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Vale quase tudo

13 de maio de 2012 0

Aos domingos, ficção no Bloco de Notas

— Vetada de novo?
— Eu já te disse que essa música é um caso perdido…
— Essa música foi sucesso por décadas, como vai ser um caso perdido?
— O Teu Cabelo Não Nega foi mais décadas ainda. Experimenta cantar na rua…

Válter não se conformava. Olhou mais uma vez para o relatório de 37 páginas que poderia ser resumido em uma frase: “a canção Vale Tudo, do compositor Sebastião Rodrigues Maia, vulgo Tim Maia, já falecido, segue vetada para execução pública por estimular o crime de homofobia”. O Conselho de Valores Culturais Igualitários, órgão do poderoso Ministério da Nova Cultura, considerava que a canção composta em 1989 usava de um falso clima de liberalidade para expor preconceitos sexuais ao permitir “tudo”, exceto a dança em par entre pessoas do mesmo sexo.

— Isso é piada. O Tim era um gozador.
— Com esse argumento vão continuar vetando. Você sabe o que precisa fazer se quer que a música volte a ser liberada.
— Mas isso é um estupro!
— Melhor ter mais respeito com as vítimas de violência sexual, Válter. Diversas canções passaram por Reavaliação de Conteúdo sem perder seu valor estético. Veja que bonita continuou Garota de Ipanema.
— É… “moça do sonho dourado no sol de Ipanema”. Ridículo.

Mas era a única alternativa mesmo. Dois dias depois, Válter reuniu todos os documentos do processo e fez o Requerimento de Reavaliação de Conteúdo para que a letra da canção Vale Tudo fosse novamente apreciada pelo Conselho de Valores Culturais Igualitários. Naqueles dois dias, pensou em formas de adaptar a letra sem grande alteração de conteúdo e sem desrespeitar a memória de seu ídolo Tim Maia. Considerava que quanto menor a intervenção, melhor.

Vale o que vier, vale o que quiser
Até vale dançar homem com homem
e mulher com mulher

Assim que a alteração fosse aprovada, a canção seria encaminhada para o Centro de Regravação Musical, órgão vinculado ao Conselho. Lá, os técnicos de gravação procurariam, com base em outras canções ou entrevistas, as palavras que deveriam ser enxertadas na canção original. Faz-se maravilhas naqueles estúdios, pensou Válter, “se for considerado maravilha falsificar uma obra-prima em nome de conceitos atuais”. Em último caso, se o material na voz original fosse insuficiente, era necessária uma autorização do CRM para que um cantor de voz semelhante gravasse as palavras a serem incluídas.

Era apenas um “até”. Tim perdoaria.

As decisões do Conselho de Valores Culturais Igualitários eram tomadas em sessões públicas que tinham aspecto de tribunal de júri. Como a análise não se restringia à canção popular, mas a filmes, livros e qualquer obra de arte com conteúdo não compatível com os princípios de tolerância e igualdade praticados nos dias atuais, as sessões mensais eram concorridas. Havia muito conteúdo a ser avaliado pelos membros do Conselho — pinçados entre o que havia de mais plural em órgãos governamentais e não-governamentais.

De frente ao grupo de sete avaliadores, sentavam-se os representantes de cada obra. Eles não se manifestavam, já que todos os argumentos da defesa eram feitos por escrito. Era uma forma de evitar as desconfortáveis manifestações indignadas de uns poucos inconformados com as decisões dos conselheiros.

Havia uma plateia cativa: os integrantes da AMUL – Associação das Minorias Ultrajadas, grupo supraminoritário que se uniu para contrabalançar o peso opressor da maioria. Eles comemoravam efusivamente cada sinal de racismo, homofobia, machismo ou outra agressão detectados e eliminados pela Comissão.

— Válter Nascimento Rocha – chamou o presidente da comissão.
— Sou eu — disse Válter, ficando em pé para ouvir a decisão.
— O senhor fez um requerimento para relançamento da canção Vale Tudo, já em domínio público, com a letra original readequada para os atuais princípios de igualdade e tolerância dos quais a Comissão de Valores Culturais Igualitários é guardiã constitucional. Após análise das alterações propostas, por unanimidade, os conselheiros decidiram vetar o pedido.

O grito dos militantes da AMUL foi uníssono e fez com que nada mais se ouvisse no ambiente. O presidente do Conselho apertou a campainha para pedir silêncio e retomou a decisão.

— A alteração de, perdoem-me, “só não vale dançar homem com homem” para “até vale dançar homem com homem” indica uma anormalidade tolerada. A letra segue incidindo no crime de homofobia.

Cabisbaixo, Válter deixou a sala de decisões do Conselho de Valores Culturais Igualitários, ouvindo os gritos de comemoração dos amulistas. A cena se repetiria outras vezes, com pequenas alterações. Os amigos perguntavam por que ele insistia em uma canção incorrigível. Talvez incorrigível fosse ele.

No primeiro retorno à Comissão, seis meses depois, Válter ainda tentava chegar a uma letra que não modificasse muito a obra original. Saiu-se com:

Vale o que vier, vale o que quiser
Vale dançar homem com homem
E mulher com mulher

Não adiantou. De acordo com o poderoso conselheiro-presidente, a alteração era insuficiente para descaracterizar a homofobia original da letra.

— Quando a canção ressalta que “vale dançar homem com homem e mulher com mulher”, indica que existem espaços em que isso não é permitido. Ou seja, dissemina a existência de locais em que a homofobia é tolerada. Trata-se de uma forma sutil de apologia com a qual não podemos coadunar.

Válter mergulhou novamente na letra. Virara questão de honra. Vale Tudo voltaria a ser lançada comercialmente, voltaria a tocar nas pistas de dança, nas festas. Bastava achar a frase certa. Depois de um mês, encaminhou novo Requerimento de Reavaliação de Conteúdo.

Vale o que vier, vale o que quiser
Vale dançar homem com homem
E também com mulher

A nova versão significou uma pequena vitória. Não houve unanimidade entre os sete conselheiros desta vez. Aquele único voto pela liberação significava esperança para Válter. Apesar da sempre rígida posição contrária do presidente do Conselho.

— Embora deva-se ressaltar a ausência de crime de homofobia nessa nova versão, isso não é suficiente para que o Requerimento de Reavaliação de Conteúdo seja acolhido. Se a questão homofóbica foi resolvida, outro mal tomou seu lugar. A versão é machista. Na canção, apenas o homem pode escolher com quem dançar, seja outro homem ou outra mulher. A mulher aparece como um ser passivo, subjugado. Não podemos aceitar.

Apesar da derrota, Válter sentiu estar pegando o jeito. O retorno de Vale Tudo às paradas era questão de tempo. Pouco tempo diante dos dois anos que já havia percorrido – entre tentativas de emplacar a letra original e as alteradas.

Ele estava quase certo. Foi mesmo questão de tempo. Outros dois anos de alterações vetadas, com os placares cada vez menos adversos. Foi apenas o décimo Requerimento de Reavaliação de Conteúdo produzido por Válter que recebeu o aval dos sete conselheiros da Comissão de Valores Culturais Igualitários – para frustração dos amulistas presentes.

De olhos fechados, diante dos membros da Comissão e da claque da AMUL, Válter ouvira com alívio as palavras mágicas: “A versão foi aprovada pela Comissão de Valores Culturais Igualitários. Encaminhe-se a obra para o Centro de Regravação Musical para demais providências”.

A batalha fora vencida. Onde quer que estivesse, Tim Maia estaria grato a seu persistente fã. Válter lembrou da frustrante primeira tentativa de alteração da letra, quando saiu derrotado e humilhado daquele mesmo salão. Olhou em volta, agradeceu aos conselheiros e saiu cantando baixinho a Vale Tudo que ajudara a renascer.

Vale o que vier, vale o que quiser
Vale dançar com qualquer um
Que por lá estiver

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