma brutal (e imoral) com que são obtidos os fígados. Não creio que estejamos incentivando uma crueldade. Estamos reportando um fato: o foie gras, visto como alimento, é uma tradição ancestral da cozinha francesa e, como tal, nos interessou o produto final, como uma curiosidade. Nada a ver com os métodos de criação ou de sacrifícios de seres vivos.
Tempos atrás, vivi uma crise pessoal em relação a comer animais. E um amigo sábio, que também tinha passado por isso, mostrou-me um filme com cenas da natureza: tigres matando cervos, os predadores em eterna perseguição às suas presas... Em muitos lugares, desequilíbrios ecológicos decorrem do fim de predadores. Por aqui, fala-se na questão dos javalis e "javaporcos" atormentando as lavouras, crescendo em número por falta de predadores... São fatos da natureza.
O grande poeta Paulo Mendes Campos falando de sua infância lembra a "contradição poética" quando brincava com besouros "e os assassinava por ternura"... E o cavalo Joaquim, com duas manchas brancas no abdomen: "À noite, eu o vi comer um girassol. Era um cavalo estranho como um homem..." É isso aí: somos os mais estranhos animais da natureza...
Recebo sua manifestação com simpatia, pela seriedade e sinceridade diante de um tema tão polêmico e, sobre o qual, confesso minhas perplexidades. Muito obrigado pelo seu tempo e também pela sua indignação.
Abraço cordial do Anonymus Gourmet
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