Aos domingos, ficção no Bloco de Notas
Quando ele entrou no ônibus, reconheci logo de cara e levei um susto. Na última vez que o vira, estávamos no palácio do governo. O governador assumira poucos dias antes e ainda não completara a equipe. Ele estava lá, representando seu partido. Cochichava na antessala do gabinete com outros três políticos “partido de si mesmo”, enquanto lá dentro os tubarões repartiam o governo entre si.
A colega do jornal concorrente até juntou os três para uma foto, que rendeu uma nota divertida. “Nós também ajudamos a eleger o governador”, repetiam. Com tanta convicção que, por um momento, esquecíamos que os candidatos daquelas siglas estranhas teriam dificuldade de juntar votos para se elegerem vereadores em pequenas cidades.
Mas, em meio àqueles semi-anônimos, ele era um quase conhecido, já veterano de outras eleições — governo, prefeitura. Sempre do mesmo jeito. Candidatura isolada por partido nanico, apoio ao cavalo vencedor no segundo turno, tentativa de emplacar um cargo no segundo ou terceiro escalão em janeiro.
Agora, ali no ônibus, símbolo de uma jogada que não deu certo.
Se fosse ele mesmo, claro.