Eis um legítimo post "bloco de notas". A visita de Serra a Santa Catarina foi uma oportunidade de ouvi-lo falar sobre assuntos que não tuíta. Como nem tudo vai para o texto final, abro as anotações aqui. Serra falou sobre o governo Dilma, questões tucanas, os dilemas da oposição e até sobre sua participação na eleição catarinense. Sempre medindo as palavras.
O governo Dilma.
- Eu acredito que o principal problema do governo não é o político. É não ter rumo. O ponto mais fraco do governo é a gestão.
- Tem uma peculiaridade no Brasil de hoje. Temos um governo que não sabe de onde veio, não sabe o que quer e nem sabe fazer acontecer aquilo que não sabe direito que quer fazer. É um dado da realidade. Alguém sabe direito qual é a política econômica? É o zig-zag. Em política de investimentos, a proposta mais nova é o trem-bala, que é uma proposta alucinada. Custa 40 ou 50 vezes a duplicação da BR-470.
A fusão PSDB/DEM e o PSD.
Serra diz que a questão não avançou porque não estava na agenda do partido e disse ter dúvidas sobre se o gesto fortaleceria a oposição. Diz que o PSD "aconteceu" e que não é preciso "empurrar para o outro lado".
- A fusão PSDB e DEM não avançou porque não estava posta. São partidos aliados, vai fazendo aliança. Por que uma fusão fortaleceria?
- O PSD é uma realidade. Aconteceu, independentemente da vontade. Eu, pessoalmente, nunca estimulei, mas aconteceu. O importante agora é que se some. Aqui no Estado temos uma aliança. Aqui, o governador Colombo disse que vai para o PSD e continuamos aliados. Ninguém vai para a teoria de que tem que empurrar para o outro lado.
Ser oposição
Serra defendeu o estranho argumento de que as indefinições da gestão Dilma fazem a oposição ter dificuldade para se posicionar. Foi acudido pelo senador Paulo Bauer, que lembrou que as pequenas bancadas oposicionistas não permitem grandes vitórias no Congresso _ embora lembrasse as duas medidas provisórias derrubadas em junho.
- É um governo que não disse até agora a que veio e o que quer. Isso prejudica até mesmo a oposição.
- A oposição tem que aprofundar seu perfil de oposição, que não é aquela do quanto pior, melhor. Aquela é do petista profissional. Você apontar os problemas e cobrar, é contribuir com o Brasil.
- A oposição tem que aprofundar seu perfil de oposição, que não é aquela do "quanto pior, melhor". Aquela é do petista profissional. Você apontar os problemas e cobrar, é contribuir com o Brasil.
Candidato a presidência mais uma vez?
O tucano evitou qualquer frase que parecesse uma confirmação de que pretende estar no páreo em 2014. Mas as reticências foram eloquentes.
- Allende também... (completando a pergunta de Moacir Pereira, que lembrava as quatro candidaturas de Lula e François Mitterrand antes de chegarem ao poder, em referência ao chileno Salvador Allende)
- Não tenho, nem destenho (pretensão de ser candidato). Essa não é uma questão posta. Acho muito prematuro. Sei que a imprensa tem esse interesse, muita gente no próprio partido que quis fazer isso. Acho um equívoco tremendo. Acho que nós temos é que fazer o trabalho de oposição que a população espera. É isso que eu sinto, até de quem não votou em mim. O momento não é de definir candidatura, de sim, de não, de quem. 2014 está muito longe
Pavan neutro a pedido de Serra?
Serra disse que não pediu para Pavan retirar a candidatura ao governo, apenas para preservar a tríplice aliança. Nos últimos dias, Pavan tem afirmado que foi Serra quem pediu para que ele ficasse neutro na disputa, para não perder os simpatizantes da candidata Angela Amin (PP). O tucano paulista não negou nem confirmou.
- Eu não pedi para o Pavan abrir mão, pedi para compor uma solução. Essa aliança PMDB, DEM e PSDB, eu batalhei muito por ela. O acerto de quem seria o candidato foi local. Batalhei muito pela unidade. Essa unidade aconteceu e foi bem sucedida.
- Eu sempre tive uma proximidade com a Angela Amin. Do casal, até mais com ela. Na eleição, tinha interesse no apoio dela. Agora, a definição precisa de como ia se manifestar ou não, eu não acompanhei. Isso seria conduzido pelo presidente do partido, por gente do comitê político. Agora, olhando a posteriori, nós ganhamos a eleição. Aquilo que o Luiz Henrique me disse que ia acontecer, aconteceu. Deu certo. (LHS prometeu a Serra que a tríplice aliança venceria em primeiro turno na disputa pelo governo e lhe daria uma vantagem de 1 milhão de votos sobre Dilma Rousseff. A diferença ficou em cerca de 500 mil)
O texto em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) dizia que os tucanos deveriam priorizar a classe média.
Serra disse que é um bom texto, mas que por ser complexo não era uma questão de concordar ou discordar. Rebateu a leitura de que FHC pregava que o partido deixasse de lado os pobres e afirmou que a classe média em questão é a que está surgindo, com salários mais baixos, ainda muito dependente dos serviços públicos. Defendeu serviços públicos mais universalizados e menos focalizados.
- O PSDB já tem apoio na classe média, nós temos é que aprofundar isso.
- A classe média que está surgindo é de salários mais baixos e que ainda demanda muito serviço público. Sem dúvida, é um setor que é muito sacrificado no Brasil.
- Vejo um retrocesso nas políticas sociais universais. Na saúde é claro. Na educação, em plano nacional, é claro. É uma fábrica de encrencas para depois resolverem com trapalhadas. E no caso do saneamento, que é outra questão fundamental, houve inclusive uma redução. As casas com ligação de esgoto aumentaram 14% nos anos 1990 e 7% durante o governo Lula. Houve uma desaceleração. Sem isso não há combate à pobreza estrutural.
Ainda FHC: o debate sobre a descriminalização das drogas
Disse que Fernando Henrique levantou uma boa discussão. Defendeu a realização de campanhas que desestimulem o uso das drogas, como foi feito com o cigarro quando ele era ministro da Saúde. Também considera importante a criação ou apoio a clínicas de recuperação e voltou a criticar o controle nas fronteira _ tema recorrente na campanha eleitoral. Disse que a preocupação maior é o crack.
- O debate que o Fernando Henrique abriu ou consolidou é sobre o consumo de maconha. Uma parte moderada do problema. É preciso examinar bem os países que tentaram fazer inovações nessa área, como a Holanda ou a Suiça, onde não deu certo.