Caio Fernando Abreu é um dos meus escritores preferidos. Escrevia como vivia: de forma intensa. Uma personalidade marcante e um artista de inegável talento.
“Descobri” o Caio Fernando Abreu tardiamente. O Caio F - como costumava assinar suas cartas aos amigos mais chegados - já havia partido quando tomei contato com sua escrita. Comecei pelo fim, com o livro de crônicas “Pequenas Epifanias”. Era mais do que uma coletânea. As crônicas publicadas por ele no jornal O Estado de São Paulo fizeram história. Foi através de uma delas que Caio tornou pública sua condição de portador do vírus da AIDS. Foi uma ato de extrema coragem. Seu doloroso caminho até o triste desfecho foi exposto de uma forma intensa e emocionante. Em determinado ponto de seu estado de saúde ele voltou para seu estado de origem - O Rio Grande do Sul - e foi morar com os pais no bairro Menino Deus, em Porto Alegre. Aqui, cercado de carinho e cuidados dos pais e amigos, ele reencontrou o gosto pela vida e por suas pequenas epifanias… Cuidava do jardim, escrevia, recebia as pessoas que lhe fazia bem receber - amigos e admiradores - e se preparava, à maneira dele, para o que estava por vir. Foi um gigante que saiu da vida e entrou para a história, não apenas por assumir sua condição mas, principalmente, pelo enorme talento.
Conheci pessoas que conheciam Caio. Depois que mergulhei na história dele, lendo sua obra e suas cartas, senti uma enorme frustração… Aquele cara que eu tanto admirava e que passou a ser uma de minhas maiores influências, passou “raspando” por mim em alguma rua ou algum bar da cidade. O mesmo cara que me despertou esta imensa admiração e que era amigo de amigos meus, como o Zé Adão e a Déia Martins, poderia, quem sabe, ter tomado um chopp comigo em alguma mesa onde estavam estes amigos em comum. Ou seja, tivesse eu começado ANTES minha viagem rumo ao planeta Caio, talvez eu o teria conhecido… Mas não o conheci. Então, no ano passado, foi lançado o livro “Pra sempre teu, Caio F”, de Paula Dip.
Paula Dip fez um belíssimo ensaio biográfico onde nos presenteou com a história de sua amizade com Caio.Além do seu próprio depoimento, ela garimpou textos e testemunhos daquelas pessoas que, de alguma forma, foram importantes ou tiveram contato com ele. Cada um, a sua maneira, mostrou sua interpretação de um enigma chamado Caio. O quebra-cabeças foi montado de uma forma magnífica por Paula. Não sei descrever com precisão os sentimentos e sensações que a leitura do livro me proporcionou, mas posso afirmar que, de um jeito incrível, Paula me fez experimentar a “sensação da amizade” de Caio. Nós, “fãs” declarados, seremos eternamente gratos! Esta sensação que ela mesma experimentou por tanto tempo foi compartilhada com carinho e imensa generosidade com os leitores. Por tudo isso, foi um livro que eu li lenatemente, para poder aproveitar por mais tempo esta minha amizade emprestada.
Entre TANTAS coisa impressionantes que descobri sobre o Caio, selecionei e publico aqui - devidamente autorizado por Paula - um texto que ele escreveu na Revista Around. Ele era o “crítico literário” desta revista que pertencia à casa noturna GALLERY - um hype da época - e escreveu este texto indignado sobre a resenha que a revista VEJA publicou sobre seu livro. Esta é uma pequena amostra de como se manifestava Caio Fernando Abreu. E quanto o alvo de suas críticas? Bem, certas coisas não mudam….
De um adolescente rebelde
Este mês vocês vão ter que me desculpar, mas vou falar de meu próprio livro, Triângulo das águas, que acabou de sair pela editora Nova Fronteira. E contar umas coisinhas um tanto extra-literárias. Porque estou em estado de choque. Prá começo de conversa, Triângulo das águas é composto por três novelas independentes, como observa o Geraldo Galvão – não é de forma alguma um “romance fragmentado” como quer o moço da Veja.Mas até aí tudo bem. Afinal, cada um deve ter o direito de emitir sua opinião – mesmo que seja, no mínimo, um tanto esquisito não perceber o gênero da obra literária que está sendo discutida. Acontece que existem historinhas por trás e são elas que eu vou contar, pelo simples fato de que são verdadeiras.
Colaborei com a seção de literatura da Veja durante cerca de quatro anos. E pedi demissão quando morreu Elis Regina. Imagino que todo mundo lembre da capa de Veja na época: “Elis Regina, a tragédia da cocaína” – onde tratavam Elis como uma viciada irrecuperável. Coisa de gente não só careta como também, mau caráter. Liguei para o editor de literatura e disse: “Por favor, vá dizer ao seu patrão que não quero nunca mais ver meu nome numa revista desse nível”. Bem, algum tempo depois saiu um livro meu, Morangos mofados, e Veja não publicou uma linha sobre, embora tenha sido encomendada uma crítica (ótima) ao Antonio Bivar. Eu soube que o patrão alegou que Bivar e eu éramos amigos, coisa que infelizmente não é verdade. Mal nos vimos uma ou duas vezes. Por tudo isso, me soa estranha essa malhação de agora. Como me soou estranha (ou nojenta) a matéria sobre Elis. Ou uma outra matéria sobre o jornalista Antonio Chrysóstomo, preso injustamente, acusado de estupro. Na mesma semana IstoÉ defendia Antonio e Veja o acusava como se fosse um tarado. Por estas e muitas outras, talvez, é que a Veja é chamada aqui no Rio de Manchetinha…Tá soando lavar a roupa suja em público? Não creio. Acho que todo mundo precisa saber com quem lida. Também porque um escritor é uma criatura indefesa: você publica o livro e fica à mercê da imprensa. Ninguém quer saber se você levou três ou quatro anos trabalhando um texto, se você quase morreu, se você passou até por dificuldades materiais em função de conseguir tempo para escrever. Quando o livro sai escrevem barbaridades, e o escritor – um enjeitado do sistema – tem que ficar quieto.Eu não fico quieto e estou me permitindo usar este espaço para fazer essa denúncia.
Não significa que eu não admita críticas, negativas. Admito, claro. Publicar um livro é ficar exposto, como a stripper jogando no ar a peça íntima. Mas admito sim críticas dignas, sem vingancinhas miúdas por trás. Também porque só quero um mínimo de paz para escrever minhas histórias.Quanto ao livro, quem vai achar alguma coisa ou não são os leitores. Ele me custou muito. Acredito profundamente nele. Os originais tiveram cinco revisões e revisei três provas. Assumo cada frase, cada vírgula, cada verbo, cada artigo dele.
E se alguém disser que parece diário de adolescente rebelde, como quer o moço da Veja, não fico chateado: acho adolescente rebelde um grande barato. Adolescente rebelde é aquele que acha tudo um nojo e quer mudar o mundo. Depois é que eles crescem, esquecem as rebeldias, compram mesinhas de centro ou arrumam um bico numa publicação de extrema direita. O que não é o meu caso, e acho ótimo não ter barriga nem física nem mental. Falar nisso, um toque: neste mês não leiam nada, fiquem em casa ouvindo várias vezes o LP do Asdrúbal Trouxe o Trombone, A farra da Terra. É um grupo de rock composto por adolescentes rebeldes. Sem mau caratismo.
(fonte: “Para Sempre Teu, Caio F.”, cartas, conversas, memórias de Caio Fernando Abreu, de Paula Dip, editora Record, Rio de Janeiro, 2009.)