Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
 

Ressaca permanente

28 de julho de 2011 0

Coluna publicada na edição de hoje do DC e do Santa:

O discurso que embalaria a campanha de Ideli Salvatti (PT) ao governo do Estado em 2010 estava pronto e empacotado pelo menos dois anos antes. Os petistas diriam que Santa Catarina tinha um governador de direito, Luiz Henrique da Silveira (PMDB), e uma governadora de fato, a senadora Ideli, responsável por trazer os recursos federais para grandes obras no Estado. Como o governo federal não conseguiu concluir a tempo obras como a duplicação da BR-101 Sul, o discurso foi para o lixo.

A dificuldade do governo petista em iniciar, fazer andar ou concluir as principais obras de infraestrutura no Estado acabou sendo tema da campanha dos adversários, em especial de Raimundo Colombo (DEM-PSD), eleito em primeiro turno, enquanto Ideli amargava um terceiro lugar. Se, em plano nacional, o PT comemorou a vitória de Dilma Rousseff na sucessão de Lula, os petistas daqui passaram a viver em clima de permanente ressaca.

O epicentro desse sentimento é a relação de Ideli com o ex-deputado Claudio Vignatti, candidato a senador em 2010. Ambos fizeram a campanha como se a disputa fosse contra o colega de chapa, pela disputa da hegemonia eleitoral do PT-SC. A rispidez chegou ao ponto de um ser impedido de entrar no helicóptero que levaria o outro embora ao final de um comício. Fazendo campanha à sua maneira, Vignatti ficou a 360 mil votos da vaga no Senado, com uma votação inédita para petistas catarinenses: 1,2 milhão de eleitores. Para um lado, sinal de que sua estratégia estava correta. Para outro, de falta de engajamento no projeto.

Assim que Dilma assumiu o governo, Ideli e Vignatti ganharam cargos de menor expressão. À ex-senadora, o Ministério da Pesca, na periferia do poder. Ao ex-deputado, o segundo escalão da pasta das Relações Institucionais – perto do poder, mas sem holofotes. A crise que resultou na demissão de Antonio Palocci e nas mudanças na cúpula do governo federal levaram Ideli a virar, do dia para a noite, chefe de Vignatti. No primeiro momento, discursos de conciliação: ambos trabalhariam juntos até o ex-deputado ganhar um cargo de destaque. Dias depois, a demissão sem aviso prévio.

O gesto pegou todo o PT catarinense de surpresa e trouxe à ribalta todas as discussões não digeridas pelas lideranças e pela militância petista. A saída em meio a polêmicas, denúncias e o efeito dominó de demissões no Ministério dos Transportes e do Dnit, acabou servindo para trazer os ressentimentos a público.

Cargos em jogo

Quando senadora, Ideli conseguiu emplacar as indicações para os principais cargos federais do Estado: Eurides Mescolotto na Eletrosul, João José dos Santos no comando estadual do Dnit e Eliane Schmidt na gerência do INSS. Todos foram mantidos em seus postos, apesar das tentativas do PT-SC, a começar pelo presidente José Frisch, de emplacar Vignatti na Eletrosul.

Fora das Relações Institucionais em pleno início de crise no Dnit, o ex-deputado acabou se tornando o preferido do PT-SC para assumir a direção do órgão no Estado. João José dos Santos dirige o departamento desde 2003, no início do primeiro governo Lula. Agora, alguns petistas relembram aquele discurso que não saiu do papel na campanha, da mesma forma que as prometidas obras de infraestrutura, e cravam: “Perdemos a eleição por causa do Dnit”.

A saída de João José dos Santos é dada como certa em Brasília. Ainda que não existam denúncias contra ele, por enquanto, as sucessivas prorrogações de prazos e ampliações dos valores dos contratos da obra fazem parte de toda a polêmica sobre a condução do PR no Ministério dos Transportes, alvo da faxina presidencial. A substituição dele por Vignatti daria ao órgão uma visibilidade política que nunca teve. E ao ex-deputado, um orçamento de R$ 1 bilhão para administrar. Mas não curaria as velhas feridas do PT catarinense.

Bookmark and Share

Comentários

comments

Envie seu Comentário