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Posts de abril 2011

PSD: decifra-me ou devoro-te

30 de abril de 2011 0

O PSD de Gilberto Kassab tem tudo para ser a esfinge no quadro partidário brasileiro.

Surgiu como uma espécie de bolha de segurança para o prefeito paulistano e seu grupo político conseguirem migrar do DEM para o PMDB – uma franquia praticamente livre em São Paulo desde a morte do ex-governador Orestes Quércia. Aos poucos, ganhou corpo. Levantou-se a possibilidade de fusão com o PSB, encorpando ambos os grupos na disputa por cargos no governo do PT.

A partir da adesão da senadora Kátia Abreu, presidente da Confederação Nacional de Agricultura, e do flerte com o governador catarinense Raimundo Colombo (DEM), o PSD tomou uma dimensão maior do que a planejada por Kassab. Atraiu descontentes de diversos partidos, especialmente no DEM e no PSDB.

Deve nascer com cerca de 40 deputados federais, dois senadores, dois governadores e cinco vices. Tem chances reais de estrear como a quarta maior bancada da Câmara, talvez a terceira – a depender de quantos tucanos aderirem ao partido. Pode representar uma mudança no quadro partidário tão profunda quanto foi a criação do PSDB em 1988.

Mas é aí que surge o “decifra-me ou devoro-te” do novo partido.

O que almeja o PSD?

É uma alternativa futura de poder fora da dicotomia PT x PSDB, essa rivalidade clubística que transformou as últimas quatro eleições presidenciais em um Fla-Flu (ou Gre-Nal) com altíssimas taxas de maniqueísmo? Por isso, um partido nem a favor, nem contra. Outra coisa, outra via.

Ou.

É um agrupamento de políticos incomodados em seus próprios partidos e sedentos por aderir à base aliada após oito longos anos de penúria na oposição? Por isso, reúne lideranças de dentro e fora da base aliada, livra-se das siglas que representam o anti-petismo, flerta com os lulistas PSB e PCdoB.

Eis a esfinge partidária que se apresenta.

Na primeira opção, uma verdadeira reforma política à direita. Com o surgimento de um partido que levante as bandeiras liberais sem ser apontado como herdeiro do regime militar. Com Kátia Abreu representando uma espécie de antípoda da verde Marina Silva (PV) em um quadro partidário muito mais rico que a atual rivalidade de petistas e tucanos.

Na segunda opção, um instrumento para esvaziar o pouco que resta da oposição ao governo petista. A genêse de um novo PMDB, reunindo lideranças que têm como única afinidade as facilidades de estar em um grande partido que pode aderir a qualquer gestão municipal, estadual ou federal. Ao mutilar demistas e tucanos sem contrapartida, a nova sigla daria origem a um quadro em que existiria apenas um único projeto de poder, o petista, e seus aliados.

O PSD pode ajudar a renovar o quadro partidário brasileiro ou acabar com ele de vez.

A história deve dizer.

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O fim das regionais. Em Joinville

28 de abril de 2011 0

O prefeito de Joinville, Carlito Merss (PT), levou mais de dois anos para apresentar seu projeto de reforma administrativa. Natural, diante do quadro desfavorável que encarou na Câmara de Joinville na primeira metade do mandato. Mais do que o tempo que levou para tentar mudar máquina, chama atenção um dos 60 pontos da proposta.

O petista quer transformar as atuais 14 secretarias regionais da prefeitura em seis gerências. É a extinção das estruturas criadas por Luiz Henrique da Silveira (PMDB) quando prefeito e que serviram de inspiração parao processo de descentralização administrativa implantado por ele quando governador do Estado.

Luiz Henrique prefeito dividiu a cidade em 14 regiões e destinou uma estrutura própria e um secretário municipal para cada uma delas. Luiz Henrique governador usou a experiência implantada na cidade para criar as 36 secretarias de desenvolvimento regional que existem atualmente em Santa Catarina.

Em tempos de cofres raspados, a economia com o salário de 14 secretários municipais deve ter pesado na decisão de Carlito.

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O PSDB de 1988, o PSD de 2011 e Jorge Bornhausen

26 de abril de 2011 2

Junho de 1988, cerca de 30 parlamentares deixam o PMDB para fundar o PSDB.

À frente da empreitada, nomes como do senador Fernando Henrique Cardoso, o ex-governador paulista Franco Montoro e os deputados Mario Covas e José Serra. Embora tivesse prestígio, o grupo detinha pouco poder na burocracia da sigla durante o governo José Sarney, especialmente no diretório paulista, comandado pelo governador Orestes Quércia.

Do alto de sua experiência, um político catarinense apontava um erro de estratégia dos dissidentes.

_ Não se pode fazer partido antes das eleições.

O autor da frase, publicada na edição da revista Veja de 29 de junho de 1998, era Jorge Bornhausen. Ele lembrava que seu PFL, fundado em 1985, enfrentou muitas dificuldades a primeira eleição, realizada naquele mesmo ano. Agora, Bornhausen é tido como um dos articuladores de uma dissidência que guarda semelhanças com a diáspora tucana.

O PSD do prefeito paulistano Gilberto Kassab e da senadora Kátia Abreu também deve nascer em um momento de fragilidade das oposições e com bancada superior a 30 parlamentares. Surgirá maior que  PSDB de 1988 se for confirmada a adesão do governador catarinense Raimundo Colombo (DEM) e o grupo que seria levado por ele.

A principal diferença é que o PSDB de 1988 saiu do governo para ser oposição.

Os futuros pessebistas, na mais benevolente das hipóteses, nascem para ser híbridos.

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Primeiro da fila

26 de abril de 2011 1

Apareceu a primeira liderança política catarinense a declarar em alto e bom som que vai integrar o PSD dos ex-demistas Gilberto Kassab e Kátia Abreu. Não é o governador Raimundo Colombo (DEM), que ainda negocia o embarque na nova legenda. Também não é o deputado federal Jorginho Mello (PSDB), que esteve forte nas bolsas de apostas no começo de abril. Nem o empresário Nilso Berlanda (DEM), o primeiro a ser citado como possível neo-pessedista.

É o vereador Dão Koeddermann, do PSDB de Balneário Camboriú.

Ele já anunciou, inclusive em seu site oficial, que vai deixar o ninho tucano. Convoca simpatizantes e destaca os valores do novo partido: liberdade de opinião, liberdade de empreender, democracia como mecanismo político, livre iniciativa como instrumento econômico.

Koeddermann foi secretário regional de Itajaí nos dois mandatos de Luiz Henrique da Silveira (PMDB). Sempre indicado por Leonel Pavan (PSDB).

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Ainda os tucanos

26 de abril de 2011 0

O senador Paulo Bauer nega, de forma enfática, que tenha, em algum momento, prometido voto ao deputado estadual Marcos Vieira na disputa pela presidência estadual do PSDB-SC – vencida pelo ex-governador Leonel Pavan na quarta-feira passada. Vai além. Diz que, se depender dele, Vieira nunca chegará à presidência da sigla, apelando até ao velho clichê “não nos coloquem na mesma mesa”, para deixar claro o antagonismo com o outro tucano.

A mágoa de Bauer é causada por uma mensagem de celular enviada por Vieira a ele na véspera da eleição dizendo que não retiraria a candidatura à presidência por causa dos apoios que recebeu, “inclusive vc” (sic). A mensagem, embora dirigida a Bauer, foi enviada a diversas liderenças tucanas. Segundo o senador, foi a “molecagem” que o levou a votar em Pavan.

(Publicado na edição de hoje Diário Catarinense e do Jornal de Santa Catarina)

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Apenas um almoço

26 de abril de 2011 1

Filé ao molho shitake, salmão ao molho de manga, arroz, purê de batata com cenoura e, de sobremesa, sorvete com calda. O cardápio do almoço entre o governador Raimundo Colombo e o deputado federal gaúcho Onyx Lorenzoni foi leve, porque de indigesto já bastava o tema da conversa: o futuro do DEM. Por cerca de uma hora, na Casa dAgronômica, o deputado tentou convencer o governador a não abandonar a legenda. As versões que ambos deram ao deixar o encontro são tão conflitantes que fica a dúvida sobre se estavam realmente no mesmo lugar.

Onyx Lorenzoni, um dos 11 vice-presidentes do DEM nacional, desembarcou em Florianópolis no primeiro dia útil após a publicação da entrevista em que Colombo admitia a hipótese de aderir ao PSD. O gesto foi o esboço de rápida reação dada pelo comando nacional do DEM, que vê na permanência do catarinense e de seu grupo a última esperança de sobrevivência da sigla. Mal acabou o encontro, Lorenzoni usou o Twitter para colocar panos quentes no possível embarque do governador na futura legenda de Gilberto Kassab, Guilherme Afif Domingos e Kátia Abreu. Afirmou que o catarinense “vai ficar e lutar por um DEM mais sintonizado com as pessoas”, entre outras tuitadas enaltecendo o governador catarinense.

À repórter Natália Viana, do Diário Catarinense, o deputado gaúcho demonstrou cetismo diante dos dois caminhos que Colombo tem diante de si, a fusão PSDB-DEM e a opção pelo PSD. O primeiro argumento do deputado gaúcho foi duvidar que o PSD consiga sair do papel a tempo de disputar as eleições municipais ano que vem. Não acredita que o prefeito paulistano Kassab consiga reunir as cerca de 500 mil assinaturas de eleitores, em pelo menos nove estados, exigidas pela legislação. Brinca que o dissidente está “vendendo terreno no céu” aos 37 deputados federais – 11 deles demistas – que já arregimentou.

A fusão entre tucanos e demistas, segundo o deputado, seria inviável pela necessidade de ser celebrada até outubro, prazo final para o novo partido, que surgiria da união de ambos, poder concorrer nas eleições municipais de 2012. Disse ter visto apenas uma fusão entre dois partidos: a de PL e Prona, originando o PR, que nasceu após seis meses de complicações jurídicas.

Lorenzoni também poderia ter citado, com razão, as inúmeras tentativas de Leonel Brizola e Roberto Jefferson de tentarem reunir sob a mesma bandeira PDT e PTB, os herdeiros do getulismo. Assim como poderia dizer que nunca houve uma fusão entre dois grandes partidos na história brasileira, como tem repetido o ex-prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia – outro demista que pretende manter as coisas como estão. Mas é justamente “mais do mesmo” que Colombo tem dito que não quer.

Talvez por isso, as tuitadas de Lorenzoni foram desmentidas pela assessoria de imprensa do governador tão logo foram parar na internet. Colombo nunca teria garantido ao deputado que permaneceria no partido. Em Joinville, onde foi participar da inauguração da pedra fundamental da fábrica da General Motors, o próprio governador fez questão de dizer que nada mudou em relação ao que disse quarta-feira ao jornalista Josias de Souza, da Folha de S.Paulo. Ressaltou que decide seu futuro político nos próximos dias, que as opções são as mesmas e que não está entre elas permanecer no partido do jeito que está.

Dessa forma, a reação do DEM nacional à saída de Colombo e de praticamente todas as lideranças catarinenses da sigla foi tão rápida quanto inóqua. O esforço dos demistas vai ter que ser muito maior do que apenas mandar um de seus vice-presidentes filar o almoço da Casa d’Agronômica.

(Publicado na edição de hoje do Diário Catarinense e do Jornal de Santa Catarina)

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Sensação de politização

25 de abril de 2011 0

A eleitoralização das políticas de segurança pública tem sido pauta permanente em Santa Catarina nos últimos anos. A ponto de nas eleições do ano passado, dois candidatos ao governo, Raimundo Colombo (DEM) e Angela Amin (PP), terem feito a promessa explícita de que indicariam um nome técnico para dirigir a Secretaria de Segurança Pública. A outra candidata viável, Ideli Salvatti (PT), esquivou-se da promessa, mas disse que se indicasse um político, ele precisaria ter comprovada experiência na área.

Eleito governador, Colombo cumpriu a promessa, escolhendo o promotor de Justiça Cesar Gruppa para tocar a pasta. Também tirou do papel, com a minirreforma administrativa, a ideia de desmembrar segurança pública e sistema prisional. Voltamos ao que se tinha antes do governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB), responsável por fundir, em 2003, as pastas de Segurança Pública e de Justiça e Cidadania.

Deu a Secretaria de Justiça à deputada estadual Ada de Luca (PMDB), indicando que, talvez, a politização é que tenha sido desmembrada. Certo é que a escolha de Grubba foi um alento após um período em que deputados com projetos políticos tocaram a segurança no Estado. Mesmo que ele não tenha conseguido emplacar todos os nomes que quis em alguns postos-chave, como o comando da Polícia Civil.

Acontece que, como diz o ditado, “cachorro picado por cobra tem medo de linguiça”. Ao ver que dos 202 policiais civis que serão distribuídos pelo Estado, apenas um vai dar expediente em Blumenau, terceira maior população do Estado, a reação da cidade foi imediata.

O sentimento foi perfeitamente traduzido pela capa do Jornal de Santa Catarina de terça-feira, ao desenhar 201 bonequinhos pretos e um vermelho _ o delegado destinado à cidade. O presidente da Associação Empresarial de Blumenau, Ronaldo Baumgarten Jr, assinou um duro texto sobre a sensação de que mudaram os nomes, mas a velha política continua rondando a segurança.

Queixa-se de que em vez de política de segurança existe um “mapa político da segurança”, responsável por distorções na distribuição de efetivo policial nos últimos anos. Alega que a entidade sempre buscou, sem sucesso, conseguir os números de policiais civis e militares por habitante de cada município. Seria a forma de comparar a situação de Blumenau com a das demais cidades de porte.

Números em debate

Curiosamente, uma audiência pública da Assembleia Legislativa discute hoje, em Blumenau, a segurança pública. O secretário Grubba terá a chance de explicar esse e outros pontos que afligem os blumenauenses. Até porque o número de civis foi apenas o primeiro teste prático da despolitização da segurança. Colombo já anunciou que pretende contratar 1,5 mil policiais militares ainda este ano. É bom que critérios de distribuição sejam discutidos antes do fato consumado.

A justificativa oficial da Secretaria de Segurança para destinar apenas um dos 202 novos civis para a Blumenau foi dada ainda na terça-feira: foram escolhidas as regiões que apresentam maior defasagem de número de policiais.

Se for para repetir o discurso e prometer mais atenção na próxima distribuição, Grubba vai frustrar mais uma vez os já frustrados cidadãos de Blumenau. Da mesma forma que, em audiência pública similar realizada em 2009, os joinvilenses tiveram que ouvir do ex-secretário e hoje deputado federal Ronaldo Benedet (PMDB) que os números da violência em Joinville ainda não justificavam cuidados especiais, ao serem comparados com os de outras regiões.

Se Grubba der resposta similar aos blumenauenses, de pouco adiantará ser ter sido uma indicação técnica. A secretaria costuma usar números para dizer que, em alguns casos, existe mais “sensação de insegurança” do que registros policiais. Talvez haja um novo dado para a pasta monitorar a partir de agora na hora de anunciar aumento de efetivo ou de estrutura: sensação de politização.

(Coluna publicada nas edições de hoje do Diario Catarinense e do Jornal de Santa Catarina)

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Alívio na conta

24 de abril de 2011 0

O governo do Estado também tem dilemas parecidos com o de um cidadão comum. Como qualquer assalariado que recorre a empréstimos consignados e depois passa meses precisando se virar com o desconto na renda mensal, Santa Catarina repassa 13% de tudo que arrecada para o governo federal, por conta da dívida do Estado com a União, renegociada em 1996. São cerca de R$ 120 milhões mensais de uma dívida que começou em R$ 4 bilhões e que hoje beira os R$ 10 bilhões, graças a juros e encargos.

Só em 2010, o Estado pagou R$ 1,24 bilhão para a União – dinheiro suficiente para duplicar a BR 470 e ainda concluir a reforma da Ponte Hercílio Luz com o troco. Apenas um terço desse valor se refere à amortização da dívida contraída em 1996. O resto, R$ 814 milhões, foram juros e encargos. Somente em 2009, o Estado conseguiu começar a fazer o pagamento da amortização da dívida dentro da parcela de 13% da arrecadação. Na prática, só se pagaram juros por 10 anos.

É justamente na questão dos juros que Santa Catarina, aliado a outros estados, pretende apresentar uma proposta de renegociação da velha dívida na próxima reunião do Confaz – órgão que reúne os 27 secretários estaduais da Fazenda –, no dia 29 de abril. A defesa da proposta será encabeçada pelo secretário da Fazenda do Paraná, Luiz Carlos Hauly, e tem o aval prévio do Grupo de Gestores das Finanças Estaduais (Gefin), que reúne técnicos das secretarias. No último encontro do Confaz, ficou definido que uma das inúmeras propostas para reduzir o impacto das dívidas seria escolhida para que os governos iniciem a pressão junto ao governo federal – a quem cabe aceitar ou não a proposta.

Foram preparadas duas alternativas. A mais simples, feita a pedido dos secretários estaduais, é a de determinar que a taxa de juros nunca supere a referência da taxa Selic, do Banco Central. Hoje, a dívida de Santa Catarina é corrigida pela variação do índice de inflação IGP-DI, da Fundação Getúlio Vargas, mais 6%. A medida teria impacto maior para estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, que pagam IGP-DI mais 9%. A taxa Selic, atualmente, está em 12% ao ano.

Essa proposta é encarada como um simples ajuste no contrato e, acreditam os secretários, tem boas chances de emplacar junto ao governo federal. A ousadia maior está na proposta alternativa defendida pelos técnicos do Gefin: limitar os juros das dívidas de todos os estados a 3% ao ano. Eles argumentam que, após mais de uma década da assinatura dos contratos, é preciso revisar o cenário. Basta uma ligeira olhada nos números para ver que mesmo com as parcelas milionárias pagas em dia, o tamanho das dívidas só aumenta.

Caberá aos estados, através dos secretários, decidir comprar essa briga junto ao governo federal. Em Santa Catarina, Ubiratan Rezende é defensor da ideia. Diz que o momento é maduro para o debate e que é possível chegar a um acordo em que os valores economizados no pagamento de juros seja obrigatoriamente gasto em infraestrutura. Seria uma equação em que todos ganhariam, especialmente quem espera por obras que não saem do papel.

Substituto do Fundo Social

Santa Catarina também estuda outra maneira de inventar dinheiro para obras de infraestrutura: usar até 5% do ICMS devido pelas empresas para construir, em parceria com elas, estradas ou vias de acesso. Nesse caso, o Confaz é a barreira, não o aliado. Cabe ao órgão aprovar mudanças na cobrança do ICMS, principal imposto dos estados, como forma de diminuir a guerra fiscal.

O governador Raimundo Colombo tem se empenhado na tarefa de convencer outros estados a aprovar o mecanismo. Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso do Sul já aderiram à proposta.

Na prática, seria um substituto ao atual Fundo Social, criado no primeiro governo de Luiz Henrique da Silveira (PMDB).

O Fundo Social foi o principal instrumento de LHS para investimentos, ao permitir que parte da arrecadação ficasse livre dos percentuais de repasses aos municípios, aos demais poderes e às áreas de saúde e educação. As decisões recentes do Tribunal de Contas do Estado determinando que os percentuais sejam respeitados também no Fundo Social – além da criatividade dos deputados estaduais, que começaram a aprovar leis vinculando despesas ao programa – praticamente tornaram sem sentido a iniciativa.

(publicado na edição de domingo do Diário Catarinense)

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Autópsia da disputa

24 de abril de 2011 0

Desde que foi implantado no Brasil, no Código Eleitoral de 1932, o voto secreto prega peças eventuais. Se isso acontece em eleições gerais, não seria diferente quando apenas os políticos votam, em disputas internas dos partidos. A eleição para a presidência estadual do PSDB, realizada na quarta-feira, tem tudo para entrar para o folclore político catarinense pelo racha que criou e pelas mil versões de uma história que acabou decidida em favor do ex-governador Leonel Pavan contra o deputado estadual Marcos Vieira, por 59 votos a 43.

Nos dias que se seguiram à votação, ambos os candidatos foram atrás dos votos prometidos que não apareceram. Quem projeta uma votação tem uma lista, lembra um tucano bem-informado. As listas de Pavan e Vieira não bateram com o resultado da eleição, indicando que muita gente prometeu o mesmo voto aos dois. E que teve liderança que não entregou todos os votos que dizia controlar.

Os desdobramentos, como a formação da nova executiva pelo presidente reeleito, vão corroborar ou desmentir as diversas versões. Certo nisso tudo é que Pavan conseguiu reverter na última hora apoios que eram dados como certos por Vieira, e o contrário não aconteceu. Pavan chegou tão confiante ao dia da votação que rejeitou uma proposta de consenso em torno do ex-presidente Dalírio Beber, feita de última hora, negociada pelo deputado estadual Gilmar Knaesel, e que balançou Vieira. Naquela hora, ceder não seria mais necessário.

Para chegar a essa condição, o ex-governador agiu em três frentes no curto espaço de tempo entre o adiamento da eleição no domingo e a votação na quarta-feira. Primeiro, nacionalizou o debate. Foi a São Paulo encontrar-se com o presidente nacional da sigla, Sérgio Guerra, e José Serra, e voltou falando em ceder a vaga ao senador Paulo Bauer – caso Vieira também abrisse mão da disputa. Com a jogada, trouxe para junto de si o senador, que havia prometido voto ao adversário. Ao mesmo tempo, disparou telefonemas aos tucanos com direito a voto cobrando o apoio perdido. Por fim, conseguiu conquistar parte dos estimados 38 eleitores ligados ao deputado federal Jorginho Mello, que pedira votos para Vieira no domingo. Se a conquista desses votos, relevantes em uma disputa apertada como essa, teve ou não o aval do deputado, vai depender de quem contar a história.

Jorginho sempre frisou que seu candidato ideal seria o prefeito de Imbituba, Beto Martins – até mesmo na declaração de voto a Vieira. Na quarta, o deputado não pediu a palavra e nem votos. Após o resultado, Martins foi o único nome anunciado por Pavan, como seu primeiro vice-presidente. O suficiente para que surjam especulações de que Pavan poderia pedir licença e ceder espaço ao vice, agradando a quem aderiu de última hora.

Aliados do ex-governador negam e garantem que o ex-governador saiu da acirrada disputa com ainda mais gana de tocar o dia a dia da legenda. A executiva do partido já está sendo montada com posições de destaque para quem indicou aposta em Marcos Vieira e acabou ficando com Pavan. O senador Paulo Bauer tem tudo para ser o presidente de honra e herdar a vaga na executiva nacional, hoje ocupada pelo ex-governador. O prefeito de São Lourenço do Oeste, Tomé Etges, ficou com uma das vice-presidências. Aliada de primeira e de todas as horas de Pavan, Luzia Mathias, prefeita de Camboriú, será secretária-geral.

Os discursos todos, mesmo no campo derrotado na disputa interna, são de conciliação e reaglutinação em torno de Pavan. Unidade que será testada nas delicadas discussões sobre a fusão do partido com o DEM e a possibilidade de perda de quadros para o caçula PSD, principalmente se receber a adesão do governador Raimundo Colombo (DEM).

O dia seguinte à eleição trouxe fatos novos que deixaramcom jeito de discussão antiga a mais recente das lutas fratricidas do PSDB catarinense. Que venha a próxima.

(publicado na edição de sábado do Diário Catarinense e de final de semana do Jornal de Santa Catarina)

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Quatorze dias depois

22 de abril de 2011 0

Há duas semanas, o governador Raimundo Colombo (DEM) concedeu entrevista coletiva para falar sobre os primeiros cem dias de gestão. Ao final, foi perguntado sobre seu futuro político e a possibilidade de migrar para o PSD do prefeito paulistano Gilberto Kassab. A pergunta tinha base objetiva: na véspera, a senadora Kátia Abreu, que também fez a mudança, disse que não tinha perdido a esperança de contar com o governador catarinense na nova legenda. Na época, Colombo não fechou as portas, mas disse que não pretendia fazer qualquer movimento antes das eleições municipais do ano que vem. Disse que queria algo novo, não necessariamente um novo partido, mas um movimento de mudança no modelo político.

– Não queria mais do mesmo. Queria uma coisa nova, a sigla depois pouco me importa – afirmou.

Passaram-se exatamente 14 dias entre aquela conversa e a publicação, ontem, da entrevista dada por Colombo ao jornalista Josias de Souza, da Folha de S. Paulo. Está registrada lá a insatisfação do catarinense com o “mais do mesmo” oferecido no cardápio do DEM nacional, preocupado mais em não se esfacelar do que em apontar rumos para a oposição ao governo de Dilma Rousseff (PT). O fato novo é o apelo por uma fusão entre DEM e PSDB e a pulverização do prazo que ele se deu para tomar a decisão de trocar de partido.

Se antes eles esperaria pelas eleições municipais, agora Colombo tem pressa. A decisão precisa ser tomada até junho, quando o PSD deve ser fundado oficialmente. A exigência é legal: só fica livre de punições por infidelidade partidária quem participar do ato de fundação da sigla. Políticos que optarem por migrar depois ficarão sujeitos à perda de mandato.

O que fez o governador catarinense deixar de lado a costumeira cautela diante de bolas divididas e dar um ultimato ao DEM? Nas duas semanas que passaram, aconteceram movimentos importantes no tabuleiro político. No dia 13 de abril, Gilberto Kassab deu uma prova de força do novo partido ao lançá-lo na Câmara dos Deputados em um evento com 32 deputados federais, dois senadores, um vice-governador e um governador. Um grupo bem mais numeroso do que as especulações iniciais, e que tende a aumentar.

Nesse período, informalmente, Kátia Abreu tomou a missão de divulgar o PSD. Com um discurso menos confuso que o de Kassab (“não esquerda, nem direita, nem centro”), a senadora conseguiu diminuir o tom adesista do novo partido reafirmando valores liberais e dizendo que, pessoalmente, seguirá oposição. Colombo não esconde a simpatia pela ex-colega de Senado.

Por fim, o almoço do catarinense com o presidente nacional do DEM, senador José Agripino Maia, na sexta-feira, em Blumenau. Ali, teria ficado evidente a falta de um projeto político dos demistas nacionais. Apenas o mais do mesmo dos últimos longos oito anos de oposição.

Ultimato ou desculpa?

Nos últimos dias, aqueles que se interessam pelo futuro do DEM voltaram os olhos para Santa Catarina. A avaliação é de que partido não resistiria à perda do Estado onde teve os melhores resultados eleitorais em 2010. Entre os diversos veículos da imprensa nacional que o procuraram, Colombo falou com Jozias de Souza, com quem mantinha boa relação nos tempos de senador.

Escolheu o jornalista e o veículo porque sabia o que ia dizer e a quem queria fazer chegar a mensagem. Um recado público ao DEM: ou inicia o processo de fusão com o PSDB ou ele não termina o semestre na sigla.

Dito assim, soa como um ultimato. Mas é possível encaminhar em dois meses uma discussão que envolve acomodações políticas nos 27 estados e 5.565 munícipios?

Sem falar que a fusão daria a todos os filiados o direito de trocar de partido. Se um PSD que ainda nem existe já provoca tanto estrago no DEM, como enfrentar a cooptação por parte de estruturas mais sólidas, como a do PMDB, por exemplo? Por essas e outras o processo de fusão de dois grandes partidos é inédito na história política brasileira, encontra resistências em ambas as cúpulas partidárias e dificilmente seria viabilizada no período de tempo proposto por Colombo.

Colocada dessa forma, passa a impressão de ser uma falsa alternativa. Mas ninguém vai poder acusar o catarinense de não ter oferecido uma opção aos demistas antes de trocá-los pelo PSD.

(publicado nas edições de hoje do Diário Catarinense e do Jornal de Santa Catarina)

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