Albert Camus acreditava que certos livros extraordinários têm o encanto de banquetes: merecem ser saboreados com a companhia de um tinto de boa data. Essa boa idéia se aplica a uma grandiosa obra menor de Beckett. Trinta e oito anos antes de receber, em 1969, o Prêmio Nobel da Literatura, Samuel Beckett escreveu uma série de ensaios (Dante, Bruno, Vico e Joyce), que culminaria com o texto que revela todo o esplendor de seu talento: Proust, ensaio que —aproveitando a metáfora de Camus— não é um texto para leitura, mas sim um prato para degustação. Anos atrás, descobri na prateleira de uma pequena livraria um exemplar resplandecente do Proust, na excelente tradução brasileira de Artur Nestrovski (L&PM, 1986), há muito esgotada.

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Encontrei Nestrovski dois anos atrás em Lisboa: além de tradutor, é músico de sucesso, o que explica a afinação do texto traduzido. Estava no Martinho da Arcada, o bar de Fernando Pessoa e não tive tempo de dizer que abrir o pequeno volume da tradução do Proust foi como sentar à mesa de um banquete. Impressionante a sucessão de delícias daquelas linhas prodigiosas. Logo nas primeiras páginas, num ‘couvert’ inesperado e delicioso, Beckett surpreende com uma frase: “O engenho do Tempo na ciência da aflição”. A ‘entrada’, que, exatamente como dizia Salvador Dali, faz nossas papilas estremecerem, é o mergulho na desolação de Swann, quando recebe de sua mulher Odette a notícia que Forcheville (amante de Odette e, depois da morte de Swann, seu marido) vai ao Egito, na Páscoa. “Na verdade, está me comunicando que ela vai com Forcheville ao Egito, na Páscoa”, traduz Swann, arrasado. Beckett recorda a dimensão, ¾ gigantesca para Swann, ¾ dessa pequena tragédia pessoal, com a delicadeza e a consistência de um vinho Bordeaux de linhagem respeitável. O paladar é provocado pelas alusões breves ao sabor da eterna madeleine embebida em chá, e pela inefável ‘omelette à Duval’ de Françoise, a imortal cozinheira do lar dos Proust. Mas há, sobretudo, aquela aproximação direta da literatura com a gastronomia, muito mais banal e prosaica, quando acreditamos que algum texto é “delicioso”, ou coisa parecida: a sensação física, que não deixa de ser meio proustiana, de agrado, de gosto bem-vindo, diante da leitura.
No Proust de Beckett, não é exagero perceber aromas e sabores que emergem da leitura. Como prato principal no impecável banquete que Beckett nos oferece, há uma reflexão exemplar sobre a excelência do texto: “Para Proust, a qualidade da linguagem é mais importante do que qualquer sistema ético ou estético”. Na verdade, é uma trapaça elegante: para ele, Beckett, é que é assim. O banquete se resume a menos de oitenta páginas, sempre iluminantes. É possível que o encantamento e a perplexidade do leitor se misturem numa indagação: o que ele quer dizer, afinal? O próprio Beckett responde: “Nada tenho a dizer. Mas somente eu sei como dizer isso”.