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Capítulo ONZE - Júlio Garcia

22 de junho de 2014 1

Crédito: Agência Alesc.Júlio Garcia é o presidente do Tribunal de Contas do Estado.

Como quase todos os integrantes da instituição que fiscaliza as contas dos órgãos estaduais e municipais catarinenses é um ex-parlamentar. Mas não qualquer – sua passagem pela Assembleia Legislativa, em quatro mandatos, tornou-se lendária pela capacidade de articulação política.

É essa capacidade que o faz ser requisitado ainda hoje, mesmo teoricamente aposentado, e que a partir de 2003 tornou Júlio Garcia um dos principais fiadores da maior aliança da política catarinense contemporânea – mas vamos com calma.

Comecemos por 1986, quando ele se elege deputado estadual pela primeira vez. Seu partido era o PFL, o único pelo qual disputou eleições. Seria reeleito quatro anos depois, mas sofreria um forte revés em 1994: ficou com a oitava suplência, o que costuma significar exatamente nada.

Foi salvo do ostracismo pela composição do PFL com Paulo Afonso Vieira (PMDB) no segundo turno daquela eleição, fundamental para que o peemedebista derrotasse Angela Amin (PPR) e se elegesse governador. Sócios na vitória, os pefelistas ganharam cargos. Garcia primeiro assumiu o Badesc, depois a Casan – substituindo outro suplente do PFL. Era o lageano Raimundo Colombo, que estava deixando a estatal para concorrer a prefeito de Lages.

Quando o PPB (novo nome do PPR) dos Amin e o PFL de Jorge Bornhausen acertaram novamente os ponteiros, a partir de 1997, Garcia e Colombo mantiveram a lealdade a Paulo Afonso. Isso quase lhes custou a legenda na eleição seguinte: o PPB tentou vetar as candidaturas de Garcia à Assembleia e de Colombo à Câmara (ele havia sido derrotado na disputa lageana pelo cunhado Décio Ribeiro, do PDT).

O veto acabou não se confirmando e ambos foram eleitos. Dois anos depois, Colombo conseguiria voltar à prefeitura de Lages, enquanto Garcia seguia discreto na Assembleia. Os anos difíceis haviam passado, mas o protagonismo ainda não chegara.

Amin era o governador e perderia a reeleição em 2002 em uma virada espetacular de Luiz Henrique da Silveira (PMDB) – a bordo da onda que levou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Planalto. Eleito, LHS tinha em sua aliança original formada por PMDB e PSDB apenas 10 dos 40 deputados. Apostou na coalizão com o PT como forma de garantir a maioria.

Não há petista em Santa Catarina que negue o esforço de Luiz Henrique para manter o parceiro que lhe garantiu a vitória eleitoral. Conseguiu levar Volnei Morastoni (PT) para a presidência da Assembleia. Com o petista no cargo, chegou a viabilizar missões internacionais para ele e para o vice-governador Eduardo Pinho Moreira (PMDB), permitindo que o petista assumisse o cargo por 13 dias – o então presidente nacional do PT, José Genoíno, até veio para a posse.

Mas o esforço foi inviabilizado pelas correntes mais à esquerda do partido, representadas pelo deputado estadual Afrânio Boppré. A presença do PSDB no governo estadual era um dos principais entraves, mas não o único. Os petistas tinham ainda preconceito em relação ao PMDB. Tanto que, na esfera nacional, o partido havia desistido de contar com o apoio formal dos peemedebistas a Lula – preferindo composições com siglas de médio porte (sim, estou falando do PTB de Roberto Jefferson, entre outros).

Sem os petistas, Luiz Henrique buscou o PFL e o principal canal era Júlio Garcia. O pefelista foi eleito presidente da Assembleia na segunda metade mandato com um feito raro que passaria a ser constante: a unanimidade, com a divisão dos cargos na mesa diretora entre todos os partidos. No comando do Legislativo, Garcia ajudou a costurar outra composição inédita: a aliança entre PFL e PMDB em primeiro turno.

O senador Vilson Kleinübing, maior entrave a composições com os peemedebistas, morrera em 1998 após uma longa batalha contra o câncer. Paulo Afonso cumpria discreto mandato como deputado federal. Episódios como as Letras e o quase impeachment pareciam distantes e superados.

Mesmo assim, não foi fácil. Reeleito prefeito em 2004, Raimundo Colombo era pré-candidato do partido ao governo do Estado, com toda a força do padrinho Jorge Bornhausen – que depois da derrota do filho Paulo Bornhausen na disputa pelo Senado em 2002, acionara seu plano B.

O projeto era apresentar um rosto novo e deixar de ser suporte ao PP de Esperidião Amin (sim, o PPB, ex-PPR e ex-PDS, havia mudado de nome mais uma vez). Colombo estrelava as propagandas do PFL e combatia o principal projeto político de LHS: a criação de 27 secretarias regionais de desenvolvimento – que chegariam a 30 até o final do mandato. Para o lageano, as novas estruturas – marcos da chamada descentralização administrativa – eram cabides de emprego.

O cenário se consolidava com a candidatura à reeleição de Luiz Henrique, os nomes que disputaram a eleição anterior (Amin e o petista José Fritsch), somados às caras novas de Colombo e do senador Leonel Pavan (PSDB). LHS já aprendera na eleição anterior que era necessário o apoio de três dos cinco maiores partidos do Estado para vencer a disputa – e trabalhava de olho em manter o PSDB e em trazer o PFL.

No projeto de Colombo e Bornhausen, os pefelistas tentavam fazer Amin desistir da revanche e aceitar ser candidato ao Senado em uma chapa liderada pelo PFL. O ex-governador não aceitava e nem rejeitava, ia às reuniões e falava sobre qualquer outra coisa, prometia cartas de apoio que nunca chegaram. A ponto de Colombo perder sua já conhecida paciência.

- Humildade é uma coisa, humilhação é outra – diria.

Após mais um desses encontros frustrantes e temendo levar o partido ao isolamento, Colombo aceitou a sugestão de conversar com Luiz Henrique – diz que a lenda que o pefelista telefonou e recebeu o convite para viajar com o peemedebista no mesmo dia. Na volta, estavam acertados. Colombo desistia de concorrer ao governo e aceitava ser senador na chapa de Luiz Henrique. Com a definição, Pavan concordou em ser candidato a vice – em uma equação viabilizada pela renúncia de LHS ao governo, permitindo que Pinho Moreira assumisse o cargo em definitivo até o final do ano. Estava formada a tríplice aliança.

A Amin restou uma coligação com o PV. Fritsch não tinha cenário melhor: dera a vaga de vice ao PL por um punhado de segundos de televisão e apostava que Luci Choinacki (PT) pudesse herdar votos de peemedebistas históricos que se recusassem a votar em um pefelista.

Com a composição, Luiz Henrique desta vez apoiaria até o fim o presidenciável tucano Geraldo Alckmin. Lula não tinha mais o apelo de quatro anos antes por causa do desgaste com o escândalo do Mensalão, quando importantes dirigentes petistas foram acusados pelo petebista Roberto Jefferson de pagar mesada para ter o apoio de parlamentares de partidos de médio porte.

A candidatura de Fritsch não decolou e o PT-SC se viu em um segundo turno sem palanque para Lula. Amin estava lá, completamente isolado. A ocasião levou, lentamente, a mais uma união de ex-adversários ferrenhos. Apenas na última semana de campanha Amin declarou voto em Lula e vice-versa.

A composição não impediu a derrota, mas evitou o massacre eleitoral. No primeiro turno, o petista perdera para Alckmin por quase 800 mil votos de diferença no Estado e reduziu essa distância para 295 mil. Amin diminuiu a desvantagem de 600 mil votos para 173 mil.

De qualquer forma, estava mais do que claro que Luiz Henrique pilotava a maior máquina eleitoral criada na política catarinense contemporânea. Perguntado sobre porque aceitara enfrentá-la, restou a Amin a conhecida sagacidade:

- Porque não falei de cabides para depois entrar no armário.

A ironia tinha destino certo: Raimundo Colombo, senador eleito com a maior votação da história de Santa Catarina, 1,73 milhão de votos. Assumiria a cadeira de Bornhausen no Senado e teria a tribuna para viabilizar o plano de ser o futuro piloto da máquina criada por LHS.

Pioneiro na aproximação entre PFL e PMDB, Júlio Garcia também tinha resultados a colher. Reeleito com a nona votação para a Assembleia, seu melhor resultado, ele se consagrou também com a recondução para a presidência – outra vez por unanimidade.

Seria seu último ato antes de ir para o Tribunal de Contas. Mas a obra que começou levaria o PFL, agora rebatizado como DEM, de volta ao comando do Estado.

A série oBásico tem 14 capítulos, publicados aos domingos e quarta-feiras.
Próximo capítulo (25/06): Dário Berger.
Leia os textos anteriores.

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Comentários

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Comentários (1)

  • Julia diz: 24 de junho de 2014

    As respostas do Amin são as melhores. Se eu fosse ele, escreveria um livro com elas. haha

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