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Copa do Mundo e eleições: uma mitologia nacional

15 de junho de 2014 1

A influência eleitoral dos resultados das vitórias ou derrotas em Copas do Mundo faz parte da mitologia política brasileira. Por mais que a população dê amostras seguidas de que não há padrão histórico entre o que acontece nos gramados e nas urnas, o tema volta a cada quatro anos. Não seria diferente agora com o Mundial realizado no Brasil e chamado de “A Copa das Copas” pela presidente e candidata à reeleição Dilma Rousseff (PT).

Foi em 1970, durante o regime militar, que a Copa do Mundo e a política brasileira começaram a tabelar. Não havia eleições presidenciais a serem vencidas, mas o desempenho da seleção naquele mundial foi largamente utilizado pelo governo do general Emílio Garrastazu Médici para referendar um clima de otimismo nacional que sustentava, junto com as armas e oligarquias locais, a ditadura. Esse clima já havia sido visto antes, em 1958, mas de forma menos instrumentalizada pelo marketing de governo. A primeira vitória em Copas era apenas um dado a mais naqueles anos de Juscelino Kubitschek em que o Brasil aprendeu a gostar do Brasil.

Como uma espécie de castigo pelo mau uso da seleção de Pelé, Tostão, Gerson, Jairzinho e tantos outros craques, o Brasil só voltou a vencer o Mundial quando o torneio passou a coincidir com eleições diretas para presidente da República, 24 anos depois. Em 1989 o país voltava a eleger seu presidente – no caso, Fernando Collor de Mello – um ano antes do torneio. A partir de 1994, com a redução do mandato presidencial de cinco para quatro anos, escolher presidentes e torcer pelo Brasil na Copa passaria a ser praticamente simultâneo.

Antes disso os brasileiros já tinham passado pela experiência de eleição e Copa no mesmo ano em duas oportunidades. Em 1930, primeiro Mundial no Uruguai e vitória de Júlio Prestes sobre Getúlio Vargas na última disputa pela Presidência na República Velha. Uma Copa ainda sem expressão e uma eleição que não valeu, porque o regime acabou deposto pela revolução liderada por Vargas.

A segunda vez, passados 20 anos, em 1950, com o emblemático Mundial realizado no Brasil, também coincidiu com eleição e com Vargas. Fora do poder desde 1945, ele tentava retornar pelas urnas. Em campo, a Seleção Brasileira entrou para a história pela derrota na final para os uruguaios. O palco foi o Maracanã, maior estádio do mundo e símbolo do torneio. Foi ele o responsável pelos tímidos protestos que envolveram aquela Copa – primeiro sobre a necessidade de construí-lo, depois sobre sua localização.

Quem liderava as críticas era o vereador carioca Carlos Lacerda, que ganharia dimensão maior anos depois. Vargas venceria a eleição dois meses após o Maracanazzo. Apesar da tristeza nacional, é difícil encontrar reflexos dos gols sofridos por Barbosa na vitória do antigo ditador.

A volta da coincidência entre eleição presidencial e Copa também marca a gênese da rivalidade política – e às vezes quase clubística – entre o PSDB e o PT. Foi em 1994 que Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva se enfrentaram pela primeira vez. A bordo do otimismo gerado pelo Plano Real e pelo fim da inflação, o tucano FHC venceu em primeiro turno. Esse otimismo nacional começara nos pés de Romário, que levou uma seleção que não era dos sonhos de ninguém a uma vitória sofrida, mas muito comemorada.

Oito anos depois, a vez de Lula vencer pela primeira vez também era acompanhada de um título mundial. Comandado por Ronaldo, Rivaldo e Felipão, o pentacampeonato injetou otimismo em um país que reclamava das taxas de desemprego e do baixo crescimento econômico e que, três meses depois, decidiu dar uma chance ao PT.

Em outras três oportunidades, a eleição presidencial coincidiu com derrotas da seleção. É possível enxergar um ponto comum nesses momentos em que a bola não entrou: os eleitores decidiram pela continuidade. Fernando Henrique foi reeleito em 1998 após o Mundial marcado pela convulsão de Ronaldo; Lula ganhou o segundo mandato em 2006, quando a seleção parou nas quartas-de-final; Dilma Rousseff conquistou o terceiro mandato petista quando a seleção de Dunga caiu diante da Holanda.

Desta vez, mais do que o sucesso de Neymar e companhia, o vínculo maior entre o torneio e a política é a própria organização do evento. As diferenças entre o Mundial – e seu legado em obras – prometido e o entregue serão parte do discurso que vai balizar a continuidade dos petistas no poder, a volta do tucanos ou o surgimento de uma terceira via.

(Texto publicado na edição deste domingo do DC)

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Comentários

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Comentários (1)

  • José Germano Cardoso diz: 15 de junho de 2014

    Se mitologia e como assim aceita qual o nexo causal mesmo que paradoxal condutor do enredo ? Pelo posto ou suposto não aparece, não transclara, não se repete para o afirmado: é incompreensível, portanto. Datas históricas por si só soltas numa ordem cronológica dão a impressão que o que (?) do afirmado ou negado ? Um nem a favor nem contra mas muito pelo contrário que corrobora algo a estar no ar, uma tentativa de neutralidade a sustentar de fato uma injustiça difusa no éter… e não serei eu o tolo a definí-la, conhecedor da praga. Mais três meses e faça chuva ou faça sol, com ou sem ventu suli, o tempo voltará ao normal, para o bem ou para o mal. Mmmmmmm
    mmmmmm eis o cultivo das plantas daninhas, a cultura das justificativas, as fabriquetas de bodes expiatórios.

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