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Capítulo TREZE - Manoel Dias

29 de junho de 2014 3

Manoel Dias é ministro do Trabalho e presidente licenciado do PDT catarinense.

O homem que ocupa o mais importante cargo de um catarinense na Esplanada dos Ministérios é também o personagem mais longevo dessa história – ultrapassando, inclusive, o ponto escolhido para delimitar a política catarinense contemporânea, que é a redemocratização a partir das eleições diretas para o governo estadual em 1982.

Manoel Dias, ou Maneca, como até a presidente Dilma Rousseff o chama, era vereador em Içara, pelo antigo PTB em 1964, quando os militares derrubaram João Goulart. Foi cassado e preso. Dois anos depois, pelo MDB, chegaria à Assembleia Legislativa, Acabaria cassado novamente em 1969, com os direitos políticos suspensos por dez anos.

Ele nunca mais conseguiu ocupar um cargo político através do voto. Não que tenha desistido das urnas. A proximidade com Leonel Brizola o levou para o PDT, partido herdeiro do trabalhismo pré-regime militar. Pela sigla, tentaria retornar à Assembleia em 1982, 1986 e 1990 – sempre longe da meta.

Sem votos suficientes para uma vitória eleitoral, foi como comandante do PDT em Santa Catarina e integrante da cúpula nacional do partido que ele conseguiu virar protagonista desta história. A ligação com Brizola fez de Maneca vencedor de todos os embates que teve dentro do PDT em Santa Catarina – e que levaram lideranças como Jaison Barreto, Leonel Pavan, Fernando Coruja e Amauri Soares a deixarem o partido ou serem saídos dele.

Dessa forma, Maneca controla o PDT com mão de ferro e faz com o que o partido tenha sua cara em Santa Catarina. Em 2006, chegou a concorrer ao governo do Estado após o mal-sucedido flerte com a candidatura de Esperidião Amin (PP). Os pedetistas exigiram o apoio do ex-governador à candidatura presidencial de Cristóvão Buarque (PDT) para consumar aliança, mas o PP rejeitou. Amin seria derrotado por Luiz Henrique no segundo turno, enquanto o pedetista teve 0,9% dos votos no primeiro turno.

O flerte de 2006 acabou se consumando quatro anos depois, quando Maneca foi candidato a vice-governador na chapa encabeçada por Angela Amin (PP), que iniciou aquela campanha liderando as pesquisas.

Santa Catarina chegara naquela eleição sob a marca do final do ciclo de LHS. Os partidos sócios da tríplice aliança – PMDB, DEM e PSDB – se achavam no direito de lançar candidato ao governo. O próprio Luiz Henrique havia oficializado a disputa interna no início de seu segundo mandato. Dizia que o candidato à sucessão seria o mais competitivo, não importando a sigla. No páreo, o vice-governador Leonel Pavan (PSDB), o senador Raimundo Colombo (DEM) e o ex-vice-governador Eduardo Pinho Moreira (PMDB) – que ficara de fora da última eleição com a missão de ser governador nos oito meses finais do primeiro mandato de LHS. Para se igualar aos demais pretendentes, recebeu a presidência da Celesc.

O campo da oposição trazia, além de Angela Amin, a senadora Ideli Salvatti (PT). A petista estava no final do mandato e apostava na popularidade do presidente Lula e no crescimento da candidatura de Dilma, a escolhida para a sucessão presidencial. Tentaria vincular ao máximo a eleição catarinense à nacional. Uma união das oposições foi tentada até o limite do prazo de definições, mas esbarrou em um fato concreto: Angela e Ideli não abriam mão de encabeçar a chapa.

A mesma dificuldade existia na tríplice aliança. O candidato natural seria Pavan, que assumiria o cargo com a renúncia de Luiz Henrique para concorrer ao Senado. Herdaria pelo menos oito meses de governo e a possibilidade de concorrer com a máquina nas mãos. Mas o tucano enfrentava um problema externo. No início de 2010, seria acusado pelo Ministério Público de Santa Catarina de receber de propina para facilitar a vida de uma empresa de combustíveis com dificuldades junto à Fazenda estadual.

Como Pavan era vice-governador, a decisão sobre aceitar ou não a denúncia cabia ao Tribunal de Justiça, após permissão a ser concedida pela Assembleia Legislativa. O tucano pediu publicamente para que os deputados votassem a aprovação. Durante semanas, o foco da política catarinense esteve voltado para os desembargadores do Órgão Especial do TJ-SC. Mesmo após tanta expectativa, o caso acabou não sendo votado. Com a chegada do prazo final para desincompatibilização, Luiz Henrique renunciou e Pavan tornou-se governador do Estado. O caso foi automaticamente remetido ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) – foro privilegiado dos governadores – sem data para analise. O tucano continuava no jogo, embora chamuscado.

No PMDB, Eduardo Pinho Moreira enfrentara Dário Berger, prefeito de Florianópolis, na prévia do partido para escolher o candidato ao governo. Era a disputa entre o controlador da burocracia partidária e a nova liderança do partido, fortalecida por ter derrotado Esperidião Amin na Capital dois anos antes. A máquina venceu por 58% dos votos dos delegados.

Diante das movimentações dos tucanos e dos peemedebistas, o DEM de Raimundo Colombo também procurou se colocar no tabuleiro. Assim que Pavan assumiu o governo, os demistas deixaram os cargos do primeiro escalão. Colombo foi lançado ao governo e o ex-pefelistas diziam que disputariam em chapa pura se fosse necessário.

E assim a coisa andava, em meio a especulações e conversas. PSDB e DEM tentaram composições com o PP – que esbarraram também na dificuldade de convencer Angela, líder das pesquisas, a desistir. Pinho Moreira procurou PT e PCdoB, mas as conversas não avançaram. A questão nacional pesava. José Serra (PSDB) liderava as pesquisas para a presidência, mas era pouco a pouco alcançado por Dilma.

Em Santa Catarina, Luiz Henrique queria manter a parceria nacional com os tucanos, vitoriosa em 2006. Para reaglutinar a tríplice aliança, apelou a Serra. Em conversa com o presidenciável, Pavan deu uma cartada: disse que retiraria a candidatura se Colombo e Pinho Moreira se entendessem, o que parecia improvável naquele momento. O tiro saiu pela culatra.

A pressão se voltou para os pré-candidatos do DEM e do PMDB. Após uma longa conversa com Colombo, em 13 de junho de 2010, Pinho Moreira desistia da candidatura ao governo para ser vice na chapa do DEM. Alegava isolamento do PMDB. Os peemedebistas que apoiaram Dário na prévia ainda tentaram articular outro nome, já que o prefeito não havia deixado o cargo no tempo necessário para se candidatar – sem sucesso. Pavan tentou resistir no páreo, mas acabou aceitando a orientação nacional e evitando uma intervenção explícita.

A tríplice estava mantida, com Colombo ao governo, Pinho Moreira de vice, Luiz Henrique e Paulo Bauer (PSDB) como candidatos ao Senado. Enfrentariam as candidaturas isoladas de Angela/Maneca e de Ideli, que trazia o empresário Guido Bretzke (PR) de vice.

A diferença de estruturas era abissal e foi confirmada no dia a dia da campanha. Logo Colombo ultrapassaria Ideli e Angela e chegaria na reta final beirando a vitória em primeiro turno – que acabou acontecendo. Com quase um milhão de votos de vantagem sobre a candidata do PP, Colombo era eleito governador. Levava o DEM, ex-PFL, de volta ao Centro Administrativo. Sim, Doutor Jorge conseguiu.

A tríplice ainda garantiria vitórias tranquilas para Luiz Henrique e Bauer ao Senado – com o tucano um pouco ameaçado pelo petista Claudio Vignatti em alguns momentos da campanha. A composição também deu a Serra 56% dos votos no segundo turno, a maior vantagem que o tucano teve em um Estado. Eram cerca de 500 mil votos de vantagem sobre Dilma, exatamente como prometera LHS quando pediu apoio do tucano para reaglutinar a tríplice aliança.

O quadro nacional era oposto. Dilma foi eleita presidente com 56% dos votos, garantindo mais quatro anos para o PT no Palácio do Planalto. Começou mexendo pouco na equipe que recebera de Lula – mantinha, por exemplo, o Ministério do Trabalho com o pedetista Carlos Lupi. A presidente enfrentaria no primeiro ano de mandato uma série de denúncias contra esses ministros herdados, que levou à demissão de vários deles, incluindo Lupi. A vaga foi inicialmente ocupada por Brizola Neto, adversário da cúpula pedetista, mas Dilma acabou devolvendo a pasta para o grupo afastado. Homem de confiança de Lupi e integrante da cúpula, Manoel Dias virou ministro.

No governo estadual, Colombo não conseguia esconder o incômodo de ser liderança de um partido que nacionalmente diminuía a cada eleição. Atrelado ao PSDB desde 1994, o DEM/PFL parecia não ter futuro além de fazer oposição ao PT e perder eleições a cada quatro anos. Não era só o catarinense que estava incomodado. O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, era outra liderança ascendente encurralada por esse caminho a qual o DEM parecia condenado a percorrer.

Para mudar de rota, o paulistano tinha um plano. Esse plano passava por Santa Catarina.

A série oBásico tem 14 capítulos, publicados aos domingos e quarta-feiras.
Próximo capítulo (02/07): Cesar Souza Junior.
Leia os textos anteriores.

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Comentários

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Comentários (3)

  • Curió diz: 29 de junho de 2014

    Veemente protesto quiridu Upi.
    Como é que vc vai municipalizar a história se nacionalizada e estadualizada ainda não está completa ?
    A não ser que acrescente mais alguns capítulos.
    Faltou alguém no básico. Só foto não vale.

  • Curió diz: 30 de junho de 2014

    Queria, bem disseste.
    As meninas andam com o facho meio baixo… depois conversamos… temos que ver como é que fica… ele se bandeando para o lado dos demarenistas fica complexo por demais. A gente não quer admitir mas parece que não sobra indício sequer de caco para saber que tipo de flores do mal haviam.
    * Papai anda lendo demais o Baudelaire Upi… já pensasse se ele entra em depressão ?
    mas é assim… cá mucadinho ele vem com a corda toda.

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