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Posts com a tag "zero hora"

A capital mundial da pimenta

15 de fevereiro de 2013 0

No carnaval, New Orleans, a amável capital da Louisiana, deixa transbordar duas inclinações centenárias de seu caráter: a irresistível vocação festeira e a pimenta. Para surpresa do Rio de Janeiro, da Bahia e do Recife, cartazes espalhados pela Bourbon Street e pelas adjacências anunciam: “New Orleans: um dos melhores carnavais do mundo”. E a grande festa é a terça feira gorda, o “Mardi Gras”, que começou na Louisiana em 1699, por influência dos colonizadores franceses. Tem música, dança e pratos típicos com muita pimenta, o ingrediente indispensável na rica cozinha da cidade: peixes, carnes, aves, saladas incendeiam os paladares dos visitantes.

Nos restaurantes, conta o chef John Huckleberry, os bifes são guardados na geladeira com um cuidado: para intensificar o gosto são previamente apimentados. Na hora de ser vir ao freguês, os garçons ainda oferecem o vidro com a pimenta que fez a fama da cidade. Não por acaso, New Orleans, além de reconhecida como capital mundial do jazz, considera-se uma espécie de capital mundial da pimenta. É uma saga que começou em 1868, quando, depois de ver seus negócios arruinados pela Guerra Civil americana, o banqueiro de New Orleans Edmund McIlhenny engarrafou as primeiras 350 garrafas do molho fabricado nos fundos de sua casa, em Avery Island, no sul do Estado da Louisiana. Usou pimentas que ele mesmo havia plantado com as sementes de Capsicum frutenscens secas, presenteadas por um amigo viajante.

Mardi Gras - que significa "terça-feira gorda" em francês - é conhecida por suas máscaras de gesso, colares e paradas com bandinhas durante todo mês antes do Carnaval. Foto: Infrogmation / creative commons


Decidiu chamar o molho de “Tabasco” e o sucesso foi imediato: a marca logo ganhou o mundo. Edmund segredou aos amigos: “Descobri uma mina de ouro.” Ele não descuidou do tesouro: antes de engarrafar, continuou até a morte a provar e aprovar pessoalmente o molho. A tradição prossegue, com a indispensável degustação de um membro da família. Hoje, o produto é distribuído em mais de 150 países, rotulado em 22 línguas e dialetos diferentes, transformando-se na marca do Estado de Louisiana mais conhecida do mundo. Cerca de 700 mil garrafinhas de 60 ml são produzidas por dia na fábrica da ilha de Avery.

A metáfora é irresistível. O gosto apimentado se aplica também aos costumes locais em matéria de festejos: a tradição de nudez do carnaval de Nova Orleans é secular, documentada desde 1889, com mulheres mostrando os seios. Até hoje, um ponto alto da festa é o desfile das garotas, geralmente universitárias, mostrando os seios. Nada a ver com pornografia, trata-se de um inocente costume secular: a tradição manda que, em troca, recebam inocentes colares, feitos de continhas coloridas, atirados pelo público.

Último suspiro do anjo iluminado

20 de abril de 2012 0

A velha questão que volta sempre: música no jantar. Anonymus Gourmet, que ainda hoje lê autores esquecidos, acha graça da frase de Talleyrand: “Música no jantar é sempre uma traição: ao maestro ou ao cozinheiro”. Acha graça, mas discorda amavelmente, porque adora jantar com Schubert. Ou jazz – dependendo do cardápio. O jazz ajuda a comer, beber e escrever.

Lobo Antunes diz que aprendeu a escrever com os saxofonistas de jazz, principalmente Charlie Parker, Lester Young e Ben Webster, o Webster da fase final, de Atmosfera para Amantes e Ladrões, “onde, se entende mais sobre metáforas diretas e retenção de informação do que em qualquer breviário de técnica literária”. Lobo Antunes lembra que Lester Young começou por tocar bateria. Certa vez, um crítico perguntou-lhe por que mudou da bateria para um instrumento de sopro, e Lester Young explicou: “Sabe, a bateria é complicada. No fim dos concertos, quando acabava de desarmá-la, já todos os colegas tinham ido embora com as garotas mais bonitas.” O fato de desejar ter também garotas bonitas levou-o, entre outras obras-primas, a These Fooling Things onde, segundo Lobo Antunes, “cada nota parece o último suspiro de um anjo iluminado.”


Lester Young


Na hipótese de Schubert ao jantar, Anonymus não esconde a preferência pelo Allegro Vivace, com a Royal Philharmonic Orchestra, regência de Jonathan Carney, com Ronan O’Hora ao piano. Em qualquer hipótese, na sobremesa, doce de ovos moles, sempre! Depois da sobremesa, num desses jantares frugais, já com o Allegro Giusto sonando, Anonymus recordou Schubert, num trecho do Livro de San Michele, do grande Axel Munthe (outro esquecido), antigo best seller da gloriosa Coleção Catavento, da Editora Globo: “Schubert tinha dezenove anos quando compôs a música para o Erlkönig de Goethe e enviou-lha com uma humilde dedicatória.

Nunca perdoarei ao maior poeta dos tempos modernos o não ter enviado uma palavra de agradecimento ao homem que imortalizou o seu poema. O gosto musical de Goethe era tão mau como o seu gosto artístico. Schubert nunca viu o mar, mas nenhum compositor, nenhum pintor, nem poeta algum, salvo Homero, nos fez compreender como Schubert, o calmo esplendor do mar, o seu mistério e as suas cóleras. Tinha 32 anos quando morreu na maior miséria, como tinha vivido. Nem sequer possuía um piano. Depois da morte, todos os seus bens terrestres, as roupas, os poucos livros e a cama, foram vendidos em hasta pública por sessenta e três florins. Numa maleta velha debaixo da cama, foi encontrada uma porção de canções imortais que bem mais valiam que todo o ouro dos Rothschild da sua Viena, onde viveu e morreu.”

Banquetes de bochecha de boi

13 de janeiro de 2012 0

Anonymus Gourmet lembrou aqui na semana passada os encantos do churrasco do Abu, e foi inevitável a assombração do outro extremo, o banquete dos tempos de crise, descoberta de viagem muito própria para enfrentar as incertezas do euro: bochecha de boi. Exatamente: bochecha de boi!… Receita portuguesa. Uma delícia tradicional, feita de um ingrediente baratíssimo. Luiz Mór, vice-presidente da Tap, numa mensagem postada tempos atrás no Blog do Anonymus, garantia que, além de tudo, bochecha de porco é saborosa. Exemplo de um traço cultural de portugueses e de europeus em geral, traço que se aguça em tempos de incertezas: não desperdiçar nada, aproveitar tudo. Até as bochechas − do boi, do porco, do que estiver por perto.

A era da escassez e o fim do desperdício mal começam. Os nossos tormentos pareciam suficientes: devastação ambiental, aquecimento terrestre, o preço do petróleo, a violência, a corrupção, a dengue, a fragilidade e as incertezas das moedas fortes… Há algum tempo brilha no horizonte uma nova estrela: surfando na crise do primeiro mundo, a escassez dos alimentos, mais uma bomba relógio que aguarda pacientemente o momento de ocupar as manchetes.

É inevitável lembrar nessas horas John Gray, pensador britânico que estuda nossas catástrofes, advertindo que, em 1600, a população humana era de cerca de meio bilhão. Só na década de 1990, ela cresceu… meio bilhão! Nos últimos 50 anos a população humana do mundo dobrou. Gray acredita que uma população humana aproximando-se dos oito bilhões só pode ser mantida devastando a Terra. Ele imagina um cenário de habitats selvagens usados para cultivo humano e habitação, florestas tropicais transformadas em desertos ver­des, a engenharia genética possibilitando colheitas cada vez mais abundantes em solos cada vez mais debi­litados… Pouco restaria sobre a Terra além dos seres humanos “e do ambiente protético que os mantém vivos.”

O Brasil tem um rebanho que se aproxima das 200 milhões de cabeças de gado, em grande parte pastando em campos que já foram florestas na Amazônia. O dilema é desenvolver uma pecuária sustentada sem destruir o meio ambiente. Como harmonizar a convivência das florestas e do equilíbrio ecológico, com as pastagens e culturas indispensáveis? Será que o bife nosso de cada dia (ou mesmo a salada nossa) precisa destruir a Amazônia?

“Nunca pensei que o meu bife com salada fosse uma ameaça ao futuro humano”, diz Anonymus Gourmet, perplexo e sem apetite, talvez assustado diante da perspectiva de banquetes de bochecha de boi.

2012 começa com churrasco do Abu

06 de janeiro de 2012 3

A tradição gaúcha não pode ser quebrada. Depois dos cardápios variados da ceia de ano novo, abre-se a temporada dos churrascos de verão, na praia, na serra e na cidade. Anonymus Gourmet cumprirá o dever cívico de convocar para o primeiro churrasco de 2012 o grande Zé Abu, o assador dos assadores (não por acaso Abu foi a estrela da edição especial deste caderno de Gastronomia, sobre churrasco, no ano passado).

A festança vai durar três dias. A TVCOM e o Canal Rural vão documentar o acontecimento. Começará na próxima segunda feira, 9 de janeiro, e se prolongará pela terça, 10, e quarta, dia 11. Atenção para os horários. Na TVCOM, sempre às 20h, nos três dias; no Canal Rural, de manhã, sempre às 11h, segunda, terça e quarta. A dimensão planetária estará no www.clicrbs.com.br/anonymusgourmet , mostrando as imagens do paraíso carnívoro também aos amáveis espectadores e leitores que não nos abandonam em Belgrado, Shangai, Paris, Cartagena das Índias, Bournemouth, Lisboa, Guadalupe e tantos outros lugares longínquos que ficaram tão perto…

No ar, mais uma Saga do Churrasco em nossas vidas, estômagos e corações. Um crítico entusiasmado já se referiu à essa incrível e saborosa jornada como “um dos maiores churrascos do mundo”. A modéstia impediu Zé Abu de comentar o exagero, mas Anonymus Gourmet tomou a liberdade de fazer uma consideração: “Não temos a pretensão que seja ‘um dos maiores’, mas com certeza se inclui entre os melhores”. É um espetáculo que se repete há mais de 15 anos. O curioso é que a cada ano parece o primeiro. Algumas coisas permanecem imutáveis. As cuidadosas preliminares de queijos e linguiças, as lâminas afiadíssimas lentamente cortando finas fatias, fazendo derramar o suco fumegante das picanhas, antecipando garfadas gulosas: o refinamento do cardápio e o esplendor das carnes repete o alto padrão costumeiro. Ao mesmo tempo, é sempre diferente a luta para fazer das grossas toras de lenha uma boa fogueira, as brasas da imensa parrilla (com vista para o rio!) iluminando o divertimento dos personagens… Os personagens, Zé Abu e Anonymus Gourmet, resistem ao tempo, “esse velho cão infeliz” (na expressão de Paulo Mendes Campos) que luta para torná-los irreconhecíveis: os cabelos mais brancos e mais ralos, a barba do Abu − aquela inefável barba de profeta − severamente amputada! Não faltarão os incontornáveis brindes com bom champagne e, é claro, a “sórdida cerveja”, único lenitivo capaz de abrandar os 50º da boca da parrilla, que quase derreteu os personagens e seus microfones.


O ano que levou Scliar e Roche

30 de dezembro de 2011 0

A cena clássica da noite de ano novo se repete em mesas ricas e pobres, cálices de champagne de boa data ou espumante de bom preço, borbulhas subindo e se desfazendo no ar, alegorias que misturam lembranças e esperanças no balanço de fim de ano, com incontornáveis inventários das perdas e ganhos. Para Anonymus Gourmet, quando os cálices tilintarem na hora solidária e sempre comovente do brinde, entre outras saudades e recuerdos, será impossível deixar de lembrar que 2012 começará com duas ausências que, de formas opostas, ficarão para sempre na memória da cidade: Moacyr Scliar e o Monsieur Roche. Começamos o ano de 2011 perdendo Scliar e terminamos dezembro sem Alexandre Roche, primeira coincidência da oposiçāo amável entre ambos.

Scliar, uma alma tipicamente portoalegrense, sem nunca ter deixado de ser o menino do Bom Fim, tornou-se uma referência nacional e internacional, lido em toda parte, vestindo o fardão da Academia, conferencista no exterior, escritor traduzido, festejado e até plagiado num escândalo alheio em que se comportou como o cavalheiro de sempre. Dezenas de livros escritos num estilo claro e límpido, como um copo de água fresca. O mesmo estilo do articulista do dia-a-dia: fluente, informativo, agradável, o cronista Scliar tinha aquele encanto dos grandes conversadores. Na sua rica trajetória Moacyr Scliar foi, para nós que passamos a infância e a adolescência no território compreendido entre a Garibaldi e a Santa Terezinha, o garoto do bairro que, na boa linguagem hiperbólica dos locutores esportivos, conquistou o mundo. Monsieur Roche fez a trajetória inversa: em vez de levar Porto Alegre para o mundo, trouxe a Porto Alegre um mundo que nós na escuridāo ignorávamos, como no verso de Drummond. Com inelutável vocação de cittadino del mondo, nasceu na mítica Alexandria, participou da resistência francesa, contagiou nossa cidade com o melhor da língua e da cultura francesa, e emocionou mais de uma geração de alunos devotos com suas irresistíveis aulas de história, geografia, poesia, estratégia militar, guerras napoleônicas, política internacional, solidariedade humana, gramática, literatura… sempre ensinando a manejar com elegância a língua francesa. Não lhe faltou uma ponta de mistério: Roche teria sido inspiração de um dos personagens do inexcedível Quarteto de Alexandria, os quatro romances que compõem a tetralogia de Lawrence Durell – Justine, Balthazar, Mountolive e Clea – que comoveram a adolescência de muitos de nós incendiando sonhos de mudar o mundo e mudar a vida.

Um brinde a essas duas ausências de 2011, brilhantes e opostas, lembranças permanentes, que deixaram a cidade para sempre maior.

Comer uma obra prima

16 de dezembro de 2011 0

Vivemos a era do prato pronto. Uma das atividades comerciais que prosperam é vender o bife, o macarrão, o frango pré cozidos e temperados: basta uns minutos no forno de micro-ondas, e o jantar está na mesa.

Cozinhar em casa, preparar sua própria comida se tornará tão obsoleto como a caligrafia? Há uma constatação generalizada de que a maioria das crianças – por causa dos computadores e mensagens de texto – não conseguem mais escrever à mão, a não ser em letras de fôrma feitas com esforço. Mas a tragédia começou muito antes do computador e do telefone celular, acredita Umberto Eco que atribui o início da crise ao advento da caneta esferográfica. As primeiras esferográficas faziam muita sujeira e se, logo depois de escrever, você passasse o dedo sobre as últimas palavras, inevitavelmente provocava um borrão. E as pessoas não tinham mais interesse em escrever bem, uma vez que a escrita, quando feita com uma esferográfica, mesmo uma que não borrasse, não tinha mais alma, estilo ou personalidade.

Escrever à mão, usando um velho e bom lápis, ou uma caneta tinteiro de boa raça, é uma atividade que ainda tem vida e adeptos. Por incrível que pareça, existem pessoas que tomam um avião para aprender a arte de escrever à mão. Treze estudantes de nove nacionalidades europeias chegaram ao Museo Correr em Veneza para participar de um workshop internacional sobre escrita à mão livre, comandada pela artista e designer Monica Dengo. Entre os participantes do curso, que durou uma semana, não havia apenas iniciantes. O curso foi dirigido a calígrafos, artistas, designers e, em geral, para os amantes da escrita à mão.

Esse encantamento por exercitar o trabalho manual é um ato de resistência à dominação da tecnologia; é o mesmo impulso que move cozinheiros. O maior de todos, Ferran Adrià, fundador do legendário el Bulli, de saudosa memória, perguntou aos felizes convivas de uma mesa para a qual transportava uma de suas obras-primas: “Algum dia vocês imaginaram que iriam comer um quadro?” Diante das palmas e risadas aprovadoras dos comensais, completou com modéstia: “Provavelmente foi o sonho de muitos grandes artistas ao longo da História. E vocês estão realizando hoje.”

Champagne, para aceitar o mundo

25 de novembro de 2011 0

Talvez nem o autor, Rubem Fonseca, pudesse imaginar que, hoje, quatro décadas depois de lançado, O Caso Morel teria mais atualidade, – ou talvez mais realidade, – do que em 1973, quando foi publicado pela primeira vez.  É um livro para ser degustado, embora para almas mais sensíveis possa ser de difícil digestão. Aquela ficção que décadas atrás parecia uma espécie de exagero expressionista, lida hoje, ganha inesperada sintonia com a vida quotidiana. Em geral, da ficção se exige mais verossimilhança do que da realidade. O mundo real tem direito ao absurdo, ao despropósito e à irracionalidade, e todos acabamos conformados, com um sacudir de ombros e alguma frase feita do tipo: “É o mundo… O que se pode fazer?” Anonymus Gourmet, nessas horas, gosta de um cálice de champagne para aceitar o mundo.

A ficção de Rubem Fonseca é verdadeira como a vida real, e restaura com esmero seus absurdos e despropósitos. O clima de violência, a brutalidade, e as dolorosas expressões de desencanto que formam o ambiente de O Caso Morel, hoje, quando levantamos os olhos do livro, aparece como uma maldição da realidade, por toda a parte, nas páginas dos jornais, ou caminhando pelas ruas, muitas vezes entrando em nossas casas, vivendo perto ou, o que é pior, dentro de nós. Em 1973, a violência física e moral, as obsessões do sexo e da morte, pareciam coisas dos outros, que nada tinham a ver com a segurança do nosso mundinho de classe média instruída, mundinho naquele tempo assegurado e iluminado pela imagem do Brasil Grande, o país rutilante da moral e dos bons costumes, do “ame-o ou deixe-o”. Mas, aquelas falas que, décadas atrás, poderiam soar como insólitas deformações dos personagens estranhos do Rubem Fonseca, têm o caráter premonitório que define a grande literatura.

O Caso Morel é um caso de grande literatura. O artista Paul Morel está preso acusado de um crime, e poderia ser retratado nos versos de Paulo Mendes Campos: “suas rugas são prantos da véspera, caminhos esquecidos, rastros erradios de um caminho que não vai e nem volta”.  Talvez para reencontrar caminhos, resolve perseguir os próprios rastros, escrevendo um livro, um relato de sua vida. Conta com o auxílio de Vilela, personagem que aparece em outras histórias do autor e que, como o próprio Rubem Fonseca, é ex-delegado e escritor. Não faltam momentos de vertigem, mas a leitura segue o rumo como um barco sólido: no timão, o olhar abrangente de um dos grandes mestres da literatura brasileira, sensível às contradições sociais, mas especialmente atento às desesperanças individuais. A história se estrutura sobre a combinação engenhosa das conversas de Morel e Vilela com o livro que Morel está escrevendo, alternando opiniões sarcásticas sobre arte e literatura com memórias de sexo e diálogos desencantados. O texto límpido ilumina cenas sombrias do comportamento humano, que ganham força de cenas da vida real. Essa mistura borbulha, e cativa o leitor pelo brilho da escrita: a agilidade da narrativa tem a marca de um romance policial de primeira classe.

O dono do fogão do Pampulhinha

18 de novembro de 2011 1

Desde a fundação, no longínquo 1971, Anonymus Gourmet se acostumou a encontrar no Pampulhinha um porto seguro para suas navegações gastronômicas. O Pampulhinha dos primórdios era um salão comprido e estreito, que logo se tornou acanhado para os comilões de todas as latitudes que se conformavam em aguardar. Longas e pacientes esperas por uma mesa que abriria as portas de um paraíso de frutos do mar de primeira classe. No fundo do salão, a cozinha tinha a marca dos grandes restaurantes da boa tradição: Jaime Pinheiro, o dono da casa, era também o dono do fogão.

Certa vez, depois de um daqueles almoços inesquecíveis, Jaime convidou Anonymus para conhecer as então futuras instalações da casa, na mesma avenida Benjamin Constant. Um lugar deslumbrante: salão, cozinha, adega, câmara fria, espaço para milhares de garrafas, mármores e granitos por toda parte… Anonymus ficou inconsolável: “O Jaime vai quebrar…” – comentou com Madame Queiroz que, solidária, escondeu uma lágrima furtiva.

Mas, não quebrou. O “novo” Pampulhinha ampliou o sucesso. Os clientes fiéis não precisaram mais esperar por uma mesa. E continuaram a se regalar com as grandes travessas, forradas por fresquíssimos legumes, hortaliças, cogumelos, aspargos verdes, brócolis, ervilha torta, etc., onde repousam lagostas que lembram páginas de Hemingway, camarões que lembram lagostas, cavaquinhas melhores que lagostas, atuns alimentados a caviar, congrios que cruzaram a cordilheira, linguados de sotaque francês… Conta a lenda que um freguês descobriu uma pérola em meio a um prato de ostras. Segundo Miss Taylor, que testemunhou o episódio à distância, não era uma pérola, era uma metáfora da perfeição do jantar.

E, como se não bastasse, a carta de vinhos… Não faltam tintos, brancos, rosés, champagnes e espumantes para harmonizar com as delícias da cozinha. Há duas adegas na casa. Na parte de baixo, abrindo para o salão, há uma caixa forte: um imenso cofre de verdade que pertencia a uma agência bancária que funcionou no local. Trata-se de outra metáfora: em vez de dinheiro e títulos de crédito, hoje ali estão, sob rigoroso controle de umidade e temperatura, algumas das garrafas mais preciosas produzidas no planeta: Petrus, Château Margaux, Mouton Rothschild, Lafite Rothschild, Romanée Conti, Montrachet, Vega Sicília, Brunello de Montalcini, Barca Velha, entre outros 5.000 rótulos de um total de 200.000 garrafas. Não há sede que resista.

Na cozinha, que pode ser observada do salão, é possível ver o segredo do sucesso: como nos velhos tempos, Jaime Pinheiro, pilotando o fogão, garante a honra do estabelecimento.

Memórias do Anonymus Gourmet - Sucesso na Feira do Livro

16 de novembro de 2011 0
Mais um sucesso na Feira do Livro na Feira do Livro: o lançamento do último livro de José Antonio Pinheiro Machado, o Anonymus Gourmet. Na noite de autógrafos, destaque para o Alarico, citado nos livro, e personagem importante dos programas da TV. A pedido dos leitores, Alarico sentou na mesa junto com Anonymus e autografou do início ao fim da festa de lançamento. Muita gente presente e grande repercussão das “Memórias do Anonymus Gourmet” (L&PM, 246 páginas). Carlos Maranhão, Diretor da Veja São Paulo, saudando o lançamento, escreveu: “Sua prosa continua irresistível e impecável.”


Anonymus Gourmet, desde o ano 2001, vem sendo um dos líderes de vendas na Feira do Livro de Porto Alegre, com os livros de receitas, que já venderam mais 400 mil exemplares. Este ano, a novidade foram as “Memórias”, um livro de textos, com as histórias das viagens e aventuras do Anonymus, no Brasil e no exterior, incluindo “degustações” literárias de seus autores favoritos, e muitos bastidores do programa da TV.
Comentando o lançamento, Pinheiro Machado disse atende uma parcela importante do público que reclamava um livro com o “lado” de jornalista e escritor do Anonymus:
“No dia a dia dos programas da TV, sempre tenho retorno das pessoas, que falam de sua preferências, às vezes com antagonismo radical entre aqueles que gostam de doces ou salgados, por exemplo. Entre as várias ‘tribos’ de nos acompanham, havia uma que estava, digamos assim, ‘desassistida’: os meus leitores, das crônicas que escrevo, há mais de 10 anos, às sextas-feiras, no caderno de Gastronomia da Zero Hora.”


Pensando nesses leitores, Anonymus Gourmet utilizou muitas de suas colaborações com Zero Hora, inclusive a longa matéria publicada sobre o melhor restaurante do mundo, o Noma de Copenhague. Mas o livro ganhou uma estrutura orgânica. Não é uma simples coleção de artigos de jornal:
“O livro foi escrito e reescrito inteiramente, da primeira à última página. Uma coisa é escrever para o jornal e outra para um livro que, necessariamente, tem um sentido de permanência”.
A pergunta inevitável: novos livros em projeto?
“Sim. Para o ano que vem VOLTAREMOS com uma seleção de novas receitas. E também um outro livro com novas crônicas, reportagens e relatos de viagem.”



Não digam a mamãe que sou jornalista

17 de outubro de 2011 0

Corrupção é a palavra mais citada nos jornais. As denúncias se sucedem. Sobre a mais recente, do fim de semana, uma afirmação do ministro do Esporte: os acusadores tem que provar a veracidade das suspeitas. Há uma certa confusão aí. Se alguém acusa, por exemplo, o colunista interino de um jornal, ou o dono de um mercadinho, por certo tem que provar. No caso de uma autoridade pública, o ministro tem que provar diariamente não apenas que é inocente, mas que é eficiente e necessário. Se a acusação for falsa, a Lei e a Justiça oferecem pesadas punições. Mais do que isso, o jornal ou revista que acusar indevidamente terá pela frente a pior das sentenças: o descrédito dos seus leitores. Esse é um tribunal implacável. A espada afiada da frágil confiança do público diariamente pende sobre a cabeça dos jornalistas. Nunca esqueço da advertência de um precioso livro de normas de redação do jornalista Carlos Maranhão: num texto de 200 linhas absolutamente corretas, basta um único erro, uma imprecisão na última linha, para que o leitor duvide da exatidão de tudo o que leu antes.

Joseph Pulitzer, o jornalista e empresário que, no início do século passado, fundou o moderno jornalismo nos Estados Unidos, enumerava a seus repórteres três exigências para a publicação de uma matéria: “precisão, precisão e precisão”. O seu jornal, The World, praticava um jornalismo rigoroso, denunciando e combatendo a corrupção política: orgulhava-se de ser “um defensor do lado das pessoas e um porta-voz da democracia”. Não hesitou em lutar ao lado dos operários por menos horas de trabalho e melhores condições de vida para os pobres, irritando as grandes companhias e monopólios laborais.

         Os príncipes se irritam com o conhecimento da verdade, quando ela se opõe aos seus fins ou impede seus propósitos, escreveu o jornalista espanhol Juan Luis Cebrián, autor de um livro sobre o jornalismo e as dificuldades para exercer com correção e eficiência essa profissão: O pianista no bordel. O título usa a ironia de um ditado espanhol: “Não digam à minha mãe que sou jornalista, prefiro que continue pensando que toco piano num bordel.” Cebrián é diretor-fundador do El País, que começou a circular em 1976, durante a transição da Espanha, da ditadura de Franco para a democracia, e um dos administradores do francês Le Monde. Os dois jornais, desde sempre, se tornaram referências na busca da isenção e na despreocupação em desagradar os personagens de suas notícias e reportagens. Ninguém escapa, constata o autor com certa amargura: “Literatos, intelectuais e também muitos renomados jornalistas, depois de exaltar as sublimes funções dos jornais, acabaram por abominá-los”. O exemplo do grande Balzac é sugestivo: quando era elogiado, adorava os jornais; mas, quando recebeu críticas, mudou de lado e escreveu: “Se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la.”