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Posts do dia 10 junho 2012

Nas ondas do rádio

10 de junho de 2012 0

Aos domingos, ficção no Bloco de Notas.

O anúncio pegou a pequena Primavera do Sul de surpresa naquele início de anos 80: o radialista Roger Santos não só declararia apoio a José do Carmo para prefeito como seria, ele próprio, candidato a vereador. Era um golpe decisivo contra os aristidistas, o pessoal de João Aristides, também candidato, na disputa pela prefeitura. O acordo que levaria o popularíssimo Roger Santos às urnas fora articulado pelo prefeito Jorge Esteves, sempre aliado de Carmo, mas planejando uma futura dissidência para quebrar a polarização que marcava a política de Primavera do Sul.

Mas como a tal dissidência ainda estava apenas na cabeça de Esteves, o que contava para os sul-primaverenses era que Roger Santos era Carmo e Carmo era Roger Santos. Líder de audiência nas tardes da Primeira Estação AM com um programa que misturava notícias, assistencialismo e muito SU-CES-SO, o radialista era uma das principais personalidades da cidade e sempre se esquivara dos convites para entrar na política — que vinham de carmistas e de aristidistas. Por isso, aquela articulação de Esteves praticamente definia o prefeito eleito e o vereador mais votado.

O anúncio foi recebido no diretório dos aristidistas com a solenidade merecida: a de um enterro. Não havia tempo hábil para uma resposta à altura e, cá entre nós, cabo eleitoral desse porte à disposição. Talvez numa tentativa de animar a tropa, João Aristides bateu na mesa e falou.

— Eles vão de Roger Santos e a gente de Dagoberto Rogério, mas vamos ganhar assim mesmo!

Os aristidistas reagiram positivamente ao discurso motivacional do chefe que citava, ao acaso, um eterno candidato a vereador do partido. Eterno candidato, nunca vereador, ressalte- se. Os aliados de fé entenderam do discurso que não importava quem viesse do outro lado, seria a base aristidista que garantiria a vitória. Para os pragmáticos significava apenas “vamos com o que temos e seja o que Deus quiser”.

Foi um desses pragmáticos, José Ramos, que percebeu uma engraçada coincidência na citação de Aristides. Santos era o sobrenome do radialista Roger e do eterno candidato Dagoberto Rogério — dos Santos, parte do nome sempre excluída nas campanhas.

Ficou um tempo com aquilo na cabeça, até o dia em que encontrou Dagoberto e fez a proposta de tentar algo diferente na eleição que viria.

Dagoberto Rogério as três últimas eleições já mostraram que não dá certo, vamos tentar algo diferente?
— Mas as pessoas me conhecem assim…
— Mais um motivo pra mudar.
— O que tu sugere?
Rogério Santos.
— Vai ficar parecido com o radialista…
— Você é rápido, nem precisei explicar.

Dagoberto, ou melhor, Rogério Santos concordou. Em uma época de cédulas de papel, o estratagema poderia dar resultado. Pior que os 89 votos da última eleição não seria, certamente. Na tentativa de confundir os eleitores do radialista quase homônimo, até o parco material de campanha foi adaptado.

No comitê de campanha dos carmistas a festa era uma só. José do Carmo confirmara análises, pesquisas e prognósticos, vencendo mais uma vez João Aristides na disputa pela prefeitura. O único e insignificante revés foi a posição do radialista Roger Santos na eleição para a Câmara: um decepcionante quarto lugar, que garantiu uma cadeira, mas relativizou o peso da participação da celebridade na campanha. Entre os copos de vinho e cervejas, esse era o assunto de todos — do mais baixo cabo eleitoral à cúpula do partido.

— É recado do povo de que a classe política tem valor – dizia Esteves.
— E não tem? Veja aquele coitado do Dagoberto Rogério, tanto concorreu que o povo deu uma chance — concordou Carmo.

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