Da série “filmes e livros que não envelhecem”. Revi esses dias, com o mesmo prazer de 15 anos atrás, Como água para chocolate, uma reflexão filosófica, digamos assim, sobre a gastronomia. A ideia geral é a exaltação dos sentidos, transformada numa história sedutora: o livro de Laura Esquivel superou a marca dos dois milhões de exemplares, e o filme, cujo roteiro ela escreveu sem trair nem o cinema e nem a literatura, teve platéias repletas e emocionadas em mais de vinte países. Tantos anos depois, resistiu ao tempo.
A história resiste e continua cativante porque funciona. Primeiro, funciona como celebração da cozinha, elevada a território mágico. Cozinhar não é um dever aborrecido a ser executado por uma dona-de-casa exausta e sem esperança, ou por empregadas contrafeitas, ou por alguém com pressa descongelando qualquer coisa num microondas. O bom desempenho na cozinha carrega, para Tita, o impulso de uma vocação e a urgência de um destino. “Amor”, segundo ela, era o seu maior segredo culinário.
Quando o mundo parecia desabar, Tita emergia de cada um de seus naufrágios agarrada à solidez do velho fogão a lenha, que governava como se fosse o timão que não pode ser abandonado numa tempestade. E se salvava da desesperança com o alento dos sortilégios que sabia retirar daquelas panelas gastas. Esses sortilégios, na forma de sabores às vezes insuspeitados, não eram resultados matemáticos de receitas bem executadas. As receitas, numa cozinha, são por certo indispensáveis como uma bússola em alto mar. Mas, receitas e bússolas se tornam instrumentos sem serventia se não houver, para decifrá-las, timoneiros como Tita, de rumos inabaláveis.
A história de Laura Esquivel também funciona como uma metáfora às vezes empolgante, às vezes dolorosa, sobre a supremacia dos sentidos. O paladar, o olfato e a atração sensual são amáveis fatalidades à espera.
A diferença de Tita é que ela se rende aos apetites e fatalidades. Como água para chocolate é um hino a essas saborosas rendições: seja nas cenas quase lúbricas em que os convidados se deliciam voluptuosamente à mesa, ou no esplêndido momento em que Tita, apesar da vida reconstruída por um afetuoso e paciente companheiro de conveniência, surpreende a platéia e “trai” o noivo, vivendo num instante irresistível a paixão da vida inteira. É desconcertante perceber que os impulsos sensuais reinam esmagadores sobre as certezas organizadas de nossa razão, feitas de acordos, resignações e desistências sem consolo.














