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A Última Entrevista

09 de dezembro de 2011 0

Na noite de 5 de dezembro de 1980, uma sexta-feira, John Lennon falou com o editor-colaborador da Rolling Stone Jonathan Cott por mais de nove horas, em seu apartamento, no Upper West Side, e no estúdio Record Plant, em Nova York. Três noites depois, Lennon foi assassinado quando voltava para casa depois de uma sessão de gravação.


A entrevista havia sido planejada para virar matéria de capa da primeira edição de 1981, mas depois da morte do músico, Cott escreveu um obituário para ele e acabou usando pouquíssimo das conversas. Na verdade, nem transcreveu a fita na íntegra. No 30º aniversário da morte de John Lennon, apresentamos, pela primeira vez, o texto completo da última grande entrevista de Lennon à mídia impressa: a conversa alegre, incrivelmente engraçada, inspiradora, destemida e subversiva que o beatle teve conosco naquela noite, enquanto se preparava para voltar aos holofotes depois de cinco anos de uma vida tranquila com Yoko Ono e o filho do casal, Sean.

“Bem-vindo ao santuário!”, exclamou John Lennon, enquanto me cumprimentava, com um cerimonialismo alegre e falso, no belo escritório com teto pintado de nuvens de Yoko Ono, em seu apartamento no edifício Dakota. Era 5 de dezembro de 1980. Sentei-me perto de Yoko em um sofá, e ela começou a me contar como seu novo álbum, Double Fantasy, surgiu: na primavera anterior, John e o filho, Sean, estavam passando três semanas de férias nas Bermudas enquanto Yoko ficou em casa “resolvendo alguns assuntos”, diz. Nas Bermudas, John ligou para ela contando que havia levado Sean ao jardim botânico e tinha visto uma flor chamada Fantasia Dupla (Double Fantasy, em inglês). “É uma espécie de frésia”, afirmaria Lennon mais tarde, “mas o que significa para nós é que, se duas pessoas imaginam a mesma imagem ao mesmo tempo, esse é o segredo”.

“Estava em uma boate nas Bermudas”, interrompe ele, enquanto se senta no sofá, e Yoko se levanta para trazer café. “No andar de cima, estavam tocando música disco, mas no andar de baixo de repente ouvi ‘Rock Lobster’, do B-52’s, pela primeira vez. Conhece? Soa igualzinha à música de Yoko, então pensei: ‘É hora de sacudir a poeira e acordar a esposa!’” Ela e John falavam ao telefone diariamente e cantavam músicas que haviam composto entre as ligações. “Ouvi”, eu disse a John, “que você tinha uma guitarra pendurada na parede atrás da cama nos últimos cinco ou seis anos e que só a tirou de lá recentemente para tocar no Double Fantasy”.

“Comprei essa guitarra linda mais ou menos no período em que voltei com a Yoko e tivemos o bebê”, conta John. “Não é uma guitarra normal – não tem um corpo, é só um braço e essa coisa tipo um tubo, parecida com o tobogã, e você pode alongar o topo para equilíbrio se estiver sentado ou em pé. Toquei um pouco e depois a pendurei atrás da cama, mas olhava para ela de vez em quando, porque ela nunca tinha participado de nada profissional, não tinha sido tocada de verdade. Não queria a esconder como alguém esconde um instrumento, porque era doloroso demais olhar para ela – como Artie Shaw quando passou por algo grande e nunca mais tocou clarinete. Mas eu olhava para ela e pensava: ‘Será que vou usar um dia?’ Ao lado dela na parede coloquei o número 9 e uma adaga que Yoko tinha me dado – feita com uma faca de pão da Guerra Civil norte-americana para cortar as más vibrações, eliminar o passado simbolicamente. Era só como um quadro pendurado ali, mas você nunca vê realmente, mas recentemente percebi ‘Que bom! Finalmente posso descobrir o que faz essa guitarra’, tirei e a usei para gravar o Double Fantasy.”

“Estou ouvindo o Double Fantasy repetidamente”, contei, preparando-me para fazer outra pergunta. Lennon me olhou com um sorriso de parar o tempo (e a entrevista). “Como você está?”, perguntou. “Tem sido um reencontro para nós nas últimas semanas. Vimos o Ethan Russell, que está fazendo um vídeo de algumas das músicas novas, e a Annie Leibovitz veio aqui. Ela tirou minha primeira foto de capa para a Rolling Stone. Está sendo divertido ver todos que conhecíamos e fazer tudo de novo – sobrevivemos. Quando nos vimos pela primeira vez?”

“Conheci você e a Yoko em 17 de setembro de 1968”, eu disse, lembrando o primeiro de muitos futuros encontros. Eu era apenas um rapaz de sorte no lugar certo na hora certa. Lennon havia decidido se tornar mais “público” e desmistificar sua persona nos Beatles. Ele e Yoko, que haviam se conhecido em novembro de 1966, estavam se preparando para os protestos bed-in pela paz em Amsterdã e Montreal e logo lançariam Two Virgins, a primeira de suas colaborações experimentais, um álbum com seus “ruídos, sons e ares doces” shakespearianos. A capa do LP – o notório retrato de nu frontal dos dois – estamparia as páginas da edição de primeiro aniversário da Rolling Stone. John tinha acabado de descobrir a então modesta revista sediada em São Francisco e concordado em dar à Rolling Stone a primeira de suas entrevistas “saindo da toca”.

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