
Cedinho de manhã, Olga Solange Herval Souza, 53 anos, chega à Escola Municipal Dolores Alcaraz Caldas, no Bairro Restinga, na Capital. Deficiente visual, a professora desvia de bancos e pilares, entra e sai de uma sala para outra sem problema.
A segurança para os passos firmes está nas quatro patas que a acompanham lado a lado. Olga não enxerga, mas vê o mundo através dos olhos da cachorra Misty, da raça labrador, o único cão-guia treinado no Estado, o mais velho em atividade no Brasil.
Misty e Olga estão juntas desde 2004. A docente candidatou-se em um programa da Guide Dog Foundation (em tradução livre, Fundação Cão Guia), uma organização norte-americana que treina, gratuitamente, cães para o trabalho de mobilidade com pessoas cegas. Naquele ano, Olga viajou até Nova York, nos EUA, para o período de adaptação.
– Por meio de entrevistas com o candidato, fazem um cruzamento de perfis para saber qual cão é mais compatível – explica a professora.
Durante um mês, a professora realizou um treinamento com Misty. As duas puderam criar vínculo e Olga aprendeu tudo sobre o manejo do animal, desde os comandos para movimentação, todos dados em inglês, até cuidados com alimentação, higiene e lazer.

Rotina de trabalho duro
Misty adora brincar, passear e comer sua ração, como qualquer outro cão. Mas o trabalho de cão-guia torna sua rotina bastante diferente. A cachorra acompanha a professora e está sempre a postos. Basta a dona chamar que Misty se posiciona para a colocação da guia.
– Uso bastante ônibus e trem, então o pessoal já nos conhece. Mesmo táxi é tranquilo pegar, mas pelo menos uma vez por semana preciso explicar que ela é minha guia – comenta.
Embora possa circular em qualquer local, de bancos a restaurantes, Olga ainda sente a falta de informação das pessoas.

Tem gente que ainda se assusta
Mesmo com o tema presente em noticiários e novelas, a maioria ainda se mostra surpresa.
– Uma vez entrei no ônibus e uma passageira perguntou: O que é isso? Aí, o motorista brincou: É um tigre. Logo ela respondeu: Ah, que bobagem, é um cachorro. Aí, o motorista retrucou: Por que a senhora perguntou, então? – recorda com humor.
Por outro lado, Misty também faz sucesso, em especial com crianças. A regra, no entanto, é nunca tocar no animal enquanto ele está com a guia.
– Por mais treinada que seja, gosta de carinho, e passar a mão pode interferir no trabalho. Se quiser fazer carinho, é só pedir para o dono do cão antes – alerta Olga.
Na escola, é o xodó
No colégio, Misty é adorada por todos. Na chegada, cumprimenta os professores. Ao longo do dia, fica solta na sala de integração, onde Olga atende alunos com deficiência visual e intelectual. Lá, a cachorra já tem seu cantinho, com direito a cama, brinquedos e potes de água e ração.
– É algo bem diferente, mas ela se adaptou logo. Nossa comunidade vive rodeada de cães e os alunos já estão acostumados – assegura a diretora da escola, Eglae Hipólito.

Aposentadoria está chegando
Misty completa dez anos no dia 27 deste mês. A idade é a média recomendada para parar de trabalhar, em função do cansaço e da perda de reflexos. Olga diz que no Brasil é difícil conseguir outro cão.
– Por minha conta, poderia custear a viagem a Nova York para pegar outro, mas quero resolver por aqui, para beneficiar outros.

Treinamento
O Instituto Federal Catarinense possui um Centro de Treinamento para cães-guia (CTCG), que começou em fevereiro deste ano, com a preparação de instrutores. De acordo com a professora Márcia de Souza, coordenadora do projeto no Campus Camboriú, o curso de treinadores e instrutores de cães-guia é gratuito.
Em nível de especialização, dura dois anos, com aulas em tempo integral.
– A ideia é que o CTCG não seja apenas um espaço de treinamento de cães, mas de formação de profissionais, que são raros no nosso país pela inexistência de cursos na área. Com isso, poderemos aumentar o número de cães-guia no Brasil – salienta Márcia.
As raças mais apropriadas são golden e labrador.
A escolha dos filhotes está ligada ao perfil físico e comportamental de cada um. O curso para deficientes visuais que desejam ter um cão-guia é gratuito e o animal é doado. Basta fazer uma inscrição e avaliação. Mais informações no site: www.ifc-camboriu.edu.br
Como agir com um cão-guia
Antes de tudo, lembre-se que ele está trabalhando.
* Quanto mais você o ignorar, melhor será seu desempenho.
* Não o toque, nem acaricie quando estiver trabalhando, ou seja, guiando alguém.
* Não ofereça alimentos.
* Se estiver acompanhado de um cachorro, não o deixe se aproximar do cão guia para evitar acidentes.

Confira abaixo um vídeo da professora Olga com Misty: