No carnaval, New Orleans, a amável capital da Louisiana, deixa transbordar duas inclinações centenárias de seu caráter: a irresistível vocação festeira e a pimenta. Para surpresa do Rio de Janeiro, da Bahia e do Recife, cartazes espalhados pela Bourbon Street e pelas adjacências anunciam: "New Orleans: um dos melhores carnavais do mundo". E a grande festa é a terça feira gorda, o "Mardi Gras", que começou na Louisiana em 1699, por influência dos colonizadores franceses. Tem música, dança e pratos típicos com muita pimenta, o ingrediente indispensável na rica cozinha da cidade: peixes, carnes, aves, saladas incendeiam os paladares dos visitantes.
Nos restaurantes, conta o chef John Huckleberry, os bifes são guardados na geladeira com um cuidado: para intensificar o gosto são previamente apimentados. Na hora de ser vir ao freguês, os garçons ainda oferecem o vidro com a pimenta que fez a fama da cidade. Não por acaso, New Orleans, além de reconhecida como capital mundial do jazz, considera-se uma espécie de capital mundial da pimenta. É uma saga que começou em 1868, quando, depois de ver seus negócios arruinados pela Guerra Civil americana, o banqueiro de New Orleans Edmund McIlhenny engarrafou as primeiras 350 garrafas do molho fabricado nos fundos de sua casa, em Avery Island, no sul do Estado da Louisiana. Usou pimentas que ele mesmo havia plantado com as sementes de Capsicum frutenscens secas, presenteadas por um amigo viajante.

Mardi Gras - que significa "terça-feira gorda" em francês - é conhecida por suas máscaras de gesso, colares e paradas com bandinhas durante todo mês antes do Carnaval. Foto: Infrogmation / creative commons
Decidiu chamar o molho de "Tabasco" e o sucesso foi imediato: a marca logo ganhou o mundo. Edmund segredou aos amigos: "Descobri uma mina de ouro." Ele não descuidou do tesouro: antes de engarrafar, continuou até a morte a provar e aprovar pessoalmente o molho. A tradição prossegue, com a indispensável degustação de um membro da família. Hoje, o produto é distribuído em mais de 150 países, rotulado em 22 línguas e dialetos diferentes, transformando-se na marca do Estado de Louisiana mais conhecida do mundo. Cerca de 700 mil garrafinhas de 60 ml são produzidas por dia na fábrica da ilha de Avery.
A metáfora é irresistível. O gosto apimentado se aplica também aos costumes locais em matéria de festejos: a tradição de nudez do carnaval de Nova Orleans é secular, documentada desde 1889, com mulheres mostrando os seios. Até hoje, um ponto alto da festa é o desfile das garotas, geralmente universitárias, mostrando os seios. Nada a ver com pornografia, trata-se de um inocente costume secular: a tradição manda que, em troca, recebam inocentes colares, feitos de continhas coloridas, atirados pelo público.













