Os vinhos da região da Bairrada refletem uma tendência irresistível da riqueza vinícola de Portugal: o passado milenar deixou de ser consolo ou refúgio – e se transformou em inspiração e referência indispensável para a produção de vinhos modernos e surpreendentes. A Quinta de Encontro, em S. Lourenço do Bairro, na Anadia, é uma espécie de síntese expressiva desse conceito. O edifício que se vê de longe é a insólita réplica de uma pipa gigantesca entre as colinas cobertas de videiras: a provocação sugere o delírio felliniano de uma fonte inesgotável de vinho.
De certa forma é verdade. À medida que o visitante se aproxima de carro pela estrada sinuosa, revela-se a construção arrojada, de madeira clara, com instalações moderníssimas. O contraste do prédio em forma de pipa gigantesca homenageia a vocação vinícola da região. É o reconhecimento que o vinho áspero das velhas cantinas de séculos passados pode ser feito de outras formas, mas não deve ser esquecido. Aquele vinho antigo de consumo local é lembrado em cada detalhe com objetos e relíquias de outros tempos. Entretanto, esse compromisso secular, que por certo inspira as garrafas, se renova com tecnologia de última geração. A expectativa é que esse mix tradição-modernidade conquiste consumidores de muitos países.
No interior do edifício pipa, são elaborados vinhos brancos, tintos e espumantes buscando o gosto contemporâneo, com opções que vão desde a linha “Q do E” até o soberbo Encontro 1. O projeto permite a visão prática, pelo visitante de cada uma das páginas da biografia de um vinho, isto é, as diversas etapas do processo produtivo, desde a vinha até à prova. Há uma rampa circular que acompanha as paredes cilíndricas, permitindo a visão interna de um cenário de última geração, com os reservatórios de vinho, resplandescentes, em aço inoxidável. Essa modernidade é complementar e não destoa da paisagem externa: serena, dominada pelas vinhas e tendo como fundo as Serras do Caramulo e Bussaco. Por essa rampa interna se visita adega, loja, espaços de convívio e, como se não bastasse, um restaurante de absoluta excelência. No restaurante, percebe-se que chega até as panelas a ideia geral de convivência pacífica da modernidade com o cerne da tradição.
Os pastéis de bacalhau tiveram acrescentado um toque de refinamento indecifrável, os folheados de queijo da serra ganharam um pingo de mel no recheio que os torna irresistíveis. O almoço é impecável em todos os itens e até o prato de fundo, o incontornável leitãozinho assado inteiro, servido em postas escolhidas, transforma-se num manjar inesquecível. No cálice um coadjuvante que faz brilhar o sabor (e a boa digestão) do leitãozinho: um inesperado e muito gelado espumante… tinto!















