“Em cidades estranhas, dar um jeito de ir várias vezes ao mesmo restaurante, de preferência um lugar barato, vazio, mediano e próximo ao hotel.” O conselho do escritor Michel Laub é um dos itens do admirável programa de vida que ele publicou em sua coluna na Folha de S. Paulo, às vésperas de completar 40 anos. Entre as pérolas da longa lista: “Aceitar que entre os defeitos dos amigos podem estar a burrice e a falta de caráter.” E a última decisão brota por certo da origem meridional do autor: “Seguir comendo carne vermelha.”
Ainda não tinha lido a coluna de Laub, semanas atrás, em Veneza, quando entrei no simpático Piccolo Martini, perto da Piazza San Marco. O lugar, confortável e acolhedor, desperta, pela localização, desconfiança imediata: humm... será uma arapuca para turistas de passagem? Talvez sob medida para aqueles que chegam de manhã na cidade e partem no fim da tarde com a certeza: “Conheci Veneza!” Lembrei que muitos anos atrás, nossa equipe da TV ancorou ali, depois de uma jornada estafante, num fim de noite. Cautelosamente, pedimos pizzas e cerveja, e fomos dormir cedo, sem maiores considerações – mas nenhuma queixa do serviço, da pizza crocante e farta, ou do preço.
Essa segunda chance, muitos anos depois, na semana passada, foi na primeira noite veneziana, pela cômoda proximidade do hotel e pelo cansaço da viagem. Cheguei ali cheio de preconceitos e desconfianças com os garçons chineses, indianos e coreanos que se desdobravam em gentilezas... Pedi um básico para voltar logo ao hotel: spaghetti com molho de tomate e o sórdido acompanhamento de um refrigerante. Enquanto esperava, observei as paredes revestidas de boa madeira, as mesas com toalhas impecáveis, e o prato servido nem tão rápido que parecesse requentado, e nem tão devagar que sugerisse desprezo ao cliente.

A vasta opção de pratos belíssimos deixa qualquer um com as papilas gustativas prontas para o sacrifício.
A seguir, a degustação de um spaghetti impecável, a massa de primeira classe, servida no ponto exato de cocção, com molho de tomate delicado, e por cima um parmigiano ralado que perfumou o prato e o meu apetite. Como se não bastasse, uma pequena carta de vinhos – pequena apenas na extensão, porque não faltava qualidade e originalidade: vinho em cálice, não apenas o vinho simples, mas também um respeitável valpolicella e um rosso de montalcino que me fez desistir do refri.
No dia seguinte, e no outro também, me incluí entre os fregueses da casa e percorri o cardápio e a carta de vinhos prazerosamente durante uma semana. Como imaginou o Laub, “um lugar barato, mediano e próximo ao hotel”. Mas não era “vazio”, como ele sugeriu, porque a excelência, lamentavelmente, se espalha.












