MANFREDINI
Nesta semana participei de uma festa em Brasília. Uma que já é tradicional na cidade e que louva a produção cultural dos anos 80.
Cada edição tem uma atração surpresa. Nessa, fui eu...
Além do que estava programado - cantar 4 músicas do Nenhum de Nós da fase dos 80 - ainda rolou uma colaboração inesperada e emocionante para mim.
Eu já aguardava no camarim, acompanhado da ilustre figura de Philippe Seabra - do Plebe Rude, que também daria uma canja - quando fui apresentado a uma pessoa de feições que me faziam lembrar de alguém. Antes que o nome fosse dito, vasculhei a memória tentando desvendar de onde vinha a referência... Os olhos, o sorriso e o formato do rosto formavam um quebra-cabeças. Antes que eu chegasse a uma conclusão veio o nome: Carmem Manfredini, a irmã de Renato Russo. Como se não bastasse a surpresa de conhecê-la, fui informado à queima roupa que cantaríamos juntos. Meu coração disparou!
Nem vou entrar em explicações ou justificativas sobre os motivos dessa reação emocional exagerada. Digo apenas que muito foi em função do Renato, mas grande parcela em função dela mesma - por conhecer sua importância na formação e trajetória do legionário.
Sentamos lado a lado e conversamos por um longo tempo.
Ela me perguntou - para minha surpresa - se "aquela coisa do Renato com o Nenhum de Nós se resolveu"?
Ela se referia a um episódio citado em um trecho de uma biografia apressada de Renato Russo, onde o escritor fazia uma citação de uma declaração do poeta ao Nenhum de Nós. Renato dizia algo como "tem banda que acha que rock é fazer uma versão de David Bowie e não cair na estrada"....ou algo assim.
Quando li a coluna de um jornalista que citava tal declaração (no JB, se não me engano), fiquei triste de verdade, pois minha admiração por Renato já era grande e eu julgava que ele estava sendo extremamente injusto. O sucesso do "Astronauta de Mármore" parecia incomodar até mesmo a ele, o que era um absurdo. Não com tudo que a Legião já havia construído.
Como nosso advogado para assuntos relativos à gravadora era o mesmo - Antônio Coelho Ribeiro - resolvi ligar para ele e consultá-lo sobre minha intenção de falar pessoalmente com Renato. Queria convencê-lo da injustiça que cometia.
Coelho Ribeiro não apenas me incentivou a fazê-lo como fez uma ligação prévia ao Renato comunicando-lhe que eu entraria em contato. Quando liguei, Renato já atendeu dizendo: Xi! Falei merda, né?! Nossa conversa foi serena, gentil e longa. Ele me deu conselhos que jamais esqueci e, para minha alegria, me tratou como um "igual", no que se refere ao labor do rock.
Para mim, apenas essa conversa conciliatória já significava uma pedra no assunto e uma imensa alegria. Mas Renato fez mais. Sem que eu pedisse ou sugerisse, no dia seguinte, na mesma coluna do jornal saiu algo mais ou menos assim: "Renato Russo me ligou pedindo que eu publicasse essa nota onde ele pede desculpas pelas declarações injustas acerca do Nenhum de Nós..."
Ao contar essa "continuação" da história para Carmem, vi seus olhos vívidos se encherem de alegria. Além do mal-estar desfeito, eu apenas reafirmava com minha narrativa, a grandeza do coração de Renato.
Subimos ao palco e cantamos juntos "Quase sem querer". Em seguida Felipe se juntou a nós para uma versão matadora de "Que país é esse?"! Justo em Brasília. E justo na véspera do dia da Independência e da manifestação contra a corrupção. Por tudo isso, antes de cantar, dediquei a canção à Jaqueline Roriz e seus 265 amigos anônimos. Foi uma comoção!
Carmem foi gentil e quis tirar várias fotos para registrar nosso encontro. Nos despedimos com promessas de reencontros no palco ou em algum outro camarim do rock brasileiro.
Uma noite memorável para mim!

