
Firenze
Querido diário,
Hoje novamente o sol nos abençoou com sua luz resplandecente. É uma alegria acordar em Firenze sob um céu azul e em meio à ebulição cultural da cidade.
Esta manhã aconteceu algo muito estranho. Acordei às 6 horas bem desperta e sentei para minha meditação diária. Ao final, senti um sono imenso e incomum e dormi novamente, então sonhei que caminhava pelas ruas de Florença e deveria ser aí pelos anos 1.400. Esta mulher em que me vejo é ruiva, deve ter em torno de 30 anos e é cega do olho esquerdo, tem o olho direito verde, mas o esquerdo é todo branco, como se a íris estivesse coberta. Ela caminha conversando com um amigo até chegar à sua casa, uma das construções do centro da cidade, com dois andares. No andar de baixo tem a cozinha, a sala e outras dependências. Ao subir as escadas há dois quartos na frente, um é dela e o outro de um parente muito próximo, um(a) filho(a) ou irmã(o). Aparentemente ela não é casada, o que seria muito raro naqueles tempos. Na parte de trás do piso superior tem uma botica de farmacêutico, com ervas e óleos onde ela prepara os remédios e unguentos. No sonho consigo perceber a tranquilidade com que ela manuseia tudo e a satisfação que encontra nisso. Ela parece ser de origem judaica, tanto pela aparência como por alguns símbolos que estão espalhados, porém tudo isso parece muito incomum para aquela época.
Foi um sonho longo, como se fosse uma vivência de memórias. Quase perco o café da manhã por conta disto, mas dá tudo certo. Creio que o sonho tem a ver com minha tarefa neste dia. Estou desenvolvendo uma pesquisa para minha tese de pós-doc, é uma investigação sobre o campo da consciência e percebi uma coincidência histórica. Todos sabemos da concentração de gênios que ocorreu na Renascença, mas ninguém ainda conseguiu explicar porque isto aconteceu.
Bemmmm, pois eu tenho uma tese. Percebi uma coincidência histórica que talvez possa nos ajudar a entender melhor os processos da consciência e a manifestação do gênio humando. Me dei conta que o advento que ocorre na Europa antes do renascimento é o ciclo das grandes navegações pelo oriente, com o comércio de especiarias. Os maiores consumidores desses produtos eram a Itália e a França, até hoje duas escolas de gastronomia que tem hegemonia no mundo por sua qualidade e sabor. O interessante é que a Renascença não é um fenômeno Europeu, mas, especialmente italiano e francês. Claro que há um ou outro gênio que aparece na Alemanha, Inglaterra, Espanha, mas a grande concentração mesmo se dá na Itália e na França.
Hmmm, isso me fez pensar. Quando estive pela primeira vez na Índia em 2005, aprendi que quando uma criança é percebida como um vidente, recebe uma dieta especial de diversos tipos de pimentas e outros condimentos para que possa abrir completamente sua percepção. Talvez, se no oriente se usa para esse fim, então as especiarias devem ter impacto sobre os processos da consciência. Se for assim, a entrada desses produtos em larga escala e grande concentração num determinado e mesmo tempo podem ter gerado condições únicas para consciência humana e despertado a genialidade de tantos indivíduos num mesmo lugar e tempo histórico.
E por que isso não aconteceu no oriente? Bem, tanto na Índia, como na China e Oriente Médio, os povos foram descobrindo as especiarias aos poucos, ao longo dos séculos e por isso as frequências da consciência foram se adaptando também paulatinamente. O que não ocorreu na Itália e França, os maiores consumidores de especiarias, que as consumiram todas de uma hora para outra e em grande quantidade. Isso pode ter gerado uma nova química cerebral e despertado sensores até então não utilizados pelo europeu medieval. Aliás, a alimentação medieval era puramente baseada em gordura, como são até hoje os tradicionais pratos ingleses e alemães.
Bem, essa dieta especial pode ter permitido que alguns indivíduos com capacidades criativas e intuitivas acima da média, pudessem despertar seus dons e talentos de uma única vez e ao mesmo tempo. Essa é uma tese que ainda precisa ser pesquisada claro, mas hoje dei os primeiros passos nessa direção.
Visitei a Biblioteca do Renascimento, para uma pesquisa pré agendada há mais de três meses. Nesse local encontrei à minha espera dois senhores simpatissíssimos. Giuseppe e Giovanni - que, pela aparência, devem ser contemporâneos de Leonardo Da Vinci - e que cuidam da biblioteca há mais de 40 anos. Eles convivem há tanto tempo que até estão parecidos, aliás parecem gêmeos, mas descubro que nem parentes são.
Eles me conduzem e me ajudam muito na pesquisa. Entramos numa sala climatizada a 19°, usando luvas e máscaras e tenho acesso a 17 páginas de diários de famílias da época da renascença, já pré selecionadas, num trabalho primoroso que esse encantadores senhores haviam feito por mim.
Fico fascinada com a leitura do material, tão rico e tão cheio de informações sobre a culinária e os efeitos que isso provocava nas pessoas. Encontro duas evidências que poderão ajudar muito na construção do argumento de minha tese. Estou feliz, feliz. Saio da biblioteca e fico surpresa de ainda encontrar um dia brilhante, parece que fiquei anos ali, mas foram só poucas horas. A Lu está aproveitando este tempo para descobrir mais dos tesouros e belezas da cidade.
Combinamos de à tarde irmos até um outlet nas cercanias de Florença para investigarmos as ofertas das grandes marcas da Itália e de outras partes da Europa: Giorgio Armani, Valentino, Balenciaga, Yves Saint Laurent, Dior, e por aí vai.
O caminho é mais uma vez de uma beleza ímpar. Seguimos pelo vale do Arno, numa encantadora tarde ensolarada, com o rio espelhando o verde ao redor e montanhas cheias de poesia. Parece que atravessamos um território de contos de fadas. Mesmo que a gente não encontre nada de bom no mall já valeu o passeio. Mas, é claro que tem muita coisa boa nos esperando e a Lu encontra presentes para várias pessoas amadas (aguardem pessoal, vocês vão adorar) e um vestido espetacular de seda preta da Diesel, bordado, com uma regata de renda por baixo. Lindo. Mas, ainda mais lindo porque ela paga só 38 euros por isso e ainda tem tax free. Dá para acreditar? Parece que ela andou polindo a estrela neste dia, não é mesmo? Uma ótima e proveitosa sorte, sem dúvida.
Desta vez passei incólume, pois vi muita coisa bonita, mas estou já bem feliz com as compras feitas em Positano...ao menos por enquanto...
Voltamos já à noitinha para Firenze e em frente ao hotel encontramos um ristorante muito charmoso, com um pizzaiolo simpático e um sorriso cordial. A Lu se aventura num calzone de queijo que é uma festa para os olhos e eu peço um spaguetti a la carbonara. Também nos damos conta que precisamos comer mais salada e como boas meninas traçamos juntas uma apetitosa salada verde de alface e rúcula, com tomates e quatro queijos - prato, gorgonzola, grana padano e emental. Uma delícia, saboreamos tudo e desta vez, apesar de não termos almoçado não nos sobra energia para a sobremesa. Reservaremos isso para outra hora.
O dia foi fenomenal e amanhã vamos visitar Pisa, mas disso contarei só domani.