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Capítulo CATORZE - Cesar Souza Junior

02 de julho de 2014 4

cesarCesar Souza Junior é o prefeito de Florianópolis, capital de Santa Catarina.

O jovem político de 35 anos herdou do pai o nome e a vocação para os microfones e para as urnas. Cesar Souza, o pai, é apresentador de televisão, locutor e suplente de senador. Em 1982 estreou nas urnas como vereador em Florianópolis pelo PDS. Era uma dos nomes em que Jorge Bornhausen apostava para renovar o partido. Quatro anos depois, já pelo PFL, conquistaria o primeiro mandato como deputado estadual. Cesar Junior tinha sete anos.

Conciliando mandatos, programas de televisão e rádio, Cesar Souza se transformou em um campeão de votos. Em 1990, seria o segundo deputado federal mais votado do Estado, atrás apenas de Angela Amin. Não gostou muito da vida em Brasília e voltou para a Assembleia, onde conquistou mais três mandatos. Em 2006, decidiu que era hora de lançar o filho, com quem já dividia os microfones. Cesar Junior tinha 27 anos quando se elegeu pela primeira vez – o sétimo mais votado do Estado. Já tinha um objetivo: a prefeitura de Florianópolis.

Era um sonho do pai que nunca se viabilizou. Havia sempre outro nome, outro projeto na frente. Agora, o filho era a prioridade. A aliança com os Amin em Florianópolis estava desfeita após a derrota para Dário Berger em 2004. Esperidião Amin lançou-se candidato a prefeito disposto a impedir a reeleição do novo rival, mas os pefelistas, com o partido rebatizado para DEM, preferiram – literalmente – apostar no novo.

Aos 29 anos, Cesar Junior disputou a prefeitura da Capital de olho na eleição seguinte. Travou uma batalha voto a voto com Angela Albino (PCdoB) pelo terceiro lugar, antecipando uma disputa que se repetiria em 2012. Chegou na frente, por 0,5%.

Reeleito deputado estadual em 2010, o segundo mais votado, o demista assumiria a Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte no governo do correligionário Raimundo Colombo. O foco era Florianópolis. Mais do que o projeto pessoal de Cesar Junior, estava no planejamento também impedir que o Dário elegesse seu sucessor e se credenciasse a enfrentar Colombo na eleição de 2014.

O começo de mandato do governador era marcado por uma tentativa titubeante de se descolar do senador Luiz Henrique (PMDB) – antecessor e padroeiro da aliança que garantira sua vitória – e pela falta de recursos em caixa para marcar aquele novo momento. Enfrentou, ainda, uma greve de 62 dias do magistério ainda no primeiro semestre de governo.

O isolamento do DEM em plano nacional preocupava Colombo, que olhava com atenção para os movimentos do prefeito paulistano Gilberto Kassab, colega de partido disposto a criar uma nova sigla. Naqueles primeiros movimentos, havia a digital de Jorge Bornhausen, conselheiro de Kassab, de Colombo e ainda eminência parda do DEM/PFL catarinense. Bornhausen também cansara de ser coadjuvante das derrotas do PSDB para o PT em plano nacional. Enxergou um caminho a percorrer na disposição do governador pernambucano Eduardo Campos (PSB) de criar uma terceira via.

A fundação de uma nova sigla era a brecha permitida pela legislação para trocar de partido sem perder os mandatos. O projeto começou tímido. Uma dúzia de parlamentares, talvez um pouco mais, que criariam um partido que depois seria fundido ao PSB de Campos, dando maior musculatura a essa tentativa de furar a polarização tucano-petista.

Colombo simpatizava com a ideia, mas temia levar o DEM – terceiro maior partido do Estado – para uma aventura. Não havia certeza de que o novo partido teria direito ao horário eleitoral gratuito e ao fundo partidário e nem se toda a burocracia necessária para fundar a sigla estaria concluída em tempo de participar das eleições municipais.

A cartada que definiu a mudança foi um gesto de Campos: dar o controle do PSB de Santa Catarina a Colombo. Se o novo partido não tivesse tempo de tevê ou não saísse do papel, haveria um Plano B. Ironicamente, o PSB-SC estava locado aos Berger – era presidido por Djalma, irmão de Dário e prefeito de São José, que logo buscaria abrigo no PMDB.

Com essa garantia, Colombo disse sim a Kassab. O DEM de Santa Catarina foi, do dia para a noite, transformado em partido nanico. Toda a bancada federal e estadual, além de quase todos os prefeitos da sigla, foi junto com o governador para o novo partido: o PSD.

Depois de caçar 500 mil assinaturas em todo o país, driblando denúncias de fraude, e cumprir os requisitos burocráticos, o novo PSD estava pronto às vésperas do prazo limite. Talvez nem Kassab imaginasse o tamanho do desejo represado de pular cercas partidárias que existia no Congresso. O PSD nasceu com 51 deputados federais – a terceira maior bancada. De lambuja, a Justiça Eleitoral decidiu que os parlamentares carregavam na fuga o equivalente em frações do tempo de televisão das legendas originais.

O PSD mal existia e já era maior que os planos iniciais de dar suporte ao presidenciável pernambucano.

Alçado à condição de gênio da articulação política, Kassab resolveu ir além. Foi atrás do PT e da presidente Dilma Rousseff, sendo de pronto atendido. Qualquer liderança que estivesse ajudando a extirpar o DEM da política — como chegou a dizer Lula em 2010, durante comício em Joinville — era companheiro. Essa aproximação estava fora dos planos de Jorge e Paulo Bornhausen, deputado federal licenciado, secretário no governo Colombo e entusiasta da criação do partido.

A resistência do clã acabou expondo uma nova realidade. O PSD vivia um processo de renovação à margem do velho articulador. Esse movimento era liderado pela bancada estadual, com deputado Gelson Merisio, então presidente da Assembleia, à frente. No governo, o representante era o secretário da Fazenda Antonio Gavazzoni. Ambos vinham do Oeste, sob a popularidade do deputado federal João Rodrigues, ex-prefeito de Chapecó.

Desse grupo fazia parte Cesar Junior, novamente candidato a prefeito de Florianópolis com um discurso diferente do utilizado pelo velho PFL. Chegou a brincar, certa vez, que se um norueguês viesse a Florianópolis durante aquela campanha, sem entender os contextos, iria pensar que ele era um candidato de esquerda.

Brincadeiras à parte, a esquerda naquela eleição de Florianópolis, na teoria, tinha dona. Era a deputada estadual Angela Albino, em segundo lugar nas pesquisas, pronta para repetir a disputa particular com Cesar Junior – desta vez pela vitória. O candidato de Dário era o peemedebista Gean Loureiro, tido como azarão.

Para vencer, Angela tinha duas fórmulas. A primeira, impedir a divisão da esquerda, garantindo a coligação com o PT local. A segunda, ampliar seu eleitorado com um discurso mais ameno, voltado para o eleitor de centro. O PSD temia aquela movimentação e focou suas críticas na candidata do PCdoB, poupando Gean. A estratégia mostrou efeito, com o crescimento do peemedebista. Na reta final, Angela ficou fora do segundo turno graças a um castigo aplicado pelo eleitorado de esquerda que parecia garantido no início da disputa: o desconhecido Elson Pereira, do pequeno PSOL, dono de 1% nas pesquisas eleitorais, recebeu 14% dos votos. Um movimento cruel e decisivo, considerando que faltaram apenas 2% para a deputada comunista chegar ao esperado segundo turno com Cesar.

O embate final pela prefeitura foi disputado voto a voto, inclusive com Gean liderando pesquisas na reta final. O PSD venceu com 52,6% dos votos – concretizando os sonhos do pai Cesar Souza, do filho Cesar Junior e do governador, que via Dário deixar de ser uma ameaça real para 2014.

Após as eleições municipais, a guinada do PSD em direção a Dilma Rousseff ficou cada vez mais nítida. O partido assumiu um ministério, o das Micro e Pequenas Empresas, com Guilherme Afif Domingos. Começaram a ficar mais frequentes os encontros de Colombo com a presidente, que resultaram na aprovação de financiamentos de R$ 9 bilhões para o Estado.

O dinheiro viabilizou financeiramente o mandato de Colombo, que tratou de iniciar obras pelo Estado e de conquistar a simpatia de prefeitos de diversos partidos pulverizando entre eles parte do valor financiado junto ao governo federal.

Em 2013, Colombo começou a declarar que a gratidão que sentia por Dilma faria com que votasse nela para a reeleição. O discurso demorou a ser assimilado, inclusive pelo PT catarinense – oposição ao governo pessedista. Atônitos, os Bornhausen viam desmoronar o projeto que ajudaram a criar. Perguntado se sentiria desconforto em subir em um palanque pela reeleição da presidente petista, Paulo Bornhausen respondeu.

- Desconforto vai sentir quem estiver em um palanque com Dilma, não eu. Eu sei onde estou e para onde vou. Estou no partido criado para ser uma terceira via e apoiar Eduardo Campos.

Três meses depois da frase, em agosto de 2013, Paulo Bornhausen deixava o PSD e assumia o comando do PSB de Santa Catarina, com a ficha assinada pelo pernambucano.

Em novembro, Dilma visitaria Florianópolis para uma série de anúncios e assinaturas. No Teatro do CIC, ouviu Cesar Junior e Colombo, em tom semelhante, dizerem as palavras que mudavam o eixo da história política de Santa Catarina. Em sua fala, o jovem prefeito foi até o limite do que permite a legislação em eventos públicos para não deixar margem a mal-entendidos.

- Presidenta, por fim, reafirmo que aqui em Santa Catarina no geral, e em Florianópolis em particular a senhora conta com aliados nesta difícil tarefa que é governar um país com as complexidades do Brasil, num ambiente internacional tão instável. Este é um ato oficial, mas gostaria de deixar claro, que a senhora conta com o nosso apoio para continuar a transformação do país.

Estava mais do que claro. De olho no futuro, os herdeiros do pefelismo não queriam e não precisavam mais do Doutor Jorge.

 

 

A série oBásico teve 14 capítulos, publicados aos domingos e quarta-feiras entre maio e julho deste ano. Um novo capítulo será publicado no primeiro domingo de novembro, com personagem ainda indefinido.
Leia os textos anteriores.

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Comentários

comments

Comentários (4)

  • Gustavo diz: 2 de julho de 2014

    ESSE ESTADO TEM ODIO DO JORGE BORNHAUSEN, CHEGA DESSA OLIGARQUIA. QUE VOLTEM PARA MIAMI, ONDE POSSUEM SUAS RESIDENCIAIS MILIONARIAS

  • Curió diz: 2 de julho de 2014

    A nossa maior estima pelo prefeito. Esse tem atitude. Não importa a capa de chuva do seu figurino. Já raiou a liberdade.
    - Papai… não vais falar que esse tem o coco roxo ?
    - Filhinho… Curiosinho… nem sempre o feio é bonito…
    - Então vamos ensaiar ?
    - Tá bom quiridu.

  • Fábio Viegas diz: 2 de julho de 2014

    Enfim, alguém apresentou um relato claro de quem abandonou quem.
    Traição é quando as coisas são feitas pelas costas, mas isto foi claramente anunciado aos quatro ventos.
    Mas é a base dos votantes concorda com isso.
    Só veremos os reflexos das ações dos líderes do PSD (que abandonou o PSB) quando forem abertas as urnas dos votos do 1o turno aqui em SC, ou se os eleitores continuam a votar nas pessoas e não nos partidos (a exceção do PT que qualquer um pode se candidatar e obter no mínimo 20% dos votos).

  • Filiado… ( ao fã clube das mocoilas ) diz: 2 de julho de 2014

    O que é meu Deus do céu que existe de socialismo no PSB ainda mais brasileiro ?
    O que é que existe meu Deus do céu de social democrático no PSD ?
    E ainda mais no PSDB de social democrático brasileiro ?
    Agora… santa a Catarina… de que arca mais velha que a política café com leite foram tirar míseros 20% ao PT ? Só o Cezinha já dá sem pensar e/ou querer muito mais que isso. O Dromedário, com carinho, muito mais que 30%. Mais uns movimentados democráticos brasileiros um bocadinho e… toca-le pau Claudinho!!!

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