Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts com a tag "coluna"

Saudades de Millôr Fernandes

29 de março de 2013 0

Esta semana foi o primeiro aniversário de uma saudade: Millôr Fernandes, nos abandonou em março do ano passado. Mas deixou sua inteligência e suas frases: “O gourmet é um comilão erudito”, escreveu ele, que apreciava a boa mesa e um cálice de vinho de boa data, talvez em consequência de sua origem italiana incontornável, chancelada pelo sobrenome materno: Viola. “Gastronomia é comer olhando prô céu” dizia o seu apetite italiano. Apetite que se revelava na preferência por um restaurante com fortes sabores e sotaques peninsulares, o Arlecchino, que lhe inspirou um poema amargo na antevisão da morte: “Quando eu morrer/Tenho certeza,/ Meus amigos vão sentir/ Muito por mim,/ E, jantando no Arlechino,/ Vão dizer que eu fui assim,/ Assim, assim & assim./ Mas não suspenderão/ Nem uma só/ Garfada de talharim.”

Esse ceticismo iluminava seu trabalho. Millôr, embora fosse um pioneiro em matéria de computador, não aceitava muito bem o livro para ser lido no computador, ou em outras “plataformas” virtuais. Ele enfrentou o debate com sua ironia soberba: “Anuncia-se um revolucionário conceito de tecnologia de informação, chamado de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas - L.I.V.R.O. Não tem fios, circuitos elétricos, pilhas. Não necessita ser conectado a nada, nem ligado. É tão fácil de usar que até uma criança pode operá-lo. Basta abri-lo!”

Em setembro de 1981, fizemos na revista Oitenta, da L&PM, uma longa entrevista com Millôr. Trinta anos atrás, nós, os jovens entrevistadores, nos considerávamos eternos,  e encerramos as sete horas de animada conversa, com uma pergunta reveladora de que não pretendíamos perder um só minuto dessa eternidade: “O que move um cara como você, durante 43 anos, das 7 da manhã até as 8 da noite, enquanto os outros vão à praia e se divertem, o que faz com que este cara escreva? Que tipo de obsessão é essa?”  

A resposta de Millôr Fernandes foi uma singela lição de vida: “Primeiro, não é obsessão, é profissão. É aquela história do bom tijolo. Eu estou lá fazendo o meu tijolo, e só entrego o que eu acho que está bom. Pode até estar ruim, mas eu não estou achando que é ruim, não. Além disso, não foram 43 anos confinados. Enquanto isso, graças ao bom Deus, eu tive enormes paixões, eu namorei as moças, eu viajei, eu fui e voltei, eu corri riscos, tive medos e muitas alegrias. E tudo isso ainda me deu o lucro marginal de estar aqui com vocês: oportunidade que eu obtive com o meu trabalho, na minha vida.”

Último suspiro do anjo iluminado

20 de abril de 2012 0

A velha questão que volta sempre: música no jantar. Anonymus Gourmet, que ainda hoje lê autores esquecidos, acha graça da frase de Talleyrand: "Música no jantar é sempre uma traição: ao maestro ou ao cozinheiro". Acha graça, mas discorda amavelmente, porque adora jantar com Schubert. Ou jazz – dependendo do cardápio. O jazz ajuda a comer, beber e escrever.

Lobo Antunes diz que aprendeu a escrever com os saxofonistas de jazz, principalmente Charlie Parker, Lester Young e Ben Webster, o Webster da fase final, de Atmosfera para Amantes e Ladrões, “onde, se entende mais sobre metáforas diretas e retenção de informação do que em qualquer breviário de técnica literária”. Lobo Antunes lembra que Lester Young começou por tocar bateria. Certa vez, um crítico perguntou-lhe por que mudou da bateria para um instrumento de sopro, e Lester Young explicou: “Sabe, a bateria é complicada. No fim dos concertos, quando acabava de desarmá-la, já todos os colegas tinham ido embora com as garotas mais bonitas.” O fato de desejar ter também garotas bonitas levou-o, entre outras obras-primas, a These Fooling Things onde, segundo Lobo Antunes, “cada nota parece o último suspiro de um anjo iluminado.”


Lester Young


Na hipótese de Schubert ao jantar, Anonymus não esconde a preferência pelo Allegro Vivace, com a Royal Philharmonic Orchestra, regência de Jonathan Carney, com Ronan O’Hora ao piano. Em qualquer hipótese, na sobremesa, doce de ovos moles, sempre! Depois da sobremesa, num desses jantares frugais, já com o Allegro Giusto sonando, Anonymus recordou Schubert, num trecho do Livro de San Michele, do grande Axel Munthe (outro esquecido), antigo best seller da gloriosa Coleção Catavento, da Editora Globo: “Schubert tinha dezenove anos quando compôs a música para o Erlkönig de Goethe e enviou-lha com uma humilde dedicatória.

Nunca perdoarei ao maior poeta dos tempos modernos o não ter enviado uma palavra de agradecimento ao homem que imortalizou o seu poema. O gosto musical de Goethe era tão mau como o seu gosto artístico. Schubert nunca viu o mar, mas nenhum compositor, nenhum pintor, nem poeta algum, salvo Homero, nos fez compreender como Schubert, o calmo esplendor do mar, o seu mistério e as suas cóleras. Tinha 32 anos quando morreu na maior miséria, como tinha vivido. Nem sequer possuía um piano. Depois da morte, todos os seus bens terrestres, as roupas, os poucos livros e a cama, foram vendidos em hasta pública por sessenta e três florins. Numa maleta velha debaixo da cama, foi encontrada uma porção de canções imortais que bem mais valiam que todo o ouro dos Rothschild da sua Viena, onde viveu e morreu.”

Sabores e licores, sonhos e pesadelos

20 de janeiro de 2012 0

Listas são essenciais, para as questões da vida prática e para as urgências da alma. Lista do supermercado, lista dos compromissos do dia, lista de dívidas a pagar... Mas também é possível açucarar as responsabilidades inadiáveis com os sonhos sempre adiados – inventariados em listas amáveis.

Madame Queiroz (que ocupa a pole position na “lista dos enigmas” de Anonymus Gourmet) adora listas porque, diz ela, “organizam o passado e o futuro”. Além de organizar as aflições da hora, as listas também eternizam lembranças: o relatório das exaltações, desesperos, fantasmas, sabores e licores, sonhos e pesadelos, que nos fizeram viver muito ou morrer um pouco.

No ano passado, por sugestão da Claudia Laitano, escrevi uma dessas listas: os 10 melhores lugares do mundo, em todos os tempos, no coração do Anonymus Gourmet. É arbitrária e discutível, com esquecimentos imperdoáveis, mas carregada de lembranças adoráveis e, por isso, ganhou espaço no livro Memórias do Anonymus Gourmet.

Vale recordar alguns itens, começando pelo Relais Saint Germain (Paris) que,  como quase tudo que é bom, acabou. A excelência começava nos pãezinhos do couvert, passando pelo canard, pelos peixes do mediterrâneo, pela salada de chevre chaud,  os guardanapos imensos e engomados, talheres pesados, vinhos de boa data, velhos garçons acostumados às tempestades e sempre cordiais.

No Restaurante Poleiro (Lisboa),  afrontamos camarões médios delicadamente refogados em azeite extra-virgem e alho, bolinhos de vitela e presunto, pastéis de bacalhau e peixinhos da horta. Tivemos que recusar o borrego, apesar da insistência do Sr. Manoel. Tem também velha taberna no porto de Brindisi (Itália), um lugar de despojamento severo: mesas de grossa madeira maciça, cadeiras toscas mas firmes, o chão de cimento, as paredes pintadas com cal, sem um quadro sequer. O pai escolheu uma garoupa soberba, que o taberneiro, de óculos tartaruga, limpou com minúcia, e depois preparou com maestria num braseiro ao fundo. Não foi um almoço, foi um sonho.

No Restaurante Sinal Verde (Lisboa), o peixe era perfeito. Mas, quando chegou a picanha, Anonymus lamentou estar desarmado: não carregava sua fiel Leica compacta e não pôde documentar a cena. Queria fotografar e mandar a imagem para o Nico Fagundes. No Churrasco do Zé Abu-Jamra,  como escolher um destaque, se tudo é sempre perfeito? Das linguicinhas finas da abertura, ao costelão soberbo do encerramento. Por falar em Zé Abu, o Gran Colbert (Paris), até virar cenário do encontro inesquecível de Jack Nicholson e Diane Keaton, no filme "Alguém tem que ceder", era apenas mais um dos extraordinários restaurantes que fizeram a fama da França. A lista continua na próxima semana.

Banquetes de bochecha de boi

13 de janeiro de 2012 0

Anonymus Gourmet lembrou aqui na semana passada os encantos do churrasco do Abu, e foi inevitável a assombração do outro extremo, o banquete dos tempos de crise, descoberta de viagem muito própria para enfrentar as incertezas do euro: bochecha de boi. Exatamente: bochecha de boi!... Receita portuguesa. Uma delícia tradicional, feita de um ingrediente baratíssimo. Luiz Mór, vice-presidente da Tap, numa mensagem postada tempos atrás no Blog do Anonymus, garantia que, além de tudo, bochecha de porco é saborosa. Exemplo de um traço cultural de portugueses e de europeus em geral, traço que se aguça em tempos de incertezas: não desperdiçar nada, aproveitar tudo. Até as bochechas − do boi, do porco, do que estiver por perto.

A era da escassez e o fim do desperdício mal começam. Os nossos tormentos pareciam suficientes: devastação ambiental, aquecimento terrestre, o preço do petróleo, a violência, a corrupção, a dengue, a fragilidade e as incertezas das moedas fortes... Há algum tempo brilha no horizonte uma nova estrela: surfando na crise do primeiro mundo, a escassez dos alimentos, mais uma bomba relógio que aguarda pacientemente o momento de ocupar as manchetes.

É inevitável lembrar nessas horas John Gray, pensador britânico que estuda nossas catástrofes, advertindo que, em 1600, a população humana era de cerca de meio bilhão. Só na década de 1990, ela cresceu... meio bilhão! Nos últimos 50 anos a população humana do mundo dobrou. Gray acredita que uma população humana aproximando-se dos oito bilhões só pode ser mantida devastando a Terra. Ele imagina um cenário de habitats selvagens usados para cultivo humano e habitação, florestas tropicais transformadas em desertos ver­des, a engenharia genética possibilitando colheitas cada vez mais abundantes em solos cada vez mais debi­litados... Pouco restaria sobre a Terra além dos seres humanos “e do ambiente protético que os mantém vivos.”

O Brasil tem um rebanho que se aproxima das 200 milhões de cabeças de gado, em grande parte pastando em campos que já foram florestas na Amazônia. O dilema é desenvolver uma pecuária sustentada sem destruir o meio ambiente. Como harmonizar a convivência das florestas e do equilíbrio ecológico, com as pastagens e culturas indispensáveis? Será que o bife nosso de cada dia (ou mesmo a salada nossa) precisa destruir a Amazônia?

“Nunca pensei que o meu bife com salada fosse uma ameaça ao futuro humano”, diz Anonymus Gourmet, perplexo e sem apetite, talvez assustado diante da perspectiva de banquetes de bochecha de boi.

2012 começa com churrasco do Abu

06 de janeiro de 2012 3

A tradição gaúcha não pode ser quebrada. Depois dos cardápios variados da ceia de ano novo, abre-se a temporada dos churrascos de verão, na praia, na serra e na cidade. Anonymus Gourmet cumprirá o dever cívico de convocar para o primeiro churrasco de 2012 o grande Zé Abu, o assador dos assadores (não por acaso Abu foi a estrela da edição especial deste caderno de Gastronomia, sobre churrasco, no ano passado).

A festança vai durar três dias. A TVCOM e o Canal Rural vão documentar o acontecimento. Começará na próxima segunda feira, 9 de janeiro, e se prolongará pela terça, 10, e quarta, dia 11. Atenção para os horários. Na TVCOM, sempre às 20h, nos três dias; no Canal Rural, de manhã, sempre às 11h, segunda, terça e quarta. A dimensão planetária estará no www.clicrbs.com.br/anonymusgourmet , mostrando as imagens do paraíso carnívoro também aos amáveis espectadores e leitores que não nos abandonam em Belgrado, Shangai, Paris, Cartagena das Índias, Bournemouth, Lisboa, Guadalupe e tantos outros lugares longínquos que ficaram tão perto...

No ar, mais uma Saga do Churrasco em nossas vidas, estômagos e corações. Um crítico entusiasmado já se referiu à essa incrível e saborosa jornada como “um dos maiores churrascos do mundo”. A modéstia impediu Zé Abu de comentar o exagero, mas Anonymus Gourmet tomou a liberdade de fazer uma consideração: “Não temos a pretensão que seja ‘um dos maiores’, mas com certeza se inclui entre os melhores”. É um espetáculo que se repete há mais de 15 anos. O curioso é que a cada ano parece o primeiro. Algumas coisas permanecem imutáveis. As cuidadosas preliminares de queijos e linguiças, as lâminas afiadíssimas lentamente cortando finas fatias, fazendo derramar o suco fumegante das picanhas, antecipando garfadas gulosas: o refinamento do cardápio e o esplendor das carnes repete o alto padrão costumeiro. Ao mesmo tempo, é sempre diferente a luta para fazer das grossas toras de lenha uma boa fogueira, as brasas da imensa parrilla (com vista para o rio!) iluminando o divertimento dos personagens... Os personagens, Zé Abu e Anonymus Gourmet, resistem ao tempo, “esse velho cão infeliz” (na expressão de Paulo Mendes Campos) que luta para torná-los irreconhecíveis: os cabelos mais brancos e mais ralos, a barba do Abu − aquela inefável barba de profeta − severamente amputada! Não faltarão os incontornáveis brindes com bom champagne e, é claro, a “sórdida cerveja”, único lenitivo capaz de abrandar os 50º da boca da parrilla, que quase derreteu os personagens e seus microfones.


O ano que levou Scliar e Roche

30 de dezembro de 2011 0

A cena clássica da noite de ano novo se repete em mesas ricas e pobres, cálices de champagne de boa data ou espumante de bom preço, borbulhas subindo e se desfazendo no ar, alegorias que misturam lembranças e esperanças no balanço de fim de ano, com incontornáveis inventários das perdas e ganhos. Para Anonymus Gourmet, quando os cálices tilintarem na hora solidária e sempre comovente do brinde, entre outras saudades e recuerdos, será impossível deixar de lembrar que 2012 começará com duas ausências que, de formas opostas, ficarão para sempre na memória da cidade: Moacyr Scliar e o Monsieur Roche. Começamos o ano de 2011 perdendo Scliar e terminamos dezembro sem Alexandre Roche, primeira coincidência da oposiçāo amável entre ambos.

Scliar, uma alma tipicamente portoalegrense, sem nunca ter deixado de ser o menino do Bom Fim, tornou-se uma referência nacional e internacional, lido em toda parte, vestindo o fardão da Academia, conferencista no exterior, escritor traduzido, festejado e até plagiado num escândalo alheio em que se comportou como o cavalheiro de sempre. Dezenas de livros escritos num estilo claro e límpido, como um copo de água fresca. O mesmo estilo do articulista do dia-a-dia: fluente, informativo, agradável, o cronista Scliar tinha aquele encanto dos grandes conversadores. Na sua rica trajetória Moacyr Scliar foi, para nós que passamos a infância e a adolescência no território compreendido entre a Garibaldi e a Santa Terezinha, o garoto do bairro que, na boa linguagem hiperbólica dos locutores esportivos, conquistou o mundo. Monsieur Roche fez a trajetória inversa: em vez de levar Porto Alegre para o mundo, trouxe a Porto Alegre um mundo que nós na escuridāo ignorávamos, como no verso de Drummond. Com inelutável vocação de cittadino del mondo, nasceu na mítica Alexandria, participou da resistência francesa, contagiou nossa cidade com o melhor da língua e da cultura francesa, e emocionou mais de uma geração de alunos devotos com suas irresistíveis aulas de história, geografia, poesia, estratégia militar, guerras napoleônicas, política internacional, solidariedade humana, gramática, literatura… sempre ensinando a manejar com elegância a língua francesa. Não lhe faltou uma ponta de mistério: Roche teria sido inspiração de um dos personagens do inexcedível Quarteto de Alexandria, os quatro romances que compõem a tetralogia de Lawrence Durell - Justine, Balthazar, Mountolive e Clea - que comoveram a adolescência de muitos de nós incendiando sonhos de mudar o mundo e mudar a vida.

Um brinde a essas duas ausências de 2011, brilhantes e opostas, lembranças permanentes, que deixaram a cidade para sempre maior.

Comer uma obra prima

16 de dezembro de 2011 0

Vivemos a era do prato pronto. Uma das atividades comerciais que prosperam é vender o bife, o macarrão, o frango pré cozidos e temperados: basta uns minutos no forno de micro-ondas, e o jantar está na mesa.

Cozinhar em casa, preparar sua própria comida se tornará tão obsoleto como a caligrafia? Há uma constatação generalizada de que a maioria das crianças - por causa dos computadores e mensagens de texto - não conseguem mais escrever à mão, a não ser em letras de fôrma feitas com esforço. Mas a tragédia começou muito antes do computador e do telefone celular, acredita Umberto Eco que atribui o início da crise ao advento da caneta esferográfica. As primeiras esferográficas faziam muita sujeira e se, logo depois de escrever, você passasse o dedo sobre as últimas palavras, inevitavelmente provocava um borrão. E as pessoas não tinham mais interesse em escrever bem, uma vez que a escrita, quando feita com uma esferográfica, mesmo uma que não borrasse, não tinha mais alma, estilo ou personalidade.

Escrever à mão, usando um velho e bom lápis, ou uma caneta tinteiro de boa raça, é uma atividade que ainda tem vida e adeptos. Por incrível que pareça, existem pessoas que tomam um avião para aprender a arte de escrever à mão. Treze estudantes de nove nacionalidades europeias chegaram ao Museo Correr em Veneza para participar de um workshop internacional sobre escrita à mão livre, comandada pela artista e designer Monica Dengo. Entre os participantes do curso, que durou uma semana, não havia apenas iniciantes. O curso foi dirigido a calígrafos, artistas, designers e, em geral, para os amantes da escrita à mão.

Esse encantamento por exercitar o trabalho manual é um ato de resistência à dominação da tecnologia; é o mesmo impulso que move cozinheiros. O maior de todos, Ferran Adrià, fundador do legendário el Bulli, de saudosa memória, perguntou aos felizes convivas de uma mesa para a qual transportava uma de suas obras-primas: “Algum dia vocês imaginaram que iriam comer um quadro?” Diante das palmas e risadas aprovadoras dos comensais, completou com modéstia: “Provavelmente foi o sonho de muitos grandes artistas ao longo da História. E vocês estão realizando hoje.”

Garrafas? A gente pega pelo gargalo

09 de dezembro de 2011 0

A mesa é o território mágico de convivas bem escolhidos, porque depois dos primeiros cálices, enquanto desfilam as delícias e sabores, brotam confissões, declarações de amor, ódios antigos e culpas recentes, juramentos, relatos fantásticos, verdades difíceis de provar, mentiras fáceis de engolir. O calor aquece as almas e solta o verbo. Justamente por isso, nas reminescências e nostalgias de fim de ano, nos torneios de jantares e encontros de dezembro, Anonymus Gourmet gosta de lembrar um escritor hoje esquecido: Somerset Maugham.

Além de compor volumes iluminantes, Maugham também foi um esplêndido gastrônomo. Conta-se que, durante um jantar na Provence, uma jovem jornalista versada em vinhos desafiou-o, perguntando-lhe se sabia qual era a forma correta de segurar uma garrafa na hora de servir. A resposta de Maugham tornou-se um postulado insuperável da liturgia dos vinhos: “Garrafas, minha senhora, a gente segura pelo gargalo; mulheres a gente pega pela cintura”. Há quem duvide da experiência pessoal de Maugham em matéria de segurar mulheres. Mas, pelo menos do ponto de vista literário, ninguém penetrou tão fundo na alma feminina e ensinou com tanta maestria a arte da sedução como o Maugham de Maquiavel e a Dama. Anonymus Gourmet, com toda razão, vê nesse pequeno livro “um substancioso manual de instruções sobre como tomar de assalto um jovem coração feminino”.  Foi exatamente uma mulher, a Mildred, que enfeitiçou e degradou o pobre Philip Carey de Servidão Humana, livro que celebrizou o jovem médico William Somerset Maugham, do St. Thomas Hospital, de Londres, tornando-o reconhecido como um dos grandes escritores ingleses do século passado. Esse “grande escritor inglês”, na verdade, foi o mais francês dos britânicos. Nasceu e viveu até os nove anos em Paris, onde seu pai era conselheiro da embaixada da Inglaterra. Ali se educou e se deliciou desde cedo com os segredos da gastronomia francesa. “Nas mesas de Paris aprendi o horror à indulgência”, gostava de proclamar, sempre intransigente com o ponto do seu steak au poivre. Esse rigor gastronômico levou-o a trair o Reino Unido com uma ironia cruel: “Quem disse que não existe gastronomia britânica? É possível, sim,  fazer três ótimas refeições por dia na Inglaterra. Basta pedir o breakfast três vezes por dia.”

Anonymus nunca esquece e sempre repete, como lição indispensável de vida, uma advertência do grande escritor. Depois do jantar, Somerset Maugham apreciava um bom charuto - geralmente um inatacável Punch doble corona, “cuja sobrecapa era alisada na coxa de uma mulata cubana de Vuelta Abajo”. Nos dias finais de sua serena agonia, Maugham escreveu: “Quando eu era jovem e tinha pouco dinheiro, fiz vários planos para a vida adulta. Um deles: que teria sempre, depois do jantar, um pouco de conhaque acompanhado por um bom e caro charuto. Foi um dos poucos sonhos da juventude que realizei. E foi o único que não me decepcionou”.

O botão da blusa e o ponto da gema

02 de dezembro de 2011 0

Porto Alegre tem resistido bravamente a muitos de seus administradores. Mas, certas batalhas têm sido irremediavelmente perdidas. David Coimbra, na semana passada, nesta ZH, flagrou mais uma dessas amargas vitórias da mediocridade sobre a cidade: a avenida Salgado Filho, outrora um cativante bulevar, transformado num inóspito terminal de ônibus. Por certo que a cidade precisa de terminais de ônibus, mas fazer um deles numa de suas ruas mais aprazíveis tornou-se uma afronta perene.

Aqueles que são jovens há mais tempo, como dizia com delicadeza o Dr. Brizola, ainda lembram da Salgado Filho dos edifícios elegantes, das calçadas em que nas noites de verão era irresistível uma caminhada sem rumo, espiando vitrines de sonho. O cine São João, bem ali, por algum tempo foi o mais chique da cidade. Morar na Sangado Filho, que hoje é sinônimo de dor de cabeça, já foi indicativo de status: não exatamente status de riqueza, mas de bom gosto e refinamento. Os bares e restaurantes das proximidades eram repletos de histórias. Num deles, uma misteriosa índia de olhos verdes, atendente sempre muito séria e compenetrada, apaixonou uma geração de jovens repórteres: certa vez abriu “um sorriso de pérolas fosforescentes” (e também um botão da blusa) para um deles, que passou a gastar seu salário integralmente na Mônica, onde ela brilhava de madrugada. Anonymus Gourmet lembra com saudade de alguns lugares de boa gastronomia: o Corujão, por muitos anos o melhor chope da cidade, acompanhado por filés extraordinários; o Bon Ami, bem em frente, com um filé a parmagiana generoso e saboroso capaz de alimentar uma editoria de esportes inteira; o Gilbert’s, que tinha diversas alternativas de drinques e acepipes, e uma delas em que era absolutamente inigualável: o melhor presunto com ovos que Anonymus Gourmet já experimentou. A simples lembrança dá água na boca. Como se sabe, o presunto com ovos – e sua prima irmã, a omelete – estão entre as mais complexas elaborações da culinária mundial. São poucos ingredientes – ovos, presunto, manteiga e queijo, e naturalmente a destreza do cozinheiro – que precisam ser acionados com rapidez e eficiência. O ponto certa da gema, segundo Anonymus Gourmet, é um enigma quase indecifrável que aflige a história da cozinha há séculos: meio minuto de fogo a menos fica crua e desagradável, meio minuto a mais, vira um insosso ovo cozido. Quando o cliente pedia presunto com ovos, um experiente garçom do Gilbert’s ia direto para a cozinha, afastava o cozinheiro com um gesto seco, e preparava o prato. Só ele sabia decifrar o enigma do ponto exato da gema.

Champagne, para aceitar o mundo

25 de novembro de 2011 0

Talvez nem o autor, Rubem Fonseca, pudesse imaginar que, hoje, quatro décadas depois de lançado, O Caso Morel teria mais atualidade, - ou talvez mais realidade, - do que em 1973, quando foi publicado pela primeira vez.  É um livro para ser degustado, embora para almas mais sensíveis possa ser de difícil digestão. Aquela ficção que décadas atrás parecia uma espécie de exagero expressionista, lida hoje, ganha inesperada sintonia com a vida quotidiana. Em geral, da ficção se exige mais verossimilhança do que da realidade. O mundo real tem direito ao absurdo, ao despropósito e à irracionalidade, e todos acabamos conformados, com um sacudir de ombros e alguma frase feita do tipo: “É o mundo... O que se pode fazer?” Anonymus Gourmet, nessas horas, gosta de um cálice de champagne para aceitar o mundo.

A ficção de Rubem Fonseca é verdadeira como a vida real, e restaura com esmero seus absurdos e despropósitos. O clima de violência, a brutalidade, e as dolorosas expressões de desencanto que formam o ambiente de O Caso Morel, hoje, quando levantamos os olhos do livro, aparece como uma maldição da realidade, por toda a parte, nas páginas dos jornais, ou caminhando pelas ruas, muitas vezes entrando em nossas casas, vivendo perto ou, o que é pior, dentro de nós. Em 1973, a violência física e moral, as obsessões do sexo e da morte, pareciam coisas dos outros, que nada tinham a ver com a segurança do nosso mundinho de classe média instruída, mundinho naquele tempo assegurado e iluminado pela imagem do Brasil Grande, o país rutilante da moral e dos bons costumes, do “ame-o ou deixe-o”. Mas, aquelas falas que, décadas atrás, poderiam soar como insólitas deformações dos personagens estranhos do Rubem Fonseca, têm o caráter premonitório que define a grande literatura.

O Caso Morel é um caso de grande literatura. O artista Paul Morel está preso acusado de um crime, e poderia ser retratado nos versos de Paulo Mendes Campos: “suas rugas são prantos da véspera, caminhos esquecidos, rastros erradios de um caminho que não vai e nem volta”.  Talvez para reencontrar caminhos, resolve perseguir os próprios rastros, escrevendo um livro, um relato de sua vida. Conta com o auxílio de Vilela, personagem que aparece em outras histórias do autor e que, como o próprio Rubem Fonseca, é ex-delegado e escritor. Não faltam momentos de vertigem, mas a leitura segue o rumo como um barco sólido: no timão, o olhar abrangente de um dos grandes mestres da literatura brasileira, sensível às contradições sociais, mas especialmente atento às desesperanças individuais. A história se estrutura sobre a combinação engenhosa das conversas de Morel e Vilela com o livro que Morel está escrevendo, alternando opiniões sarcásticas sobre arte e literatura com memórias de sexo e diálogos desencantados. O texto límpido ilumina cenas sombrias do comportamento humano, que ganham força de cenas da vida real. Essa mistura borbulha, e cativa o leitor pelo brilho da escrita: a agilidade da narrativa tem a marca de um romance policial de primeira classe.