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Uma feijoada digna desse nome precisa ter ambulância de plantão, disse Papai Sabe Tudo, usando a frase do inesquecível Stanislaw Ponte Preta, sem mencionar a autoria, diante do seu prato de onde emergia um monte fumegante de patas, orelhas, rabinho, costelinha, recobertos com muito feijão. A montanha úmida e escura era represada, nos limites da borda, por um cômoro de farofa e um espesso canteiro de couve. “Nenhum outro prato se presta ao exagero e à transgressão quanto a feijoada” – continuou Papai Sabe Tudo, mastigando uma orelha com expressão filosófica. A seguir, riu sacudindo a cabeça, enquanto espalhava uma nuvem de farofa entre os circunstanstes: “Só brasileiro mesmo para inventar um prato assim!...”
Anonymus Gourmet lembrou o combate no Zaire entre o inexcedível Muhammad Ali e o até então imbatível George Foreman. Anonymus sentia-se como Ali, nas cordas, apanhando severamente. Muhammad Ali, na maior luta da história do boxe, protegia apenas o rosto. Nem isso Anonymus, com o prato na mão, poderia fazer: estava à mercê dos perdigotos e da tempestade de farofa do Papai Sabe Tudo. Mas, como Ali, de repente, quando tudo parecia perdido, Anonymus conseguiu sair das cordas com uma frase que tinha a força de um jab de esquerda:
“Desculpe, mas a feijoada brasileira nada mais é do que uma cópia da feijoada transmontana, que existe há mais de mil anos. Cópia bastante fiel, por sinal. O porco, para as populações pobres do norte de Portugal, é um tesouro precioso. Pelo menos 500 anos antes da descoberta do Brasil, já existia, naquelas povoações esquecidas, a festa da matança do porco, que até hoje comemora o que, para eles, é o alimento essencial. Tudo é bem aproveitado, inclusive orelhas, rabo, pele e pata, salgados e consumidos no decorrer do ano, em feijoadas, junto com as lingüiças e costelinhas defumadas.”
Papai Sabe Tudo, acusando o golpe, fez um tímido muxoxo, muito surpreso, enquanto Anonymus, como Ali trinta e seis anos antes, saiu das cordas e atacou com vontade:
“A praticidade da mistura estimulou a propagação da feijoada pelas colônias portuguesas, ganhando adaptações no Brasil, em Moçambique, Goa, Macau, Timor Leste e Cabo Verde. As variações dessa culinária comum foram espalhadas pelos navios lusitanos entre as colônias.”
Papai Sabe Tudo não desabou como Foreman, mas pediu licença para ir ao banheiro.
“Você acha que fui rude?” – perguntou Anonymus a Madame Queiroz que, deliciada, assistia ao massacre.