Praticamente uma obra de arte é o filho que Charles Gavin pariu em outubro. Estou falando do livro “300 discos importantes da música brasileira“. Corrigindo: tenho certeza que essa grande obra da literatura e da música brasileira não é só dele. Tem uma equipe anorme de pessoas que colaboraram pra reunir história e registros da MPB desde a década de 20.
Quilos de cultura
Posso comprovar que o peso do exemplar não é só físico (cerca de 6 KG), e sim de um imenso resultado no qual “foram procuradas gravadoras e criadores para obtenção das respectivas autorizações de reproduções publicação de cada uma das obras”, segundo Gavin. Imaginem só, garimpar de 1929 a 2007 os melhores e mais marcantes lançamentos da música brasilera. É óbvio que o músico pediu a ajuda de muitos pesquisadores! Já os textos ficaram a cargo dos jornalistas Tárik de Souza, Carlos Calado e Arthur Dapieve.
Pra completar todos os relatos, fotografias e caprichos do livro, a produção nos brinda com dois CDs na contracapa: Elza Soares com “Baterista Wilson das Neves” (1968) e Moreira da Silva com “O Último Maladro” (1959). De Dolores Duran a Mutantes, de Nelson Cavaquinho a Tonico e Tinoco ou de Eumir Deodato a Eduardo Dusek, tuuudo é música brasileira pra ficar por dentro.
Gravadoras, prestai atenção!
Tanta coisa imperdível em 435 páginas só tem um porém: a maioria dos discos que estão no livro, infelizmente, está fora de catálogo. De acordo com o músico, que também é colecionador de muitas raridades, não depende dele relançar os discos, mas talvez o livro estimule as gravadoras. Tomara!
Um presente dos presentes
Bom, a empolgação com direito a todos esses detalhes do meu mais novo componente da ala dos livros de música não seria possível sem que a amiga família Gonçalves, com atuação imprescindível do Tio Marciano, desse o “300″ de presente de formatura.
Começou esta semana e vai até abril, em São Paulo, uma exposição que relembra obra e produção criativa de Chico Science. Parte de uma série do Itaú Cultural e primeira dedicada a um músico, a Ocupação Chico Science reúne fotografias, recortes de jornal, documentos, objetos de uso pessoal, obras de arte e eventos como shows, filmes e debates norteados pelo movimento mangue beat e pelo grande representante dele.
Quinze anos depois do lançamento de Da Lama ao Caos, álbum que projetou Francisco de Assis França e a proposta pernambuquense de desorganizar para organizar, a mostra retoma uma página altamente criativa da música brasileira. Em entrevista ao Globo, a irma de Science, Goretti França, e o cineasta e roteirista Hilton Lacerda - que dirigiu clipes do movimento e foi um dos responsáveis pelo projeto gráfico do CD Da Lama ao Caos - acreditam que, mais do que lembranças, a mostra serve para inspirações.
- A cultura brasileira está muito careta - afirma Goretti.
Ela e Lacerda participaram do grupo de colaboradores da curadoria (assinada por Ana de Fátima Souza e Edson Natale) que, seguindo o mesmo princípio de criação coletiva do movimento, desenvolveu o projeto com personagens que acompanharam nascimento e crescimento do artista. Uma curadoria coletiva.
A reunião destas pessoas já rendeu outros projetos. Segundo matéria do Globo, o produtor Paulo André Pires já prepara um livro e inicia projeto de um filme sobre Science.
No site da mostra, além das informações essenciais, dá pra ter uma boa ideia do que é a exposição. Helder Aragão, mais conhecido como DJ Dolores, afirma:
- A mostra recria o ambiente supercriativo da época, sem ser nostálgica. Nosso sonho na época era trabalhar com música e tecnologia. Se Chico estivesse vivo, imagino que estaria fazendo isso, pois hoje é tudo mais barato e acessível.
Para os gaúchos o tema soa bem adequado: nunca se passou tanto calor como nos últimos dias por estes pagos. O bloqueio atmosférico causado por uma massa de ar quente que impede a entrada de frentes frias causa esse aquecimento insuportável que estamos vivendo no Estado.
Mas porque estamos falando disso? Morrendo de calor na capital gaúcha, lembrei de um disco que fez parte de minha infância, presente de meu pai: um compacto simples (sim, aqueles discos pequenos que traziam uma música de cada lado), vendido nas agências da Caixa Econômica Federal, que também financiou a prensagem, chamado Nordeste Já.
Em maio de 1985 a causa da seca nordestina foi o mote para a gravação do nosso We Are The World: o compacto lançado pela gravadora CBS através do selo Coomusa, numa iniciativa do Sindicato dos Músicos Profissionais do Município do Rio de Janeiro, tinha por objetivo angariar fundos para a população castigada pelas secas no nordeste do país.
No compacto 155 artistas cantaram e tocaram juntos duas criações coletivas: Chega de Mágoa e o forró Seca d’água, sobre poema de Patativa do Assaré.
A repercussão não foi das melhores. Foram prensadas 500 mil cópias, mas esperava-se que o disquinho fosse vendido aos milhões; as rádios não tocavam as músicas; a forma como foi gravado o coro, em uníssono, sem a criação de arranjos vocais mais sofisticados, foi bastante criticada.
Declaração indignada de Raimundo Fagner à Revista Veja na época: ”As rádios, que deveriam entrar na campanha e fazerChega de Mágoavender um milhão, não tocam. E esse trabalho só tem sentido, só vai cumprir sua finalidade, se vender um milhão.”¹
Em tempos de aquecimento global desenfreado, secas que já castigam o sul e a raquitização da indústria do disco, 25 anos depois Nordeste Já só valeria pelo encontro de nomes tão importantes da MPB.
Seguem os vídeos, pra relembrar/conhecer esse encontro:
“Chega de Mágoa”
“Seca d’agua”
Artistas participantes do projeto: Aizik,Alceu Valença, Alcione, Amelinha, Antônio Carlos, Baby Consuelo, Bebeto, Belchior, Beth Carvalho, Bussler, Caetano Veloso, Camarão, Carlinhos Vergueiro, Carlão, Celso Fonseca, Charlot, Chico Buarque, Cláudio Nucci, Cristina, Cristovam Bastos, Dadi, Daltro de Almeida, Dinorah (as gatas), Dorinha Tapajós, Dori Caymmi, Ednardo, Edu, Edu Lobo, Eduardo Dusek, Elba Ramalho, Elifas Andreato, Elisete Cardoso, Elza Soares, Emilinha Borba, Eunydice, Erasmo Carlos, Fafá de Belém, Faini, Fátima Guedes, Fernando Brant, Gal Costa, Geraldo Azevedo, Gereba, Gilberto Gil, Golden Boys, Gonzaguinha, Guilherme Arantes, Ivan Lins, Jamil, Jacques Morelenbaum, Joana, João Mário Linhares, João do Vale, José Luiz, Joyce, Joelma Mendes, Kleiton e Kledir, Kid Abelha, Kid Vinil, Lana, Leoni, Léo Jaime, Lúcio Alves, Luiz Avellar, Luiz Carlos, Luiz Carlos da Vila, Luiz Duarte, Luiz Gonzaga, Luiz Melodia, Lulu Santos, Malard, Manassés, Maria Bethânia, Marina Lima, Marlene, Martinho da Vila, Marçal, Maurício Tapajós, Mauro Duarte, Mazola, Miguel Denilson, Mirabô, Milton Banana, Milton Nascimento, Milton Araújo, Miúcha, Moraes Moreira, MPB-4, Nara Leão, Olívia Byington, Olívia Hime, O Quarteto, Paulinho da Viola, Patativa do Assaré, Pareschi, Penteado, Perrotta, Perrottão, Pepeu Gomes, Raimundo Fagner, Rafael Rabello, Reinaldo Arias, Ricardo Magno, Rita Lee, Roberto de Carvalho, Roberto Carlos, Roberto Ribeiro, Roberto Teixeira, Rosane Guedes, Roger, Rosemary, Rubão, Sandra de Sá, Sérgio Ricardo, Simone, Sílvio Cézar, Sueli Costa, Stephani, Tânia Alves, Tavito, Teo Lima, Telma, Telma Costa, Terezinha de Jesus, Tim Maia, Tom Jobim, Tunai, Verônica Sabino, Vilma Nascimento, Virgílio, Yura, Wagner Tiso, Walter, Zenilda, Zé da Flauta, Zé Ramalho, Zé Renato, Zizi Possi.
Sugestão:procure também Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, A Força Que Nunca Seca, de Chico César e Vanessa da Mata, cantada por Maria Bethânia e Segue o Seco, de Carlinhos Brown, cantada por Marisa Monte. ¹ Fonte: Site Oficial Raimundo Fagner
A homenagem à cidadee ao Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim não poderia ser melhor: tudo começou e acabou com samba, funk, MPB e muita dança em pleno saguão.
É com muita empolgação que eu e o Rafael Caetano dedicamos esse post à rainha do mar Iemanjá. Aproveitando o ensejo do dia dela a gente teve a ideia de reunir os mais variados artistas que um dia ousaram em homenagear Iyemanjá, Yemanjá, Yemaya, Iara, Inaê, Janaína, Iemoja “Iemanjá”, Nossa Senhora dos Navegantes, Yemoja (”Mãe cujos filhos são peixes”)… Enfim vai ser mais uma singela contribuição à MPB e à dona das águas. Dorival Caymmi Não daria pra começar de outra forma se não fosse falando de Caymmi que entre tantas músicas sobre o mar, os pescadores e a Senhora dos Navegantes, escreveu “Dois de Fevereiro”. Sem dúvida esse foi o cantor e compositor que mais escreveu sobre Iemanjá. Por isso selecionamos duas canções. E infelizmente o Youtube não tem nenhuma das duas cantada por ele mesmo, mas Gal e Nara podem dar conta do recado um pouco, não?
Martinho da Vila Esse foi outro que já fez muita muita, muuuita música sobre Iemanjá. Mas escolhemos essa a dedo que é linda!
Caetano Veloso Pra responder ao que Jorge Amado havia dito, que mesmo os ateus mais descrentes poderiam ver verdadeiros milagres num terreiro em Salvador, Caetano fez essa música. Nessa versão de “Milagres do Povo” tem Gal junto. Ooooxe…
Maria Bethânia Bethânia interpretou lindas canções com esta temática, mas essa de Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro valem mais que um banho de mar. Ela inclusive tem um disco todo dedicado a canções que tratam do tema “mar”, se chama O Mar de Sophia.
Clara Nunes Por ser de origem mineira não teve tanta aproximação com o mar mas de qualquer maneira sentiu uma forte ligação com as águas salgadas através de Iemanjá. Em “A deusa dos Orixás”, por exemplo, fala da filha de Nanã que é uma entidade pertencente aos domínios de Iemanjá.
Marisa Monte Interpretação lá dos primórdios da década de oitenta mas cantada/sambada até hoje nos bares da João Alfredo, em Porto Alegre. Foi samba enredo do Império Serrano em 1976. Marisa, ilustre portelense, não cantou uma parte da letra original por citar a escola rival: “Toda a corte engalanada/ Transformando o mar em flor/ Vê o Império enamorado/ Chegar à morada do amor”
Daniela Mercury Nessa versão com direito e interpretação da entidade das águas, Daniela Mercury traz todo o clima do mar na canção “Dara”.
Elis Regina A música que projetou Elis Regina para o Brasil e para os palcos do mundo era um canto de Vinicius de Moraes e Edu Lobo em homenagem à Rainha.
Existe mais uma série de canções que tratam do tema: Luísa lembrou de “Iemanjá”, de Gilberto Gil, que faz parte do primeiro compacto do baiano; eu lembrei de “Bocochê”, de Edu Lobo. Pedimos aos leitores do bembossa que enviem suas sugestões de músicas que falem sobre a rainha das águas do mar. (E fica um beijinho pra Luísa, que faz aniversário hoje, junto com ela.)
1 de fevereiro de 2010 |
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Hoje às 22h tem programa especial que relmbra a história da considerada musa da Bossa Nova. Ela será tema do programa “De lá pra cá” transmitido pela TV Brasil. A cantora Nara Leão, que foi também uma artista engajada na luta contra a ditadura. Imagens marcantes de sua vida estarão no programa, que mostrará um pouco das facetas dessa cantora que morreu precocemente há 20 anos.
O programa ouviu o biógrafo Cássio Cavalcante, escritor cearense, que pesquisou oito anos para lançar o livro Nara Leão – A Musa dos Trópicos. Erasmo Carlos, que conviveu com a cantora, vai contar casos da época da Jovem Guarda e dá uma canja com a música Meu Ego, de sua autoria, gravada por Nara Leão. Outra entrevistada é Fernanda Takai que, a convite do jornalista Nelson Motta, gravou um CD só com sucessos de Nara Leão.
Carlinhos Lyra comentará o clima daqueles anos 50 e a vontade da rapaziada de Copacabana de inventar uma música nova e condizente com os tempos que o Brasil vivia. O compositor e cantor Martinho da Vila também vai falar sobre Nara.
De Lá Pra Cá vai ao ar hoje, às 22h, na TV Brasil e também pode ser assistido pela web nos seguintes endereços: www.tvbrasil.org.br e www.tvu.ufrn.br (em tela cheia).
O programa será reprisado no próximo domingo, 7 de fevereiro, às 18h.
Esta é para quem está ou mora em São Paulo. Entre as muitas homenagens aos 456 anos da cidade comemorados hoje, uma é especial para quem acompanha este blog. Lô Borges e Milton Nascimento relembram sucessos do Clube da Esquina hoje, a partir das 19h, em show gratuito no Parque da Independência, em frente ao Museu do Ipiranga.
Segundo informações do site da revista Rolling Stones, o reencontro inclui repertório de suas carreiras solos e sucessos do Clube como Trem Azul e Canção do Sal. O show que antecede o de Milton também é um clássico mineiro. Às 17h, sobe ao palco Flávio Venturini, ex-Clube e fundador do 14 Bis.
O Clube da Esquina, formado por um grupo de jovens de Belo Horizonte, lançou dois álbuns. O primeiro, em 1972 (capa acima), assinado por Milton Nascimento e Lô Borges, e o segundo em 1978, lançado por Milton. Pra quem quiser saber mais sobre o movimento, vale uma visita ao Museu Clube da Esquina
Quem gosta de música não pode perder os show que acompanham o FSM 2010. Além de muita discussão e construção de novas ideias o grande evento que acontece, a maior parte, na região metropolitana de Porto Alegre, traz os tradicionais shows nacionais.
Uma pena que a maioria será bem longe do Anfiteatro Pôr-do-sol já que aquele foi palco de muitas emoções afirmadora de um novo mundo possível. Mas como a gente não veio aqui pra chorar às pitangas, vamos ser objetivos: as apresentações mais legais vão se concentrar em Canoas.
23 de janeiro de 2010 |
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Depois das incontáveis desgraças dos últimos dias no Haiti, o mundo começa a dar atenção aonde já se sofre há anos. O país se abala fisicamente mas parece não se abalar diante de tanto sofrimento, tendo em vista o acúmulo de guerras civis e mortes que fazem parte da sua história. À fome e às doenças, os haitianos respondem com música e louvações pelas ruas de todo o país. Parece que mesmo estando soterrados pela dor e pelas necessidades mais primárias, aqueles seres humanos que poucas vezes, ou quase nunca, foram encarados como tais, querem contagiar seus irmãos com o pouco de dignidade e esperança que lhes resta.
Talvez Caetano tenha sido contagiado por essa força quando criou “Haiti” para o disco Tropicália Dois (1993). Transfomar sofrimento em harmonia causou impacto na época. Artistas da música, críticos da cultura, historiadores, professores de literatura, escritores, um pouco de cada área e todos ao mesmo tempo davam seus parecerem sobre a letra que chocava pela comparação do país com a realidade brasileira, em especial, com a Bahia. Sem falar que o cantor reinterpretou a canção em outros dois discos: Tropicália Duo, Fina estampa - ao vivo, e, mais recentemente, em Noites do Norte - ao vivo.
A descrição da violência urbana, por meio da música de Caetano, na qual soldados da polícia militar da Bahia espancam malandros, ladrões e outros baianos em pleno Largo do
Pelourinho, no Centro Histórico de Salvador, perguntavam se o Haiti é aqui ou não é? O Haiti, aquele país negro, em que na época, como até hoje, só exporta notícias de mortes, violência e guerras…Ele também pode ser aqui. Exclusão social, da escravidão, do racismo, dos conflitos de classes, da exploração, da hipocrisia e de outras formas de violência andam longe da palavra cidadania mas estão bem perto dos nosso olhos, não?
Pretos e branco e nada de colorido na música. Se os malandros pretos, os ladrões mulatos e outros quase brancos tratados como pretos - todos pobres - estão láááá embaixo apanhando da polícia, quem está no lá em cima vendo tudo bem do alto, no adro da Fundação casa de Jorge Amado? Na Bahia, são os ricos? Ou qualquer um que assiste tudo de longe sem agir ou questionar?
E no Haiti? Você também vai assistir tudo do alto? Ao menos, pense no Haiti, reze pelo Haiti.
Cristiane Marçal, Luísa Alves e Rafael Caetano dão sua humilde contribuição pra não deixar o samba morrer e trazem toda a versatilidade da música brasileira. Dos clássicos às releituras, Samba, Choro, Bossa Nova e MPB, presente e passado aqui, no bembossa