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A arte de escrever

29 de agosto de 2011 0

Acabo de voltar de uma imersão de cinco dias sobre a arte da escrita com James Mcsill e Richard Krevolin, duas pessoas talentosas, bem sucedidas e incríveis mestres de como contar bem uma história.

Hoje inicio um novo capítulo como escritora (literalmente) e quero fazer um “making off” de como escrever um livro, com a metodologia e as dicas que aprendi, contando também os percalços e as dificuldades.

Espero a participação de vocês para compartilharmos ideias e aprendermos juntos.

Abraços fraternos

Encontro com Bill Clinton

10 de agosto de 2011 0

Bill Clinton

Fui convidada pelo ex-presidente americano Bill Clinton para participar de um grupo com 80 lideranças da paz de diversos países, para juntos elaborarmos um projeto para uma cultura de paz no mundo.

O encontro aconteceu em Nova York e haviam pessoas da Ásia: Japão, China, Tailândia, Coréia e Índia. Do Oriente Médio: Israel, Egito e Marrocos. Do continente africano: África do Sul, Moçambique, Angola e Guiné Equatorial. Da Europa: Inglaterra, Escócia, Irlanda, França, Alemanha, Holanda, Itália, Turquia, Dinamarca, Suiça, Suécia, Espanha, Grécia e República Tcheca. Do continente americano: Brasil, México, Costa Rica, Estados Unidos e Canadá.

O que fez meu coração se acelerar e minha alma cantar de alegria foi a oportunidade de ouvir o que essas pessoas, quase anônimas, através de uma rede de voluntários, estão fazendo pela paz no mundo. Uma coisa que me chamou muito a atenção foi perceber o quanto nossas dificuldades e sonhos se assemelham.

Falou-se naturalmente na falta de recursos e na forma quase milagrosa de dar conta dos desafios. Era consenso que todos os projetos recebiam uma ajuda que estava além da capacidade do grupo ou que pudesse ser explicada de forma tangível. Cada um na sua crença, religião (tínhamos representantes de múltiplas práticas religiosas), sistema de valores e forma de operar, tínhamos todos a convicção que havia uma sustentação intangível, sutil, que nos proporcionava condições de fazer acontecer mesmo quando a probabilidade era nula.

Essa reunião foi a primeira de uma série que ocorrerão por dois anos, que é o prazo para nosso grupo terminar a elaboração de um programa global de cultura de paz. A Fundação Bill Clinton, sob comando e inspiração de seu fundador, concebeu a Clinton Global Initiative, um conjunto de quatro grandes projetos globais: cultura de paz, que nosso grupo será responsável; sustentabilidade e meio ambiente; mediação em zonas de conflito e apoio a refugiados de guerra; e prevenção e cuidados para crianças vítimas de violência.

Todos os grupos são formados por ativistas nestas áreas e coordenados pessoalmente por Bill Clinton, com uma equipe de suporte profissional e muito competente. Isso me dá muito entusiasmo e a esperança de que agora chegamos a um novo patamar de realidade. A partir do plano a fundação vai buscar com parceiros os recursos para colocar o programa em prática e fazer com que o maior número de pessoas no mundo possa se beneficiar dos conteúdos e das atividades que estamos concebendo.

Neste primeiro encontro experimentei na prática a visão de Bahá’ú’lláh, o fundador da Fé Baháí: “O planeta é uma só nação e todos os seres humanos são seus cidadãos.” Me senti, verdadeiramente, uma cidadã do mundo, percebi os desafios de cada povo como o meu próprio e compartilhei dos sonhos e esperanças como aqueles que eu mesma elegeria para conduzir a vida. Todos nos sentimos assim e diria que este é o primeiro e decisivo passo para orquestrarmos juntos uma nova humanidade.

New York

02 de junho de 2011 0

May Peace Prevail On Earth

Queridos Amigos,
Na próxima segunda feira, dia 06/06/2011, estarei em Nova York para participar de uma reunião convocada e coordenada pelo ex-presidente
americano Bill Clinton.

Seremos 80 lideranças de várias partes do mundo e o propósito é iniciarmos um processo para desenvolver um plano
de cultura de paz para o mundo.

Todos os participantes são ativistas
de cultura de paz e levarão contribuições para compartilharmos idéias,
saberes, experiências e sonhos.
Como tecelã da rede UNIPAZ, estou levando a metodologia e a
experiência da UNIPAZ, do CIT e também solicitei ao Mauro Pozatti e a
Lúcia Torres material para levar o programa Guardiões do Amanhã, com o
maravilhoso movimento dos Guerreiros e Tendeiras.
Espero que minha participação seja efetiva e que possa representar
nosso movimento de forma feliz, harmoniosa e positiva.
Desde já peço a benção e a melhor vibração de todos, pois buscarei ser
a voz de cada um e de todos nós.
É uma honra e um privilégio poder representá-los e estou muito feliz
pela oportunidade de servir neste momento como um instrumento de
propagação desse conhecimento tão transformador, dessa pedagogia
iniciática.
Estou com vocês e a serviço.
Om Shanti!

Gratidão...

15 de abril de 2011 0

Olá meninas e meninos,

Gostaria de compartilhar uma data muito especial para mim.

Dia 14.04.1991 dei minha primeira aula na FURB – Universidade de Blumenau.

Este ano estou completando 20 anos de profissão como educadora e

palestrante e me sinto tão honrada e privilegiada pela oportunidade de servir através desse caminho.

O tema de meu ano é Gratidão e quero compartilhar aqui a gratidão por todas as oportunidades de crescimento e aprendizagem que a vida tem me proporcionado.

Com o coração em festa, deixo meu abraço fraterno, compreendendo que o melhor da vida é seguirmos em alegre companhia no mutirão da transformação coletiva.

Diário de Viagem Rumo à Liberdade XIII

16 de março de 2011 0

Porto


No décimo quarto dia de nossa viagem vamos fazer o caminho de volta à Roma, mas nossa sensação não é de retorno, mas de um novo começo. Algo se modificou profundamente em nós nestas duas semanas de viagem. Não dá bem para definir, mas o sentimento é de alegria, completude, expectativas positivas, otimismo. Como se estivéssemos mais prontas para a jornada que se estende à nossa frente, seja lá do que seja composta.

Descobrimos muito sobre nós mesmas e sabemos um pouquinho mais sobre os desafios que nos cabe transcender. Tudo perfeitamente caótico ou confusamente ordenado, como costuma ser a vida. Essa peregrinação à busca da liberdade nos levou mais perto de compreender o que seja isto, apesar de não ser ainda um ponto final ou conclusivo.

Descobrimos que liberdade não é independência, ou seja, não é um estado de isolamento, solidão ou não conexão. Não é não depender, nem não ter dependentes. Mas também, naturalmente, não é um estado de dependência. Seria mais uma condição de interdependência, onde podemos dar e receber na mesma e adequada medida. Contudo, talvez ainda tenhamos uma trilha a fazer e chegar a um estado de inter-independência, onde seres independentes se relacionam e se conectam em todas as áreas da vida. Falo disso em tese, lógico. Não experimentei este estado, mas acredito que ele existe e que seja possível alcançá-lo, entretanto demanda um trabalho consciente de desprendimento, auto-responsabilidade, clareza de propósitos e, especialmente, amorosidade e compaixão. Talvez ainda não estejamos nesta condição, mas creio firmemente que podemos nos colocar na trilha para ela.

Também descobrimos que liberdade não é não possuir coisas, mas não ser possuído por elas. O desapego necessário para desfrutar sem se apropriar, entendendo que a fluidez da vida demanda desprendimento das coisas, das pessoas e dos momentos. Liberdade talvez não possa ser simplificada como desapego, mas seguramente não é apego, posse, ciúme ou inveja – as diferentes formas de aprisionamento em que nos colocamos na vida. Quando nos liberamos dos grilhões destes estados de relações com o mundo, não só nos sentimos mais livres, como toda a dor e sofrimento imediatamente cessam.

Bem, quem sabe, liberdade tenha a ver com ausência de sofrimento, estar livre da dor, estar em sereno estado de bem estar, porém, também acredito que não seja um estado de indiferença à dor alheia, mas de, compassivamente, compreender e acolher as possibilidades de cada um, lembrando o sensível poeta Fernando Pessoa: ¨Nunca ninguém se perdeu, tudo é verdade e caminho¨.

Fazemos o percurso até Roma em serenidade silenciosa, ouvindo música italiana romântica e degustando mais um pouco da paisagem. No décimo quinto dia embarcamos para o Porto, em Portugal, onde passamos uma noite. Chegamos no meio da tarde e aproveitamos para visitar o centro e passear pelas lojas. Os preços estão ridiculamente baratos nas liquidações de inverno, mas já estamos bem contentes com o que adquirimos na bella Itália.

Temos só mais uma missão a cumprir, saborear um autêntico bacalhau português. No calçadão da Rua Santa Catarina, no coração do Porto, encontramos o encantador Café Majestic, uma casa linda do Século XVIII, com uma decoração fin de siécle e um cardápio que enche a boca d´água. Um piano de calda enfeita o salão e um pianista nos encanta com músicas suaves tornando o clima ainda mais agradável. Temos que ressaltar a cortesia e a gentileza de nossa garçonete. Tudo fantástico, especialmente o bacalhau – hmmm, delicioso. Mas, ainda cometemos o pecado extra de um creme brulée.

Depois de uma boa noite de sono estamos no décimo sexto dia de nossa viagem e vamos começar nosso retorno ao Brasil. Nosso sentimento é de gratidão e há muito mesmo a agradecer. Queremos registrar nossas graças e desejar todas às bênçãos ao anjo da guarda Egídio, que cuidou para que nossa viagem fosse tão tranqüila e feliz. Também agradecer ao Arthur e à Victória pelo apoio constante e amorosidade permanente, ao amigo Ilceu pela ancoragem. Nosso abraço apertado e feliz ao Marchezan que nos emprestou sua Libertá, o GPS que nos guiou por tantos caminhos.

Muita gratidão à Renata e à Daniela, coordenadoras do portal L´Aura, que acolheram tão prontamente a  idéia do diário e nos estimularam a escrever com intensidade e profundidade. Gratidão aos nossos amigos queridos e à todos aqueles que estiveram conosco nesta viagem e acompanharam nossas aventuras enviando sua boa energia. Queremos dizer que adoramos as mensagens, as partilhas, os testemunhos e os feedbacks. Muito bom ter viajado com tanta gente legal.

Agora, estamos no avião já cruzando o Atlântico e nos parece que uma fase foi concluída. Estamos prontas e abertas para os próximos passos, ainda com maior convicção que tudo é perfeito como é.

Ainda volto para contar as aventuras de novas viagens. Ciao!

Diário de Viagem Rumo à Liberdade XII

13 de março de 2011 1


Ponte Rialto sobre o Grande Canal

Querido diário,
Hoje acordamos com uma missão específica entre as muitas coisas nada específicas que desejamos fazer. Queremos visitar a Galeria de Arte Moderna de Veneza, porque vemos no hall do hotel a divulgação de uma mostra de Sonia Ros, Lupus in Fabula! Ah, não podemos perder o caminho das lobas. Começamos nosso périplo rendendo nossas homenagens à beleza da Piazza San Marco e desfrutamos de seu encanto por alguns minutos antes de nos aventurarmos, munidas de mapas e recheadas com o espírito da aventura, pela labiríntica rede de vielas em direção à Galeria.


No caminho passamos por várias praças pontuadas por poços e tiramos fotos de cada lugar, entendendo que são marcos da jornada que estamos trilhando. Naturalmente nos perdemos no emaranhado de vias e  vamos para muito além da Galeria, na Ponte da Ferrovia. Voltamos sobre nossos passos e desfrutamos da delícia de não ter a menor idéia de onde estamos. É uma incrível experiência se perder em Veneza, pois parece que nos está sendo entregue outros tesouros para serem apreciados. O caminho é todo pontuado por mensagens como ¨Feel Free¨ escrito num colar em uma vitrine e outras mensagens que nos falam da era de aquário – aliás, somos ambas aquarianas – e nos contam em que estação ou momento nos encontramos. Prestamos atenção à cada detalhe e depois de mais alguns poços pelos quais precisávamos passar, finalmente chegamos à Galeria.

Começamos visitando sua mostra permanente e ficamos extasiadas frente ao mais belo que o ser humano pode conceber, a arte em toda sua dimensão. Tem a escultura de uma família de retirantes em que sentimos o desespero, a angústia e a desesperança. Tem um quadro tão iluminado, alegre e colorido que queremos saltar para dentro e experimentar desde este outro ângulo. Tem uma escultura em pedra branca do busto de uma mulher  de face serena e bela, com uma das mãos levantada como em oração em que uma serpente se enrosca e com a cabeça de uma águia que salta do topo de sua cabeça com as asas abertas. Ficamos fascinadas com o poder desta imagem.

De repente nos vemos frente a uma representação imensa da iconografia da mulher casta e suave que recolhe ramos de lavanda e ao seu lado uma deusa nua com longos cabelos avermelhados envolta sedutoramente em lençóis de seda branca. É uma imagem impactante e ficamos olhando admiradas para elas e pensando nos insights da meditação da Lu, quando olhamos para trás e vemos a representação da puritana julgadora, dura e fria, com o símbolo do diabo em vermelho à sua frente e ao lado uma moça inteiramente nua, sentada em uma cadeira de espaldar alto, serena e inconsciente de sua nudez com a simbólica do anjo atrás de si. É total e completamente fascinante, estamos vendo os espelhos perfeitos de cada inspiração que nos guia.

Vemos a exposição de Sonia Ros e compreendemos à que a loba nos queria guiar. O entendimento dessa divisão interna feminina que nos permitirá integrar e liberar nossa expressão em todos os níveis da vida. A Galeria foi um ponto alto do dia e nos sentimos avassaladas pelo volume de informações e emoções que nos atravessam. Voltamos calmamente pelas ruas, desfrutando de Veneza e sorvendo seus cheiros, cores, ruídos e a infinidade de pequenas e grandes coisas que nos cercam.

Chegamos no hotel no final da tarde e é tempo de internalizar tudo isso. Sinto sono e entro num sonho fantástico em que desfruto da mais erótica experiência sexual para saltar como uma loba cinza quase prata e correr pelas ruas de Veneza até alcançar uma ponte, então ao atravessá-la me transformo numa menina de pouco mais de um ano de idade. Subo por uma escada e vejo um homem que me espera. Ao subir vou me transformando de criança em jovem, depois mulher e encontro o homem num abraço amoroso e muito íntimo. Sinto que pelo canal atrás de nós passa uma gôndola branca pequena, cheia de flores em tons pastéis. Sei que é uma homenagem à Yemanjá. Por cima do ombro do homem enxergo sete mulheres, sete guardiãs que já estiveram em outros sonhos meus. Sinto a terra tremer e a cena muda. Agora estou de frente para o mar, encostada no peito do homem, que me abraça. É outro lugar, outra cidade, talvez o Porto em Portugal, onde ainda passaremos antes de voltar ao Brasil. Vejo uma enorme onda vindo em nossa direção, como um tsunami, mas estamos dentro de um campo protegido, como se fosse um vidro transparente e a água passa por cima de nós. Fico olhando para cima e vejo a água escorrer de volta em direção ao mar e se afastar muito, revelando uma enorme faixa de área. Vejo vir uma segunda onda e, de novo, passar sobre nós, mas desta vez ao voltar vejo muitos corpos boiando e lhes envio uma mensagem silenciosa para que sigam a luz. Sei que seres alados estão à espera para ajudar. Sinto uma paz infinita e acordo.

Muitas coisas estão diferentes neste momento. Tantas e tão profundas que não tenho como mensurar. Nossa viagem ainda não acabou e sei que temos mais coisas a aprender, mas sinto que a jornada à busca da liberdade tem nos levado a cada instante para mais perto de quem realmente somos, talvez a única jornada que valha realmente a pena trilhar.

Diário de Viagem Rumo à Liberdade XI

13 de março de 2011 0

Veneza

Querido diário,
Acordamos para nosso décimo segundo dia de viagem em La Sereníssima, um nome antigo pelo qual Veneza também é conhecida. Para descrever esta cidade teríamos que utilizar todos os adjetivos de nosso idioma e ainda assim não seria suficiente. Nem fantástica, nem bela, nem encantadora, nem mágica, nem maravilhosa, enfim, nenhuma destas palavras, mesmo usadas juntas poderiam contar sobre o raro e o especial que é este local. Pensamos em inventar alguns adjetivos como espetaculosa ou, como falou o primo da Lu, Rodrigo, quando tinha dois aninhos, é um lugar cheio de belezismos. É assim mesmo, sem exagero. Cada ângulo é um cartão postal, com os canais verdes que cortam toda a cidade e por onde deslizam os gondoleiros em suas gôndolas laqueadas em preto e dourado, entre o casario medieval com suas sacadas de ferro trabalhado e cheias de flores, em um colorido que vai do rosa escuro ao amarelo queimado, com casas em coral, terracota, amarelo claro, bege rosado, lilás…já percebeu, né? tem que vir até aqui para entender mesmo o que queremos dizer.


Na Piazza San Marco o sol da manhã beija suavemente as torres altas e a fachada do Duomo, que se abre num dourado, com leões majestosos – símbolo da cidade,  cavalos que representam a conquista de sua liberdade e anjos que revelam a antiga crença dos venezianos de serem protegidos por esses guardiões. Mesmo sendo inverno, quando não há tanta gente na cidade, hordas de turistas caminham pela belíssima piazza, pousam com os pombos que se contam em centenas e fotografam cada ângulo. Entendemos perfeitamente o fascínio, também nos sentimos assim. Gostaríamos de poder levar partes dessa beleza conosco e sabemos que, de alguma forma, isso acontece mesmo.

Caminhamos pelo labirinto das ruelas que cortam a cidade em todas as direções. Cruzamos várias pequenas e encantadoras pontes e tiramos fotos dignas de exposição.  Veneza é assim, uma festa para os olhos. O movimento de pessoas é intenso e as lojas são charmosas e convidativas, mesmo as padarias e pizzerias são atraentes e não resistimos em olhar os alimentos pelas vitrines e admirar a beleza do que está tão saborosamente exposto.

Algumas vezes passamos por becos estreitíssimos e vazios e pensamos se não estamos fatalmente perdidas até nos encontrarmos em alguma praça ou outra rua onde o movimento segue intenso. Parecem mundos dentro de mundos. Muita diversidade cheia de encanto e magia. Sucessivas vitrines com os famosos vidros de murano e as onipresentes máscaras de carnevale nos deixam zonzas de tanta informação colorida.

Cruzamos o Rialto, a mais famosa ponte de Veneza, que abriga uma infinidade de lojas de jóias e presentes de cada um de seus lados. O visual de cima da ponte explica bem a concentração de turistas buscando um pequeno espaço para tirar uma foto, pois a ponte cobre o grande canal e em sua margens gondôlas balançam suavemente amarradas no cais entre muitas estacas, com as casas delicadas e coloridas que criam um cenário fantástico contra um horizonte que se abre para o mar, iluminado com um sol quase prateado, tornando esmeralda o verde de suas águas. Dá vontade de chorar de tão lindo que é. Tocante, essa é uma palavra justa para  a beleza que nos atinge e altera nossa percepção sobre todas as coisas. Sabemos que não seremos mais as mesmas só por olhar para isso. É impossível seguir igual depois de estarmos expostas a tal encanto. Talvez seja um antigo feitiço que ainda prevalece e que marca a todos que aqui passam.

Fazemos uma compra totalmente inusitada, compramos tênis que mudam o ponto de equilíbrio do corpo e nos colocam imediatamente em um melhor postura. Nos damos conta que adquirimos, literalmente, uma nova forma de caminhar. Percorremos Veneza por horas, olhando cada canto, sem perder a curiosidade e cada vez mais apaixonadas.

Nesta noite vamos assistir a um performance no Teatro San Gallo, há cinco minutos de nosso hotel, e o show nos conta a incrível história de Veneza ao longo dos séculos. Uma experiência artística para sorver  La Sereníssima ainda melhor. Aprendemos que os veneziamos conseguiram resgatar na Terra Santa os restos mortais do evangelista Sâo Marcos e depois de uma viagem cheia de percalços finalmente chegam à Veneza e depositam a urna aos pés do Doge da cidade, que lhes ordena levarem-na para a catedral. Os homens tentam ergue-la, mas ela agora pesa toneladas e nem mesmo um grupo grande de homens fortes consegue levantá-la. O Doge então promete construir a Basílica ao redor do local em que a urna escolheu repousar e onde hoje é o Duomo e a famossíssima Piazza San Marco.

Veneza com isso ganha o status de segunda mais importante cidade da cristandade, depois de Roma, onde repousam os restos mortais do santo apóstolo Pedro.

Que histórias fascinantes esta cidade presenciou ao longo  dos séculos. Grandes eventos, guerras, vitórias, santos, reis, casa de artistas como Vivaldi e inspiração para tantos outros, terra de Casanova, o mais famoso amante da história. Uma cidade que testemunhou o domínio das cortesãs e sua cosmopolita cultura e a peste que aniquilou um terço de toda a população. Muita água passou por debaixo de suas pontes e grandes transformações ocorreram que mudaram não só a história de Veneza, mas de todo o mundo, como as expedições de Marco Polo, o aventureiro veneziano que descortinou o oriente para a Europa.

Lindas histórias. Voltamos embaladas como crianças que acabam de ouvir um incrível conto de fadas. A Lu percebe em sua meditação a iconografia clássica da divisão feminina, a puritana julgadora e crítica e a cortesã livre e inconsciente. Refletimos sobre isso e permitimos que os sonhos nos conduzam através do emaranhado íntimo para a integridade de todas as polaridades. Esse foi um dia intenso e com muita coisa para recolher dentro de nós e tudo é tão especial em Veneza que já não distinguimos mais o que é sonho e o que é vigília.

Diário de Viagem Rumo à Liberdade X

12 de março de 2011 1

Fiesole

Querido diário,
Hoje nos despedimos de Firenze com grande alegria por ter estado nesta encantadora cidade. Tantas e tão profundas aventuras foram vividas e integradas que só nos resta dedicar gratidão a tudo e a todos. Aproveitamos que temos tempo e somos abençoadas com uma manhã ensolarada e resolvemos visitar Fiesole antes de pegar a estrada para Veneza.

Fiesole é um pequeno povoado fundado pelos etruscos ainda antes da chegada dos romanos, há mais de 2.200 anos. Conserva em seu cenário as diversas camadas de história que a compõe, com os caminhos etruscos, o teatro romano, a igreja medieval com sua torre alta, a praça do século XV, as quitandas do começo do século XX e as lojas modernas com atraentes vitrines. A estrada de Florença para Fiesole é montanha acima e parece que estamos cada minuto mais entrando num conto de fadas. O cenário é de tirar o fôlego de tão lindo e a luz da manhã faz tudo parecer mágico e encantado.

Estacionamos no centro da cidade e passeamos pelos arredores, nos deslumbrando com cada partezinha do lugarejo e aproveitando o calor do tranquilo sol matinal. Paramos numa quitanda e não resistimos aos lindos tomates frescos, ao queijo grana padano, bergamotas  doces e maçãs suculentas. Hmmm, dá água na boca de pensar aqueles tomates deliciosos com muito azeite de oliva e o formaggio que só os italianos sabem fazer – inclusive os italianos do sul do Brasil, que também são muito bons nisto.

Na hora de ir embora, percebemos uma pequena e encantadora botica, de nome Alchimilla e nos aproximamos de sua vitrine para sermos imediatamente seduzidas por frascos maravilhosos de perfumes, sabonetes de diversos aromas, chás, incensos e outras interessantes alquimias. Entramos e ficamos voejando entre os produtos, hipnotizadas com cada coisa e curiosas com tudo. Escolhemos algumas coisas e quando vou pagar começo a conversar com a proprietária, uma polonesa que viveu 14 anos em Londres estudando química, herbologia e alquimia de nome Dorota. Por nenhuma razão tangível conto meu sonho com a boticária do Século XV e Dorota fica cada vez mais interessada. Ela me pede detalhes e me conta que veio para a Itália sem saber direito porque e acabou parando em Fiesole sem nenhuma razão específica, não tinha família nem amigos na cidade, mas sentia que tinha algo inacabado para resolver ali e também sabia que algum dia alguém entraria por aquela porta para lhe contar alguma história que pudesse lhe explicar sua tarefa. Ela está emocionada com tudo e me pergunta se sei como terminou a história da mulher do sonho. Digo que não sei, mas falo de nossa visita à Farmácia Santa Maria Novella e nossa tese sobre casamento e filhos. Ela suspira aliviada, pois pensava que a mulher poderia ter sido queimada na inquisição. Na verdade não temos idéia sequer se o sonho é sobre uma história real, mas lhe digo que provavelmente não, pois no século XV esta horrível perseguição já caia em desuso. Então Dorota me fala que seus avós foram perseguidos e queimados pelos nazistas na Polônia e que não precisava voltar tanto na história para encontrar o horror, o preconceito e a ignorância. Nos despedimos com a sensação de que um laço foi forjado e prometo à Dorota que lhe enviarei um email caso lembre de mais alguma coisa ou tenha outro sonho. Só na estrada a caminho de Veneza é que me recordo que a mulher do sonho era de origem judia, talvez mais uma conexão.

Saímos de Fiesole com a sensação de ter cumprido uma tarefa previamente determinada que não conhecíamos. No caminho durmo e sonho com a mulher novamente, num rápido flash em que a vejo macerando ervas para extrair a essência e passando por uma pipeta. É muito rápido e não acrescenta nenhuma informação específica, mas fico com a sensação de algo bem familiar. Enquanto dormia passávamos por uma região montanhosa com picos de neves eternas e a neve chegava até a beira da estrada. Lu está encantada com a paisagem que é de um cenário raro e beirando ao fantástico.

Ainda na estrada resolvemos visitar Padova, uma cidade construída antes da Idade Média, que foi conquistada pelos romanos e que hoje é um centro de cultura, com uma famosa universidade e de moda por sua proximidade com Milão. Quando chegamos à Itália eu havia dito à Lu que gostaria de encontrar um bota preta de design italiano e no dia anterior em Pisa vi uma mulher usando a bota exata que eu gostaria de ter. Soltei meu desejo ao vento com  a certeza de que em algum momento eu encontraria o que buscava. E assim foi. Mesmo não estando nada planejado, ao pararmos em Padova, encontro o último par da bota, em meu número, numa liquidação de inverno, com um preço super convidativo. Não é demais? Estou aprendendo cada vez melhor não só a pedir, mas como fazê-lo.

Aliás, como Padova não está na rota mais turística tudo ali é mais barato, inclusive nossa paixão, o capuccino, que ali custa meros 1,30 euros enquanto que em outros lugares varia de 3 a 6 euros. Pena que não dá para levar um estoque de capuccinos.

Chegamos a Veneza no final da tarde, ainda com luz, mas descobrimos que temos que deixar o carro estacionado para seguir de vaporeto para a Piazza San Marco, onde está nosso hotel. Hmmm, acabamos de passar pela entrada do parcheggio, o que significa que devemos fazer toda a volta para retornar ao estacionamento. Só não sabíamos que a volta seria tão grande, cerca de 3 km. Temos que atravessar toda a longa ponte de acesso à comuna de Venezia e fazermos o retorno na cidade de Mestre, quando então percebemos que a ponte de acesso se chama Via della Libertá. Uau! Parece que afinal nos caíram as fichas. Primeiro passamos inconscientes, então tivemos que voltar pelo caminho mestre e despertarmos para aquilo que sempre esteve lá, a via da liberdade, nossa busca de todo o percursso e que nos trouxe até este momento. Retornamos por ela e chegamos de fato a Veneza, com outra clareza e muito maior consciência. Pegamos o vaporeto e já escurece. Navegamos por cerca de 20 minutos até a Pizza San Marco e seguimos para o hotel que é quase dentro da praça. Melhor localizadas só se ficássemos hospedadas dentro do próprio Duomo. Festejamos esse presente e nos recolhemos para integrar as muitas experiência do dia. Amanhã começaremos a explorar a maravilha que é Veneza, a primeira cidade a ser considerada patrimônio da humanidade.

Diário de Viagem Rumo à Liberdade IX

11 de março de 2011 0

Querido diário,

A cada dia faz mais calor e o sol segue brilhando lindamente. Hoje é nosso décimo dia de viagem e acordamos para a efervescência e a beleza de Firenze com muito entusiasmo. Temos programado um passeio a Pisa para visitar a famosa Torre de Pisa e ver de perto sua inclinação que desafia a lei da gravidade.

No hall do hotel, pela primeira vez percebemos uma vitrine com produtos de um boticário fundado em 1612, que fica quase em frente ao hotel. Meu coração dispara e sinto como se um buraco, um espaço grande se abrisse dentro do meu peito e sinto que há uma vibração pulsando ali. Estranho e estimulante. Lembro de meu sonho com a mulher do Século XV e sua botica de farmacêutica. Penso em visitar o local na volta de Pisa.

Nesta noite a Lu sonhou com muitas coisas, mas uma parte do sonho fala de uma estrada que precisa ser pavimentada e que os recursos aparecem. Conversamos sobre o caminho da vida e as possibilidades de escolha que temos.

Saímos para nosso passeio por uma estrada com sucessivos cenários encantadores. Nem valia a pena fechar a boca de tantos Oohs que emitíamos – surpreendente e maravilhoso. O típico cenário da Toscana com montanhas azuis, árvores altas, campos verdes e casas medievais que hoje abrigam vinícolas famosas ou as novas gerações de antigas linhagens toscanas. Em cada curva da estrada dá vontade de parar e fotografar, mas a paisagem é tão vasta que uma foto não a contempla, nem captura. É preciso um olhar amplo e muito presente para beber daquele encanto.

Na estrada vemos um anúncio no letreiro luminoso: ¨A estrada para Santa Cruz está sendo pavimentada de 07 a 12 de março¨. Chamo a atenção da Lu para essa mensagem que tem a ver com o sonho dela e ela me lembra que mora em Santa Cruz. Santa Sincronicidade Batman! Nossa, parece que estamos num diálogo aberto com o universo ao nosso redor. Muiiiiito legal.

Chegamos à Pisa num dia límpido, com céu azul e uma temperatura muito agradável em torno dos 18°. Depois dos coreanos, os brasileiros estão em maior número por aqui. Talvez seja o feriado de carnaval, mas é a primeira vez que encontramos tantos brasileiros juntos. É bom ouvir o português sendo falado aqui e ali. Tiramos as super turísticas fotos segurando a Torre e nos divertimos com a busca de encontrar o ângulo certo. A Lu quer subir na Torre. Como eu já fui, combinamos que vou passear enquanto ela cumpre essa missão. Nem imaginávamos as muitas aventuras e descobertas que nosso dia nos traria.

Enquanto a Lu sobe a Torre, vai fazendo um paralelo com os sete chacras e percebe que são exatamente sete os níveis da Torre. Em cada um deles ela vai se conectando com a qualidade daquele nível de consciência. No segundo nível, ou Hara, ela fica de frente com uma estátua no jardim e percebe que é uma representação da Loba alimentando Rômulo e Remo, os fundadores de Roma. Hmmm, ao que parece a loba é mesmo uma chave em nosso caminho de liberdade. Foi uma subida em muitas dimensões e a Lu até demonstra outra aparência quando nos reencontramos. Está meio zonza com o poder da experiência, porém a riqueza do processo nos faz pensar em como este caminho tem sido mágico.

Durante este tempo de subida aproveito para passear por Pisa e me deslumbrar com suas ruelas medievais e com o casario dós Séculos XII ao XIV que se ergue à beira do rio. O colorido vai do amarelo queimado ao terracota, passando por todos os tons de laranja, bege e marrom claro. Pisa é um espetáculo de beleza e cuidado. No Campo dos Milagres, onde está a Torre, o Duomo, a Catedral e o museu podemos vislumbrar um pouco da antiga pompa e majestade da cidade, que ainda conserva beleza e um encanto imbatível.
Vou caminhando e pensando sobre nossos processos. Penso na sensação da manhã de ter um buraco no peito e lembro de meu desafio ¨temo abrir meu coração e perder minha cabeça¨. Penso que gostaria muito de ver uma representação desse estado de abertura que percebo em meu peito, atravesso a ponte (uma bela metáfora para nossos caminhos) e me vejo de frente com um mural em que aparece uma mulher com um círculo no peito e um grande olho na testa. Fico arrepiada, é como uma resposta ao meu pedido, ou talvez seja isto mesmo, neste louco diálogo que estamos travando. Tiro uma foto, naturalmente.

Vejo ainda uma pixação no muro do rio com a seguinte mensagem: no G8 Liberi Tutti. Ao compartilhar isso com a Lu mais tarde, nos damos conta que a subida ao sétimo chacra é parte do caminho, mas o oitavo, Shamma – o chacra da vocação, é que pode nos oferecer a verdadeira liberdade.

Ao lado percebo uma feira de sebos. Maravilha, adoro livros e compro cinco por cinco euros – a coisa vai ficando cada vez melhor. Mas, o mais interessante mesmo é que os cinco trazem histórias de mulheres à busca delas mesmas, de sua identidade, essência e liberdade. Tudo em perfeita e total sincronicidade.

Depois de reencontrar a Lu ainda temos tempo e fôlego para fazer algumas compras muito interessantes de coisas bonitas e realmente em conta. Nossa fazemos a festa e garantimos presentes.

Voltamos a Firenze mais uma vez pensativas e tranquilas. Muita coisa para refletir e incorporar. Como ainda há tempo visitamos a Farmácia Santa Maria Novella, essa antiga botica que estava à duas casas do hotel, mas que não tínhamos percebido antes. Meu coração volta a disparar quando olho a fachada. Entramos num espaço que parece nos transportar para séculos atrás. Os odores que nos rodeiam são cheios de magia e mistério. Vejo a galeria de retratos da família Stefani com todos os presidentes da botica desde sua fundação. A última faleceu em 1975, Maria Stela Stefani. Converso com uma das senhoras que trabalha ali e que conviveu com Maria Stela, que nunca se casou nem teve filhos, por isso hoje a farmácia é de propriedade de um conselho com parentes que herdaram o negócio e investidores. É realmente uma grande e próspera empresa. Pergunto-lhe sobre a fundação, se foi mesmo em 1612. Ela me explica que este foi o ano em que a casa foi tombada, mas que não se sabe ao certo quando a farmácia começou, porque antes os donos faziam parte de uma guilda de boticários e os registros se perderam. Mas, conta-me ela, que segundo a lenda a botica foi fundada por uma mulher e como era proibido ter mulheres nas guildas, ela se casou com um amigo, o primeiro Stefani. Estou cada vez mais espantada com esta história e olh tudo com assombro, surpresa e deslumbre. Imagino que posso ter acessado alguma memória que pairava pelo local tão próximo do hotel.

Mais tarde eu e a Lu romanceamos a tal lenda, imaginando que a mulher do meu sonho era mesmo a fundadora da botica e que o Stefani com quem casou era o amigo que eu via caminhando ao lado. Talvez seja interessante destacar que Maria Stela Stefani era ruiva e tinha olhos verdes, tal qual a mulher do sonho, algo nada característico dessa região. Bem, mas são apenas conjecturas, não podemos concluir nada, apesar de que em nossos corações sentimos como se alguma pecinha de um grande quebra-cabeças tenha se encaixado em algum ponto. Ainda não podemos ver o todo, mas tem coisas que vão se ajustando.

Vamos dormir em profunda gratidão nesta noite, à Firenze, a todos os florentinos que nos acolheram tão bem e à todas as experiências vividas em cada parte de nosso trajeto. Ainda temos muita coisa pela frente, mas a gratidão tem emergido forte como o único sentimento possível para espelhar o estado de graça interior em que nos encontramos. Amanhã tem mais histórias pela frente e já estamos agradecendo em antecipação por todas as maravilhas que certamente virão.

Diário de Viagem Rumo à Liberdade VIII

09 de março de 2011 0


Firenze

Querido diário,
Hoje novamente o sol nos abençoou com sua luz resplandecente. É uma alegria acordar em Firenze sob um céu azul e em meio à ebulição cultural da cidade.

Esta manhã aconteceu algo muito estranho. Acordei às 6 horas bem desperta e sentei para minha meditação diária. Ao final, senti um sono imenso e incomum e dormi novamente, então sonhei que caminhava pelas ruas de Florença e deveria ser aí pelos anos 1.400. Esta mulher em que me vejo é ruiva, deve ter em torno de 30 anos e é cega do olho esquerdo, tem o olho direito verde, mas o esquerdo é todo branco, como se a íris estivesse coberta. Ela caminha conversando com um amigo até chegar à sua casa, uma das construções do centro da cidade, com dois andares. No andar de baixo tem a cozinha, a sala e outras dependências. Ao subir as escadas há dois quartos na frente, um é dela e o outro de um parente muito próximo, um(a) filho(a) ou irmã(o). Aparentemente ela não é casada, o que seria muito raro naqueles tempos. Na parte de trás do piso superior tem uma botica de farmacêutico, com ervas e óleos onde ela prepara os remédios e unguentos. No sonho consigo perceber a tranquilidade com que ela manuseia tudo e a satisfação que encontra nisso. Ela parece ser de origem judaica, tanto pela aparência como por alguns símbolos que estão espalhados, porém tudo isso parece muito incomum para aquela época.

Foi um sonho longo, como se fosse uma vivência de memórias. Quase perco o café da manhã por conta disto, mas dá tudo certo. Creio que o sonho tem a ver com minha tarefa neste dia. Estou desenvolvendo uma pesquisa para minha tese de pós-doc,  é uma investigação sobre o campo da consciência e percebi uma coincidência histórica. Todos sabemos da concentração de gênios que ocorreu na Renascença, mas ninguém ainda conseguiu explicar porque isto aconteceu.

Bemmmm, pois eu tenho uma tese. Percebi uma coincidência histórica que talvez possa nos ajudar a entender melhor os processos da consciência e a manifestação do gênio humando. Me dei conta que o advento que ocorre na Europa antes do renascimento é o ciclo das grandes navegações pelo oriente, com o comércio de especiarias. Os maiores consumidores desses produtos eram a Itália e a França, até hoje duas escolas de gastronomia que tem hegemonia no mundo por sua qualidade e sabor. O interessante é que a Renascença não é um fenômeno Europeu, mas, especialmente italiano e francês. Claro que há um ou outro gênio que aparece na Alemanha, Inglaterra, Espanha, mas a grande concentração mesmo se dá na Itália e na França.

Hmmm, isso me fez pensar. Quando estive pela primeira vez na Índia em 2005, aprendi que quando uma criança é percebida como um vidente, recebe uma dieta especial de diversos tipos de pimentas e outros condimentos para que possa abrir completamente sua percepção. Talvez, se no oriente se usa para esse fim, então as especiarias devem ter impacto sobre os processos da consciência. Se for assim, a entrada desses produtos em larga escala e grande concentração num determinado e mesmo tempo podem ter gerado condições únicas para consciência humana e despertado a genialidade de tantos indivíduos num mesmo lugar e tempo histórico.

E por que isso não aconteceu no oriente? Bem, tanto na Índia, como na China e Oriente Médio, os povos foram descobrindo as especiarias aos poucos, ao longo dos séculos e por isso as frequências da consciência foram se adaptando também paulatinamente. O que não ocorreu na Itália e França, os maiores consumidores de especiarias, que as consumiram todas de uma hora para outra e em grande quantidade. Isso pode ter gerado uma nova química cerebral e despertado sensores até então não utilizados pelo europeu medieval. Aliás, a alimentação medieval era puramente baseada em gordura, como são até hoje os tradicionais pratos ingleses e alemães.

Bem, essa dieta especial pode ter permitido que alguns indivíduos com capacidades criativas e intuitivas acima da média, pudessem despertar seus dons e talentos de uma única vez e ao mesmo tempo. Essa é uma tese que ainda precisa ser pesquisada claro, mas hoje dei os primeiros passos nessa direção.

Visitei a Biblioteca do Renascimento, para uma pesquisa pré agendada há mais de três meses. Nesse local encontrei à minha espera dois senhores simpatissíssimos. Giuseppe e Giovanni – que, pela aparência, devem ser contemporâneos de Leonardo Da Vinci – e que cuidam da biblioteca há mais de 40 anos. Eles convivem há tanto tempo que até estão parecidos, aliás parecem gêmeos, mas descubro que nem parentes são.

Eles me conduzem e me ajudam muito na pesquisa. Entramos numa sala climatizada a 19°, usando luvas e máscaras e tenho acesso a 17 páginas de diários de famílias da época da renascença, já pré selecionadas, num trabalho primoroso que esse encantadores senhores haviam feito por mim.

Fico fascinada com a leitura do material, tão rico e tão cheio de informações sobre a culinária e os efeitos que isso provocava nas pessoas. Encontro duas evidências que poderão ajudar muito na construção do argumento de minha tese. Estou feliz, feliz. Saio da biblioteca e fico surpresa de ainda encontrar um dia brilhante, parece que fiquei anos ali, mas foram só poucas horas. A Lu está aproveitando este tempo para descobrir mais dos tesouros e belezas da cidade.

Combinamos de à tarde irmos até um outlet nas cercanias de Florença para investigarmos as ofertas das grandes marcas da Itália e de outras partes da Europa: Giorgio Armani, Valentino, Balenciaga, Yves Saint Laurent, Dior, e por aí vai.

O caminho é mais uma vez de uma beleza ímpar. Seguimos pelo vale do Arno, numa encantadora tarde ensolarada, com o rio espelhando o verde ao redor e montanhas cheias de poesia. Parece que atravessamos um território de contos de fadas. Mesmo que a gente não encontre nada de bom no mall já valeu o passeio. Mas, é claro que tem muita coisa boa nos esperando e a Lu encontra presentes para várias pessoas amadas (aguardem pessoal, vocês vão adorar) e um vestido espetacular de seda preta da Diesel, bordado, com uma regata de renda por baixo. Lindo. Mas, ainda mais lindo porque ela paga só 38 euros por isso e ainda tem tax free. Dá para acreditar? Parece que ela andou polindo a estrela neste dia, não é mesmo? Uma ótima e proveitosa sorte, sem dúvida.

Desta vez passei incólume, pois vi muita coisa bonita, mas estou já bem feliz com as compras feitas em Positano…ao menos por enquanto…

Voltamos já à noitinha para Firenze e em frente ao hotel encontramos um ristorante muito charmoso, com um pizzaiolo simpático e um sorriso cordial. A Lu se aventura num calzone de queijo que é uma festa para os olhos e eu peço um spaguetti a la carbonara. Também nos damos conta que precisamos comer mais salada e como boas meninas traçamos juntas uma apetitosa salada verde de alface e rúcula, com tomates e quatro queijos – prato, gorgonzola, grana padano e emental. Uma delícia, saboreamos tudo e desta vez, apesar de não termos almoçado não nos sobra energia para a sobremesa. Reservaremos isso para outra hora.

O dia foi fenomenal e amanhã vamos visitar Pisa, mas disso contarei só domani.