Lisboa – O melhor quindim do mundo come-se aqui! – exclamou Dona Flor, em tom decidido, oferecendo a sobremesa logo depois da saborosa “feijoadinha” servida no Comida de Santo, antigo restaurante lisboeta com sotaque brasileiro. Dona Flor é a esposa do Tozé, o Antonio José Pinto Coelho, um português que há décadas encanta clientes de todas as nacionalidades com suas histórias de português com alma brazuca. Dona Flor gosta de brincar com os sotaques brasileiros: portuguesa, tem a maior facilidade em imitar com bom humor o jeito de falar de paulistas, mineiros, cariocas, gaúchos… A bravata sobre os quindins foi feita em idioma gaúcho, como diz o Almirante Vasco Marques.
Anonymus Gourmet, vacinado por uma longa vida de quindins equivocados, vacilou. E murmurou para a Rosarinho e o Almirante, que o acompanhavam: “Os vacinados… vacilam!” Um almoço tão perfeito, até aquele momento. Por que arriscar? Por que estragar tudo na hora da sobremesa, com um quindim qualquer, turbinado com farinha de trigo, corantes e outros ingredientes insólitos?
A sobremesa é o momento sublime de uma boa refeição, é o último acorde de uma sinfonia. É o último movimento, que pode por tudo a perder ou conquistar para sempre o coração e o palato do comilão. Pode até salvar uma refeição menos feliz: quantas vezes o prato principal não é lá essas coisas… e de repente uma sobremesa deslumbrante salva a pátria! A sobremesa é a última palavra. A última palavra é a que fica. A última palavra de Prometeu ecoa até hoje: “Resisto!” Resistir ou capitular diante um brasileiríssimo quindim desconhecido a ser enfrentado em pleno Príncipe Real, no coração de Lisboa? Lembrando também que receitas viajam mal, Anonymus decidiu ganhar tempo. Ainda sentia nas papilas gustativas o sabor intenso e agradável da “feijoadinha”, como o casal do Comida de Santo chamava simpaticamente seu saboroso feijão incrementado, acompanhado de laranja muito doce e esplêndida farofa. Anonymus Gourmet, então, pediu mais um gole do Vale do Nídeo, um tinto do Douro, de uma pequena vinha da Barragem de Foz Coa. O tinto vigoroso, aromático, encorpado, deu-lhe forças e coragem para o salto sem rede: “Que venha o quindim!” Na primeira colherada, as papilas abriram antigas cortinas da memória: os quindins da infância, da adolescência, do bar do Colégio; depois, jovem repórter, o quindim com café preto junto com Mario Quintana, Rogério e Appel na cantina da velha Folha da Tarde… O quindim da Dona Flor era perfeito. Com apenas três ingredientes: açúcar, ovo e coco. A mágica era como misturar os três ingredientes.
Dona Flor tinha razão: ali estava o melhor quindim do mundo. 