Esta semana foi o primeiro aniversário de uma saudade: Millôr Fernandes, nos abandonou em março do ano passado. Mas deixou sua inteligência e suas frases: “O gourmet é um comilão erudito”, escreveu ele, que apreciava a boa mesa e um cálice de vinho de boa data, talvez em consequência de sua origem italiana incontornável, chancelada pelo sobrenome materno: Viola. “Gastronomia é comer olhando prô céu” dizia o seu apetite italiano. Apetite que se revelava na preferência por um restaurante com fortes sabores e sotaques peninsulares, o Arlecchino, que lhe inspirou um poema amargo na antevisão da morte: “Quando eu morrer/Tenho certeza,/ Meus amigos vão sentir/ Muito por mim,/ E, jantando no Arlechino,/ Vão dizer que eu fui assim,/ Assim, assim & assim./ Mas não suspenderão/ Nem uma só/ Garfada de talharim.”
Esse ceticismo iluminava seu trabalho. Millôr, embora fosse um pioneiro em matéria de computador, não aceitava muito bem o livro para ser lido no computador, ou em outras “plataformas” virtuais. Ele enfrentou o debate com sua ironia soberba: “Anuncia-se um revolucionário conceito de tecnologia de informação, chamado de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas - L.I.V.R.O. Não tem fios, circuitos elétricos, pilhas. Não necessita ser conectado a nada, nem ligado. É tão fácil de usar que até uma criança pode operá-lo. Basta abri-lo!”
Em setembro de 1981, fizemos na revista Oitenta, da L&PM, uma longa entrevista com Millôr. Trinta anos atrás, nós, os jovens entrevistadores, nos considerávamos eternos, e encerramos as sete horas de animada conversa, com uma pergunta reveladora de que não pretendíamos perder um só minuto dessa eternidade: “O que move um cara como você, durante 43 anos, das 7 da manhã até as 8 da noite, enquanto os outros vão à praia e se divertem, o que faz com que este cara escreva? Que tipo de obsessão é essa?”
A resposta de Millôr Fernandes foi uma singela lição de vida: “Primeiro, não é obsessão, é profissão. É aquela história do bom tijolo. Eu estou lá fazendo o meu tijolo, e só entrego o que eu acho que está bom. Pode até estar ruim, mas eu não estou achando que é ruim, não. Além disso, não foram 43 anos confinados. Enquanto isso, graças ao bom Deus, eu tive enormes paixões, eu namorei as moças, eu viajei, eu fui e voltei, eu corri riscos, tive medos e muitas alegrias. E tudo isso ainda me deu o lucro marginal de estar aqui com vocês: oportunidade que eu obtive com o meu trabalho, na minha vida.”





